Não tem como falar de futebol sem falar do Brasil, único país a ganhar cinco copas do mundo e que está em busca de se tornar hexacampeonato neste ano. Se o futebol se tornou parte da identidade brasileira, em Belo Horizonte a paixão pelo esporte acompanhou a própria construção da cidade. Os primeiros campos e estádios de futebol de BH acompanharam o crescimento da cidade planejada, serviram como espaços de encontro, lazer e afirmação social e ajudaram a transformar um esporte inicialmente restrito aos mais ricos em uma das maiores paixões populares dos brasileiros.
Antes do Mineirão, da Arena MRV e do Independência se consolidarem como símbolos do futebol mineiro, outros estádios marcaram a paisagem urbana da capital. Muitos desapareceram sob o avanço da urbanização, mas permanecem fundamentais para entender como Belo Horizonte construiu sua identidade futebolística.
Não por acaso, a história desses espaços se confunde com a própria historia da cidade. “A construção dos estádios dialoga muito com a história da cultura urbana de Belo Horizonte e o desenvolvimento da capital mineira”, enfatiza o historiador Georgino Jorge de Souza Neto, autor da dissertação “A invenção do torcer em Bello Horizonte: da assistência ao pertencimento clubístico (1904-1930)”.
Abaixo, o BHAZ te apresenta a história de alguns estádios que já existiram na capital mineira.
Campo do Prado
Foi no Prado Mineiro que o futebol começou a deixar de ser uma atividade restrita aos praticantes e se tornar um espetáculo acompanhado por espectadores. Foi ali que se iniciou uma história que, anos mais tarde, daria origem aos principais estádios da capital e acompanharia o surgimento dos três clubes mais tradicionais de Belo Horizonte.
Fundado em 1908, o Atlético teve diferentes campos e estádios ao longo da história antes de chegar à Arena MRV. O América, criado em 1912, também passou por outras casas até se estabelecer no Independência. Já o Cruzeiro, na época chamado Palestra Itália, nasceu em 1921 e teve diferentes endereços antes de fazer do Mineirão seu principal palco. Muito antes das dos estádios modernos, os clubes como o Prado ajudaram a espalhar o futebol por BH e transformaram antigos campos em pontos de encontro para torcedores e moradores da cidade.
O primeiro estádio da capital mineira
De acordo com o historiador Georgino Jorge, o local foi inaugurado em 1906, originalmente como um hipódromo destinado ao turfe. Na época, o Prado Mineiro era um dos principais espaços de lazer da jovem capital mineira e simbolizava os ideais de modernidade que acompanhavam a construção de Belo Horizonte.
Foi em 1909 que o Prado passou a receber partidas, e, em 1914, se consolidou como o principal campo de futebol de BH, tornando-se palco dos campeonatos organizados pela Liga Mineira de Sports Athleticos e de importantes jogos do período. “O turfe não prosperou por muito tempo, e, como o espaço era bastante adequado para ser adaptado ao futebol e a cidade ainda não possuía um estádio ou uma estrutura melhor para receber o público, o Prado passou a ser utilizado para a modalidade”, afirma Georgino.


O historiador explica que o Prado Mineiro ficava onde hoje está a sede da Polícia Militar de Minas Gerais, no bairro Prado. “Inclusive, foi o próprio Prado Mineiro que deu nome ao bairro. Na época, aquela região era conhecida como Calafate; o bairro Prado ainda não existia”, destaca Georgino.
Até 1923, quando outros estádios foram inaugurados, o Prado foi o principal palco do futebol em BH.
Quem frequentava o Prado?
O primeiro momento do futebol em Belo Horizonte, entre 1904 e 1915, foi marcado pela presença da elite. Segundo Georgino, o esporte era uma prática muito mais de assistência do que de torcida e funcionava como uma espécie de festa esportiva e de distinção social.
“O público que frequentava o Prado Mineiro nesse período era formado majoritariamente por membros das camadas mais altas da sociedade. Ainda não existiam torcedores no sentido que entendemos hoje; havia apenas os primeiros sinais do que viria a ser uma torcida organizada. A popularização começou mais tarde, quando os campeonatos passaram a ficar mais competitivos. Entre 1917 e 1920, observa-se uma mudança significativa no perfil do público”, diz o historiador.

