Se Belo Horizonte anoiteceu sob chuva forte chuva ontem (23), nesta quarta-feira (24) a cidade amanheceu debaixo de galhos e troncos de árvores. De acordo com levantamento do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG), nas últimas 24h foram registradas 86 chamadas envolvendo risco ou queda de árvores na região metropolitana da capital.
Na avenida Amazonas, uma árvore de grande porte desabou durante a madrugada, interditando uma das principais vias de acesso do Centro. Comerciantes locais relataram que a árvore já apresentava risco de queda há algum tempo e que chegaram a notificar as autoridades, mas houve descaso.
“Tava na cara que ia tombar uma hora. Com a chuva forte de ontem, não deu outra. A fiscalização fica preocupada com coisas que não têm nada a ver e casos como esse eles não fiscalizam. Eles preferem deixar acontecer pra vir resolver o problema”, relatou José Nilo de Almeida, funcionário de uma lanchonete local.
“Na hora da chuva, o vento balançou muito a árvore e ela caiu. Os galhos do lado de lá (da rua) são dessa árvore também. Depois que caiu, não passou meia hora e o Corpo de Bombeiros veio, cortou o tronco e limpou a rua”, completou. A queda não causou danos estruturais na região e o trânsito fluía normalmente até o momento da reportagem, às 10h.

Regiões residenciais
Ainda na região Centro-Sul de BH, registros de quedas de árvores assustaram moradores. Na rua São Paulo, na altura do número 2359, bairro Lourdes, um desabamento atingiu a fiação elétrica causando instabilidade na transmissão. Orlando Innecco, de 83 anos, contou que as adversidades são frequentes. Ele estava preso dentro do próprio prédio com medo de contato com a fiação atirada na calçada.
“Os moradores até chamaram os Bombeiros quando a árvore caiu, mas eles não apareceram”, disse o morador. Enquanto Orlando prestava depoimento, um veículo da corporação passou em frente ao local da ocorrência, mas seguiu viagem sem prestar assistência.
Minutos mais tarde, uma viatura do CBMMG parou frente à árvore caída e começou o isolamento da rua. A via, de pouco movimento veicular, não apresentava complicações de tráfego.

Outro morador do prédio, Anísio Teixeira, explicou que a queda interrompeu a transmissão de energia em parte de sua casa. “Lá só tá funcionando uma parte. Tem coisa que não liga”, disse. Anísio contou não ter notado danos estruturais no prédio, mas se queixou da demora da assistência de órgãos responsáveis, que só chegaram no local por volta das 11h20. “Enquanto isso a gente não consegue nem tirar o carro da garagem”, reclamou.
Praça pública
A pouco menos de 100 metros do prédio de Orlando e Anísio, outra ocorrência de queda de árvore foi registrada, na Praça Marília de Dirceu, também no bairro Lourdes. A reportagem encontrou Noel Cláudio Alves, funcionário da associação de moradores locais, cortando galhos e desobstruindo a calçada da Praça, sem previsão de assistência de órgãos responsáveis.
Noel revelou que o pedido não partiu da associação, mas ele tomou a atitude para “adiantar o caminho”. Apesar do grande porte, a árvore não causou estragos à estrutura da Praça ou dos prédios do entorno. Diferentemente do caso anterior, a queda não atingiu fiações elétricas, nem comprometeu o tráfego da região.

‘Novo normal’, segundo Fuad
Na manhã desta quarta-feira (24), o prefeito de Belo Horizonte, Fuad Noman (PSD), e integrantes da cúpula do executivo municipal apresentaram as ações que serão executadas para atender os moradores dos locais atingidos pela tempestade.
“Belo Horizonte sobreviveu a essa grande chuva de uma forma adequada. Não foi a melhor dos mundos, mas se fosse em outras épocas, nós hoje estaríamos lamentando mortes, desastres muito grandes”, comparou Fuad.

