No Brasil, país que mais mata trans e travestis no mundo, nenhuma luta é ‘mimimi’

dia nacional de visibilidade trans
Travestis e transexuais lutam por dignidade (Arquvio EBC + Yuran Khan/BHAZ)

Desde dia 29 de janeiro de 2004 pessoas transexuais e travestis do Brasil reforçam, por meio do Dia da Visibilidade Trans, que a luta contra a transfobia e o fortalecimento do discurso em prol da comunidade trans nunca se fizeram tão necessários. Apesar de todas essas vidas existirem muito antes do ano em questão, a data traz um marco na conquista por direitos negados às transexuais e travestis do país ao longo do tempo.

O direito ao uso do nome social, à cirurgia de redesignação sexual de forma segura e gratuita pelo SUS (Sistema Único de Sáude) e cota de 30% para mulheres trans e travesetis em candidaturas femininas, por partido, nas eleições, foram algumas das conquistas de 2004 para cá.

Documentário ELA, produzido pelo BHAZ, ainda em 2017, reúne depoimentos e experiências de mulheres trans e travestis. Confira:

Mas um grave contraste ainda é visto como um “rastro” dos longos anos de exclusão e violência contra a população trans. Enquanto militantes, ativistas e outras pessoas preocupadas com as causas LGBTQIA+ se esforçam para criar um ambiente seguro para pessoas transexuais e travestis, o Brasil anda na contramão de tal luta. O país é o que mais mata pessoas travestis e transexuais em todo o mundo. E sobreviver não é “mimimi”. Segundo levantamento divulgado hoje (29) pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), só em 2020 morreram 175 transexuais. Todas as mortes foram de pessoas que expressavam gênero feminino.

Violência velada

O Brasil segue em 1º lugar no ranking dos assassinatos de pessoas trans no mundo. Porém, pelo estudo analisado pela Associação, quinze estados e o Distrito Federal “não têm qualquer informação sobre violências motivadas por orientação sexual ou identidade de gênero”. O estudo mostra que apenas 11 estados brasileiros disponibilizam dados de violência contra LGBTs, porém, não revelam com especificidade a quantidade de assassinatos: Amapá, Bahia, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Paraíba, Pernambuco, Roraima, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins.

O dossiê da Antra mostra que, em números absolutos, o estado de São Paulo foi o que mais teve casos de assassinatos contra pessoas trans em 2020. Com 29 mortes, São Paulo teve alta de 38% em relação ao ano anterior. Já Minas Gerais ocupa a quarta posição no ranking dos estados mais violentos para pessoas transexuais e travestis. Em solo mineiro foram contabilizadas 17 mortes em 2020, um total de 12 assassinatos a mais do que em 2019.

Também foi identificado que existe um ciclo, ou um percurso automático, que leva tal população a viver da segregação familiar até o assassinato. Tais acontecimentos, que passam pelo ambiente familiar, escolar, social, laboral, político e institucional, são os principais fatores que levam pessoas trans e travestis à margninalização, e consequentemente, a morte.

Nas ruas. Nas redes

Engana-se quem acha que a violência acaba no corpo físico. Nas redes sociais, os ataques são assustadores. Em pesquisa nas redes sociais da ANTRA, com 6.234 pessoas entre os dias 7 e 9 de maio de 2020, sobre informações negativas e notícias contra pessoas trans, foi identificado que a maior parte dos ataques partem de grupos específicos, como mostra o gráfico abaixo.

O resultado da violência mental acaba sendo o adoecimento. Só no primeiro semestre de 2020 foram registrados 16 suicídios de pessoas trangêneras. Um aumento de 34% em relação ao mesmo período de 2019, segundo o estudo. Do número, foi constatado que 10 mortes eram de mulheres e 6 de homens trans. O dossiê ainda aponta que pelo menos 48% dos entrevistados relataram piora na saúde mental, enquanto outros 22% optaram por excluir as redes sociais. Vale ressaltar que desde junho de 2019, homofobia e transfobia são considerados crimes no Brasil.