O historiador explica que as áreas cobertas e com assentos eram destinadas principalmente à elite. Já os setores populares ficavam em áreas descobertas, onde as pessoas assistiam aos jogos em pé, expostas ao sol e à chuva. “Portanto, o próprio Prado já apresentava uma distinção social dos espaços. Havia locais reservados para a elite e outros para o público popular. Mas, a partir de 1917, a presença das camadas populares nas partidas se torna cada vez mais expressiva”.
O desaparecimento do Prado e a transformação da cidade
“A história dos estádios dialoga diretamente com a história urbana de Belo Horizonte. Quando surge a demanda por estádios maiores, isso reflete o crescimento da cidade e do próprio futebol”, ressalta Georgino.
O Prado comportava cerca de 1.500 pessoas e começou a se tornar pequeno diante da popularidade crescente do esporte. Além disso, o futebol já passava a ser gerido sob uma lógica mais ligada ao mercado e à obtenção de lucro.
Com a inauguração do Estádio da América, em 1923, o Prado já passa a ser menos utilizado e, gradualmente, deixa de existir como espaço relevante para a prática do futebol em BH. O mesmo aconteceria depois com outros estádios.
Estádio do América
A inauguração do estádio do América, em 1923, representou um salto importante porque o futebol deixava de depender dos campos compartilhados, como o Prado, e passava a contar com uma estrutura pensada para receber o público.
Um dado importante é que o estádio triplicava a capacidade do Prado Mineiro. Enquanto o Prado comportava cerca de 1.500 espectadores, o estádio americano podia receber aproximadamente 5 mil pessoas. Além disso, o local foi construído para ser uma praça esportiva que possuía também:
- salão nobre para recepções;
- sala da diretoria;
- secretaria;
- salão de ginástica;
- banheiros;
- vestiários;
- bares;
- áreas específicas para diferentes públicos

“Enquanto sócios, autoridades e convidados ocupavam os espaços mais privilegiados, o público geral tinha acessos e áreas específicas dentro do estádio. Essa organização reproduzia, de certa forma, as divisões sociais presentes na capital mineira naquele período”, afirma Georgino.
De acordo com o historiador, o estádio do América se tornou um dos principais palcos da consolidação das rivalidades do futebol em BH. Foi ali que milhares de torcedores acompanharam confrontos entre América, Atlético e Palestra Itália (atual Cruzeiro), ajudando a transformar o futebol em um dos principais eventos de lazer da cidade e fortalecendo o sentimento de pertencimento clubístico entre os belo-horizontinos
Foi nesse estádio que o clube viveu parte do período do famoso “Decacampeonato”, sequência histórica em que venceu dez títulos do Campeonato Mineiro consecutivos entre 1916 e 1925. Além disso, o Estádio do América foi palco do evento que ficou conhecido como a “maior goleada da história do clássico mineiro”, quando o Athletico (ainda grafado com ‘h’) marcou 9 a 2 contra o Palestra Itália (atual Cruzeiro). “É um resultado tão emblemático que até hoje gera discussões”, comenta Georgino.

A construção do Mercado Central
O estádio do América ficava na antiga Avenida Paraopeba (atual Augusto de Lima) e, conforme explica o historiador, muitas vezes, avenidas e sistemas de transporte são criados ou adaptados em função dos estádios. “Se observarmos exemplos mais recentes, como a Arena MRV, vemos toda uma preocupação com trânsito, acessos e transporte público. Mas isso não é algo novo. Ao longo da história de Belo Horizonte, a construção dos estádios sempre esteve associada ao planejamento urbano e ao crescimento da cidade”, observa o historiador.
No dia 7 de setembro de 1929, com o avanço da industrialização e da ocupação da área central de BH, o terreno do estádio acabou requisitado pela prefeitura para a construção do Mercado Central, que funciona no local até hoje. Como compensação, o América foi indenizado pelas estruturas construídas no espaço e recebeu um novo terreno para erguer o que viria a ser o Estádio Otacílio Negrão de Lima.
Hoje, uma pequena placa, situada na entrada da Avenida Augusto de Lima, preserva a memória do primeiro estádio de futebol da capital mineira.
Estadinho do Palestra ou Estádio Juscelino Kubitschek
Também em 1923, a colônia italiana já havia percebido a necessidade de ter um estádio próprio. Mesmo com limitações econômicas, os integrantes da colônia se organizaram para construir uma praça esportiva, localizada onde hoje está a sede social do Cruzeiro, no Barro Preto.

“Esse primeiro estádio ficou conhecido como Estadinho do Barro Preto ou Estadinho do Palestra. Era uma estrutura bastante modesta, com capacidade para cerca de 600 pessoas. Mais tarde, após uma reforma em 1945, passou a ser conhecido como Estádio Juscelino Kubitschek”, esclarece o historiador.
Segundo Georgino, o estádio representava a consolidação da presença italiana na vida social e esportiva de Belo Horizonte. Para o especialista, a construção de estádios próprios era uma forma de os clubes afirmarem seu prestígio e fortalecerem a identidade de seus torcedores.
No caso do Palestra Itália (atual Cruzeiro), a nova praça esportiva ajudou a reforçar os laços entre o clube e a colônia italiana, que via no futebol um importante espaço de integração e representação social.

