‘Negócio imundo’: Comentarista faz ofensas racistas sobre cabelo de jogador durante transmissão

Celsinho
Rádio afirmou que já pediu a rescisão do contrato do comentarista (Gustavo Oliveira/Londrina Esporte Clube)

O jogador Celsinho, do Londrina, foi alvo de ofensas racistas por parte de integrantes de uma rádio de Goiânia, durante partida contra o Goiás, pela Série B do Brasileirão, nesse sábado (17). O comentarista Vinícius Silva disse que o cabelo do meia parecia uma “bandeira de feijão” e ainda chamou o afro do atleta de “negócio imundo”.

“Tomou uma pancada ali no tornozelo esquerdo, tá levantando, o cabelo dele deve pesar demais, né, Vinícius?”, comentou o narrador Romes Xavier, da Rádio Bandeirantes de Goiânia, durante a partida. “Exatamente, rapaz, parece mais uma bandeira de feijão na cabeça dele do que um verdadeiro cabelo”, respondeu o comentarista.

Vinícius Silva não parou por aí e prosseguiu com os comentários racistas sobre o cabelo do jogador: “Não é porque eu já estou perdendo os cabelos que eu vou achar um negócio imundo desses bonito. Parece mesmo uma bandeira de feijão”.

A bandeira de feijão, expressão popular, se refere à fase da colheita do alimento em que ramagem é arrancada e se forma um pequeno monte para secagem.

Repúdio

Os torcedores que acompanhavam a transmissão logo passaram a se manifestar contra as declarações do comentarista e do narrador da rádio. Ainda ontem, o próprio Londrina divulgou uma nota de repúdio a respeito das ofensas sofridas pelo jogador.

“É inadmissível e lamentável, veemente, que tais comunicadores, formadores de opinião, propaguem atos de racismo! Em verdade, o racismo é inadmissível em qualquer situação, lugar, fala e deve ser lutado diariamente, por todos! Com certeza as medidas serão tomadas, contudo, cabe a nós entender que não basta não ser racista, é necessário ser ANTIRRACISTA!”, diz posicionamento do clube.

A rádio também divulgou nota de repúdio sobre o caso envolvendo os próprios funcionários, e afirmou que já foi solicitada a rescisão do contrato do comentarista Vinícius Silva. “As expressões utilizadas pelos repórteres durante a transmissão do jogo não refletem, sob nenhuma hipótese, a opinião e o pensamento da Rádio Bandeirantes de Goiânia”, diz o comunicado.

‘Quem nunca errou?’

O narrador Romes Xavier, que disse que o cabelo do jogador “deve pesar demais”, também se posicionou nas redes sociais a respeito do episódio racista. Ele pediu desculpas a Celsinho e ao Londrina pelo” comentário infeliz” feito na transmissão.

“Colocações erradas, que jamais deveriam ter sido ditas. Quem me acompanha, sabe o quanto sou crítico sobre condutas como essa. Peço perdão. Quem nunca errou?”, escreveu o narrador.

Racismo é crime

De acordo com o CNJ (Conselho Nacional de Justiça), é classificada como crime de racismo – previsto na Lei n. 7.716/1989 – toda conduta discriminatória contra “um grupo ou coletividade indeterminada de indivíduos, discriminando toda a integralidade de uma raça”.

A lei enquadra uma série de situações como crime de racismo. Por exemplo: recusar ou impedir acesso a estabelecimento comercial, impedir o acesso às entradas sociais em edifícios públicos ou residenciais, negar ou obstar emprego em empresa privada, além de induzir e incitar discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. O crime de racismo é inafiançável e imprescritível, conforme determina o artigo 5º da Constituição Federal.

Já a discriminação que não se dirige ao coletivo, mas a uma pessoa específica, também é crime. Trata-se de injúria racial, crime associado ao uso de palavras depreciativas referentes à raça ou cor com a intenção de ofender a honra da vítima – é o caso dos diversos episódios registrados no futebol, por exemplo, quando jogadores negros são chamados de “macacos” e outros termos ofensivos. Quem comete injúria racial pode pegar pena de reclusão de um a três anos e multa, além da pena correspondente à violência, para quem cometê-la.

Sofia Leão
Sofia Leãosofia.leao@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Escreve com foco na editoria de Esportes no BHAZ.

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