Humor x violência

Na última quarta-feira (27) o assunto que tomou conta das redes sociais ocorreu dentro da casa do reality show Big Brother Brasil. Os homens do programa, todos cisgênero, ou seja, que tem anatomia, sexo e biologia alinhados com o gênero ao qual se identificam, resolveram pedir ajuda às sisters para se maquiarem. Já produzidos, os rapazes se organizaram e fizeram um desfile nas escadas da casa e alguns deles decidiram performar trejeitos consideramos femininos. Eles foram repreendidos pela psicóloga e DJ de pagode Lumena Aleluia, que fez questão de explicar que, o que para um pode ser uma “simples brincadeira”, para outros pode ser violência.

O BHAZ conversou com a pesquisadora, atriz e jornalista Juhlia Santos a respeito do limite entre humor e estereotipação de pessoas travestis e trans. “Para começar, maquiagem é de gente. Roupa é de gente. Independente do gênero. A forma com que essa construção imagética é feita pode trazer questões problemáticas, e até mesmo violentas. Quando se vale desses artifícios, maquiagens e roupas, para estereotipar gêneros, é uma forma de violência”, explica.

A pesquisadora ainda explica que o ato de performar pode ridicularizar e fazer daquele gênero uma espécie de chacota “sem levar em conta os sofrimentos e atravessamentos das pessoas”. Ela também explica o fato de que foi necessário uma mulher preta, cisgênero, se manifestar para as pessoas perceberam o ocorrido. Além disso, ela ressalta que se corpos transgêneros e travestis fossem bem recebidos em todos os espaços, inclusive nas grandes mídias, teria ali uma vivência para falar por si.

Lugar de fala e transfobia

Ainda sobre o episódio ocorrido no BBB, Juhlia diz que o lugar de fala da participante Lumena, a única a se posicionar contra a “brincadeira” no momento, foi fundamental para o levantamento da discussão. Mesmo sendo uma mulher cisgênero, a sister usou o seu lugar de fala para dialogar sobre o assunto – que está diretamente ligado à violência e assassinato de pessoas trans no país.

“O lugar de fala hoje em dia virou lugar de conforto. A Lumena rompe com isso quando diz que não é o lugar dela de fala, mas em alguma medida ela tenha essa vivência por conviver com pessoas trans e travestis. Toda vez que não tiver uma ‘corpa trans’ para dizer essas coisas, é necessário que a cisgênereidade traga essas questões, porque a questão da transfobia tem que ser tratada por pessoas cis, por ser uma reprodução da violência desse grupo”, afirma.

O caso do reality provocou divisões nas opiniões dentro e fora da casa. Ao falar sobre o incômodo com a brincadeira, a sister Karol Conká, mulher negra cisgênero, se voltou contra a colega Lumena e disse que sa fala foi exagerada.

“Isso é um mecanismo que a cisgenereidade se vale o tempo inteiro para minimizar violências e violações. Quando Lumena fala da maquiagem como forma de externar de fato quem (a pessoa) é, e após isso vai para as ruas e sofre algum tipo de violência, isso é uma realidade de muitas das minhas e é a que eu enfrento todos os dias para ser bem aceita socialmente”, narra.

‘Construção de um lugar seguro’

Os marcadores da violência apontados para pessoas transgêneros e travestis denunciam mais do as agressões cotidianas. É o que explica o estudo da ANTRA, que alerta para a urgente necessidade de criação de “políticas públicas focadas na redução de homicídios contra pessoas trans”, focando no estudo sobre quem são essas pessoas assassinadas, entendendo sua classe, raça, gênero e outros fatores que colocam esse grupo como alvo de mortes violentas no país“.

“A gente em 2021, estamos vivendo uma era onde as pessoas se preocupam muito em se desconstruir o tempo todo, mas não estão preocupadas em construir um outro lugar seguro, com afeto e trocas de fato. Então, por exemplo, a preocupação de ser antirracista e não ser LGBTfóbico, ela tem que ser genuína, não tem ser pelo simples medo de um ‘cancelamento‘”.

Esta reportagem é uma produção do Programa de Diversidade nas Redações, realizado pela Énois – Laboratório de Jornalismo, com o apoio do Google News Initiative

Edição: Roberth Costa
Jordânia Andrade
Jordânia Andradejordania.andrade@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde outubro de 2020. Jornalista formada no UniBH (Centro Universitário de Belo Horizonte) com passagens pelos veículos Sou BH, Alvorada FM e rádio Itatiaia. Atua em projetos com foco em política, diversidade e jornalismo comunitário.

Comentários