Apesar das dimensões reduzidas, o estádio foi considerado moderno para os padrões da época. Em sua dissertação, o historiador relata que a imprensa belo-horizontina destacou a nova praça esportiva como um símbolo do crescimento do clube, que passava a disputar espaço com América e Atlético dentro e fora das quatro linhas. Ter um estádio próprio significava não apenas melhores condições para receber partidas, mas também o reconhecimento do Palestra como uma das principais forças do futebol da capital.
Estádio do Alameda ou Estádio Otacílio Negrão de Lima
O Estádio Otacílio Negrão de Lima ou “Estádio Alameda” foi inaugurado em 1928 e ficou conhecido como o maior e mais moderno estádio de Belo Horizonte. De acordo com o projeto jornalístico de pesquisa sobre os antigos estádios de Belo Horizonte, Campos Invisíveis, o novo complexo do América Futebol Clube ficava na altura da Avenida Alfredo Balena, em uma área que à época funcionava como uma extensão do Parque Municipal, no Santa Efigênia. O excesso de alamedas ao redor foi o que originou o apelido pelo qual o estádio ficou conhecido.
Segundo Georgino, depois de ter passado por um período de poucas conquistas esportivas, o América terminava a década de 1940 tentando recuperar o seu brilho. Dotado de todos os requisitos indispensáveis ao conforto do público, a reforma do estádio americano representava um esforço da diretoria, comandada pelo presidente Alair Couto.

O ano de 1948 seria especial para o Estádio Alameda, além de sediar o torneio quadrangular considerado pela imprensa da época a principal competição de futebol do país, o estádio também receberia a decisão do Campeonato Mineiro. O América chegava à final tentando encerrar um jejum de 23 anos sem conquistar o estadual. O último título havia sido em 1925, ano que marcou o fim do histórico decacampeonato americano. Do outro lado, Atlético e Cruzeiro disputavam uma vaga na decisão.
A semifinal entre os rivais aconteceu em 14 de novembro. Segundo o site Campos Invisíveis, o clima já era tenso antes mesmo da bola rolar, parte da torcida rasgou a tela de proteção que cercava o gramado, enquanto a atuação da polícia foi considerada insuficiente. Em campo, o empate por 2 a 2 classificou o Atlético para enfrentar o América na grande final.
Rivalidade e superstição
A eliminação cruzeirense deu origem a uma das histórias mais curiosas do futebol mineiro. De acordo com relatos preservados por pesquisadores, o técnico do Cruzeiro, Niginho, teria se ajoelhado no centro do gramado e “amaldiçoado” o Atlético após a derrota.
A rivalidade entre os clubes também movimentou, na semana da decisão, o presidente do América lançou uma campanha chamando as torcidas dos demais clubes mineiros a apoiarem o Coelho contra o Atlético, que buscava o tricampeonato estadual. Enquanto isso, o Cruzeiro sugeriu que a final fosse disputada no Barro Preto, em campo neutro, com a torcida americana ocupando a parte coberta das arquibancadas. A proposta foi ignorada pela Federação Mineira de Futebol (FMF).
A escolha da arbitragem também gerou polêmica, já que o presidente atleticano afirmava que o clube só entraria em campo caso o árbitro fosse Cidinho, conhecido por sua ligação com o Atlético. O América, por sua vez, solicitou à Confederação Brasileira de Desportos (CBD) a indicação de um juiz neutro. A entidade acabou escolhendo o inglês Cyril John, contratado pela CBD.
A decisão que terminou em invasão
A final foi disputada no dia 28 de novembro de 1948. A expectativa era de um confronto equilibrado e de arquibancadas lotadas. Antes mesmo do início da partida, a polícia precisou intervir para conter torcedores que tentavam entrar à força no estádio.
O América começou a partida de forma avassaladora, abrindo o placar aos três minutos. Aos 15, ampliou a vantagem, mas a comemoração da torcida americana, extrapolou limites. Com direito a foguetes, bombas e até dinamites lançados no gramado, provocando ferimentos em espectadores e obrigando a interrupção temporária do jogo. No segundo tempo, o América marcou o terceiro gol.
A tensão tomou conta do Alameda. Com invasões de torcedores, confusão generalizada dentro e fora das quatro linhas. Sem condições de prosseguir, a arbitragem encerrou a partida, transformando a decisão em um dos episódios mais tumultuados da história do futebol mineiro.