Ainda na visão do prefeito, o grande volume de chuva que atingiu a capital durante a madrugada é “o novo normal”. “Tivemos uma noite com uma chuva extremamente violenta. A gente costumava dizer era fora do ‘normal’, mas, agora, temos que dizer que é o ‘novo normal’. Não adianta a gente fugir da realidade”, disse o prefeito em alusão às mudanças climáticas.
Durante menos de 3 horas, choveu mais de 20% do esperado para o mês de janeiro em três regiões da cidade. Na Região Oeste, choveu 91mm, 27% do previsto para os 31 dias do mês. O temporal causou alagamentos em diversos pontos da cidade. Carros foram arrastados e diversas árvores caíram.
Alagamentos
Durante a noite de ontem (23), além de quedas de árvores pela capital, a força da chuva arrastou diversos carros nas proximidades da barragem Santa Lúcia, na região Centro-Sul de BH. Mais de dez carros foram levados pela correnteza que se formou.
Na avenida Vilarinho, no lado oposto da cidade, em Venda Nova, a bacia de contenção construída pela PBH não foi suficiente para evitar alagamentos. A loja de venda e reparos de freezers do comerciante Pedro Batista sofreu com o nível elevado de água, após o transbordamento da construção destinada à retenção.
“Esses alagamentos vêm de anos, e com essa obra a situação piorou pra gente, porque a água tá subindo e demorando mais pra descer. Isso faz a gente ter muito prejuízo, motor de freezer queimado, mercadoria que a gente perde”, aponta o proprietário.
Um vídeo divulgado no X, antigo Twitter, na noite de ontem mostra o estado da avenida Vilarinho quando a água ainda estava em nível elevado. No registro é possível ver a via completamente tomada.
A Avenida Vilarinho também foi completamente tomada pelas águas. pic.twitter.com/ahU3ingLUP
— BHAZ (@portal_bhaz) January 24, 2024
Obras previstas
Ainda segundo Fuad, a prefeitura está desenvolvendo projetos para a implementação de uma obras capazes de mitigar os efeitos da chuva nas regiões. Sobre a ocorrência na barragem Santa Lúcia, o prefeito afirmou que o local não ficará “sem resposta”. “O que a gente observou ali foi algumas deficiências no sistema de drenagem, eventualmente por obstrução de terra, de lixo que acaba dificultando o escoamento da água”, observou na coletiva.
“A chuva de ontem foi de grande intensidade, de parâmetros muito significativos em toda a cidade. As obras realizadas no Barreiro e na região Oeste conseguiram suportar esse grande volume de chuva. As obras na Vilarinho conseguiram mitigar o estrago das chuvas. Outras obras ainda precisam ter sua funcionalidade”, acrescentou.
Intensidade inesperada
Waldir Figueiredo, subsecretário de Proteção e Defesa Civil, disse que o órgão não previa esse volume de chuva para a noite dessa terça-feira (23). “O que nós percebemos é que os fenômenos climáticos extremos eles se desenvolvem de uma maneira muito abrupta, muito rápida”, declarou.
Segundo o subsecretário, três locais foram mais afetados pelo temporal: as regionais Centro-Sul, Pampulha e Venda Nova. “Esses três locais estão sendo atendidos com a instalação de postos de comando para mapeamento de todos os afetados, das necessidades que cada uma dessas pessoas têm”, explica.
De acordo com a Defesa Civil, a chuva deve persistir nesta quarta-feira (24) em BH. “A previsão de hoje prevê que as chuvas podem chegar a 70 milímetros, esperamos que não aconteça. Mas estamos preparados, as estruturas da prefeituras estão todas mobilizadas”, disse Waldir.
Recomendações durante a chuva
- Redobre a sua atenção! Evite áreas de inundação e não trafegue em ruas sujeitas a alagamentos ou perto de córregos e ribeirões nos momentos de forte chuva.
- Não atravesse ruas alagadas nem deixe crianças brincando nas enxurradas e próximo a córregos.⠀
- Não se abrigue nem estacione veículos debaixo de árvores.
- Atenção especial para áreas de encostas e morros.
- Nunca se aproxime de cabos elétricos rompidos. Ligue imediatamente para CEMIG (116) ou Defesa Civil (199).
- Se notar rachaduras nas paredes das casas ou o surgimento de fendas, depressões ou minas d’água no terreno, avise imediatamente a Defesa Civil.
- Em caso de raios, não permaneça em áreas abertas nem use equipamentos elétricos.
Emissão de alertas
Os moradores de Belo Horizonte podem receber os alertas de risco de chuvas fortes, granizo, tempestades, vendavais, alagamentos, risco de deslizamentos de terra e outros fenômenos meteorológicos pelo Canal Público do WhatsApp: https://bit.ly/DefesaCivilBH
A população também pode acompanhar os alertas e as recomendações da Defesa Civil por SMS. Para se cadastrar, basta enviar uma mensagem de texto com o CEP da sua rua para o número 40199 e uma mensagem de confirmação será enviada na sequência. O serviço não tem custo.
Pelas redes sociais os alertas podem ser acompanhados por meio do Instagram, X, Facebook e pelo canal público do Telegram no endereço: defesacivilbh.