A despedida do Alameda
Com a inauguração do Estádio Independência, em 1950, os principais jogos de Belo Horizonte passaram a ser disputados no novo palco esportivo. O Alameda, entretanto, continuou sendo um espaço simbólico para a torcida americana, que costumava celebrar ali as conquistas obtidas em outras praças esportivas, como aconteceu após o título mineiro de 1957 sobre o Democrata de Sete Lagoas.
A construção do Mineirão, na década de 1960, consolidou uma nova realidade para o futebol da capital. Diante desse cenário, a diretoria do América passou a priorizar a estrutura social do clube. Em 1967, teve início uma ampla reforma que transformou o antigo estádio em um complexo de lazer.
As obras incluíram a construção de um grande parque aquático, substituindo antigas quadras de basquete e tênis. Segundo registros da época, o novo espaço foi inaugurado em 1972 com uma piscina olímpica, uma enseada artificial cercada por quatro ilhas e piscinas infantis integradas a áreas de recreação.
Apesar dos investimentos, o futuro do Alameda estava ameaçado, e a justificativa oficial para a venda do estádio foi a situação financeira do clube e o acúmulo de dívidas. A decisão, gerou forte controvérsia entre os torcedores.
Se, por um lado, o campo de futebol e parte das instalações administrativas apresentavam sinais de desgaste, por outro, o América havia acabado de investir em uma moderna estrutura de lazer. Muitos acreditavam que a modernização do complexo aquático poderia ampliar o quadro de sócios e gerar novas receitas, tornando desnecessária a venda de um dos espaços mais emblemáticos da história do clube.
Estádio Antônio Carlos
O Estádio Antônio Carlos, conhecido popularmente como Campo de Lourdes, foi a casa do Atlético Mineiro entre o fim da década de 1920 e o início dos anos 1960. Em uma época em que os estádios dos clubes rivais ainda não haviam passado por grandes reformas. Apesar disso, o clube optou por realizar apenas melhorias pontuais na estrutura, sem investir em uma ampla modernização.

Segundo o livro “Do Prado ao Mineirão”, o estádio tinha capacidade para aproximadamente 5 mil espectadores. A inauguração ocorreu em 30 de maio de 1929, no bairro Lourdes, em uma área delimitada pela então Avenida São Francisco, atual Avenida Olegário Maciel, e pelas ruas Bernardo Guimarães e Gonçalves Dias. No local funciona hoje o DiamondMall.
A conquista do terreno foi resultado de uma negociação entre a diretoria atleticana e a Prefeitura de Belo Horizonte, realizada em 1926. Em busca de uma sede mais adequada para o crescimento do clube, o Atlético realizou uma permuta do antigo Campo do Paraopeba, cedido anteriormente pelo município, pelo quarteirão nº 13 da 9ª Seção Urbana, correspondente à área do atual bairro de Lourdes.
Naquele período, a capital passou a contar com três grandes estádios aptos a receber as principais competições esportivas da cidade. No entanto, a escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 1950 mudou esse cenário. Nenhum dos estádios da capital atendia às exigências da Fifa para receber partidas do torneio, um fato que contribuiu para o gradual enfraquecimento das antigas praças esportivas da cidade.
Inauguração histórica
De acordo com os pesquisadores Campos invisíveis, a cerimônia de inauguração do Estádio Antônio Carlos começou às 15h30 e contou com a presença do então governador de Minas Gerais. Ao entrar em campo, a autoridade foi recebida pelos torcedores com manifestações de entusiasmo e gratidão, em reconhecimento ao apoio decisivo para que o Atlético conquistasse seu estádio próprio.
Para marcar a ocasião, o clube convidou o Corinthians para um amistoso inaugural. O Atlético venceu por 4 a 2 e celebrou a nova fase de sua história diante de sua torcida.
A inauguração também entrou para a história por proporcionar aos belo-horizontinos a oportunidade de assistir, pela primeira vez, a uma partida de futebol realizada sob iluminação artificial. A cerimônia contou ainda com a presença de Jules Rimet, então presidente da Fifa. Pouco mais de um ano depois, em 9 de agosto de 1930, o Atlético voltou a festejar no estádio ao aplicar uma goleada de 10 a 2 sobre o Sport-MG.
Decadência e fim do estádio
Ainda segundo o livro, a inauguração do Estádio Independência marcou o início da decadência do Antônio Carlos. Com uma estrutura considerada ultrapassada diante das novas exigências do futebol, o estádio perdeu protagonismo ao longo das décadas seguintes.
Enfrentando uma grave crise financeira, o Atlético vendeu o terreno à Prefeitura de Belo Horizonte na década de 1960. Até então, o espaço havia passado por diversas transformações. Em 1970, a área foi desapropriada pelo município e passou a ser utilizada para feiras e assembleias sindicais. Uma década depois, o local foi convertido em área de lazer, encerrando definitivamente a história de uma das mais importantes praças esportivas da capital mineira.










