Ex-funcionária do Oiapoque diz ter sido demitida após denunciar assédio de diretor comercial; polícia investiga

Shopping Oiapoque
Oiapoque afirma que repudia assédio e que ‘toda denúncia será apurada’ (Amanda Dias/BHAZ)

Uma ex-funcionária do Shopping Oiapoque, localizado no Centro de BH, afirma ter sido demitida por justa causa depois de denunciar o diretor comercial do estabelecimento por assédio sexual. Outras mulheres também oficializaram denúncias contra o homem junto à administração do estabelecimento. O diretor comercial, que está sendo investigado pela Polícia Civil, nega as acusações e o Oiapoque afirma que “toda denúncia será apurada” (veja abaixo).

De acordo com a ex-funcionária, que pediu para não ser identificada, o diretor comercial a assediava com cantadas e “piadas” de cunho sexual com frequência. Mas a situação se agravou quando, há quase duas semanas, ele a encurralou no banheiro e tentou tocar suas partes íntimas.

“Ele sempre fazia comentários impróprios, pedia que nós andássemos na frente para que ele visse nossa bunda… Mas, nesse dia, passou dos limites. Falei que ele estava louco e ele ficou sem graça porque uma das encarregadas chegou no banheiro na hora”, relata a denunciante, em conversa com o BHAZ.

Ela conta ainda que procurou a gerência do Oiapoque, mas o gerente-geral entraria de férias no dia seguinte. A mulher, então, foi até o RH (Recursos Humanos) e ao setor jurídico do local, buscando denunciar o diretor. Ela conta que relatou tudo aos responsáveis e eles disseram que a ajudariam.

Demissão

Na semana seguinte, a mulher conta que foi transferida para outro shopping. Lá, ela trabalhou por três dias, até que, nessa segunda-feira (20), recebeu uma ligação de um responsável pelo Oiapoque. Ele teria pedido que a funcionária fosse até o shopping, no Centro de BH, e quando ela chegou lá, foi informada da demissão.

“Ele disse que um funcionário, que já tinha sido demitido de lá há meses, tinha me acusado de assédio sexual. Então eles estavam me demitindo por justa causa por conta disso. Eu fiz uma denúncia contra o diretor e do nada surgiu essa acusação contra mim”, relata.

Ela tentou resolver a situação com o RH do Oiapoque e já buscou um advogado. “Ele me perguntou se eu queria ficar na empresa ou pedir a rescisão direta, e eu queria continuar, preciso do meu emprego. Achei que ia conseguir resolver isso lá dentro, mas não fizeram nada”, desabafa a mulher.

Denúncia na delegacia

Revoltada, a mulher foi à delegacia da Polícia Civil e registrou um boletim de ocorrência, denunciando o diretor. A corporação confirmou que instaurou um procedimento para investigar a acusação contra o suspeito.

“Outras mulheres já tinham contado ao RH sobre assédios verbais partindo do diretor, ele constrangia funcionárias pedindo fotos, vídeos. Quando elas souberam da minha denúncia, me procuraram e montamos um grupo. Somos mais de dez mulheres, que também vão fazer boletins de ocorrência e entrar com processos”, conta a vítima.

A Polícia Civil informou que, até o momento, apenas uma denúncia envolvendo o suspeito foi registrada na Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher em Belo Horizonte. A corporação orienta outras potenciais vítimas a irem até o local, na Avenida Barbacena, 288, Barro Preto.

‘Estão tentando colocar a culpa nas mulheres’

O advogado da vítima, Lucas Frade, da Frade, Pimenta & Ferraz, também representa outras três mulheres que pretendem entrar com ações judiciais contra o suspeito. O advogado afirma que o estabelecimento está tentando culpabilizar as mulheres e também vai tentar reverter a justa causa aplicada na demissão da cliente.

“Foram várias acusações formalizadas com o RH e nada foi feito. O que percebemos é que na situação, quando uma vítima tem coragem de denunciar, ao invés de ser protegida, é vítima de uma injustiça, onde revertem a situação, criando uma história para demiti-la por justa causa. Em vez de ser vítima, estão tentando pintá-la como causadora da conduta, tentando colocar a culpa nas mulheres”, defende.

Segundo o advogado, outras vítimas ainda precisam se preparar psicologicamente para decidir se querem entrar na Justiça. Ele ainda afirma que há vários outros funcionários dispostos a testemunhar e confirmar os fatos denunciados pelas mulheres.

“Outra questão é que, quando ela [a primeira denunciante] foi comunicada da dispensa, não recebeu a documentação. Temos prints dela conversando com o RH, solicitando que eles enviem os documentos da justa causa, e eles se recusam”, completa.

Oiapoque repudia assédio

Por meio de nota divulgada nesta quarta-feira (22), o Shopping Oiapoque afirmou que repudia todo o tipo de assédio e que, em 18 anos de história, nunca houve histórico de denúncias do tipo.

“Tão logo tomou conhecimento dos fatos, adotou todas as providências internas cabíveis e procedimentos administrativos para apuração”, informou o estabelecimento, sem especificar quais os “fatos” citados.

“O Shopping Oiapoque reafirma seu compromisso com a sociedade e colaboradores, pautados no respeito humano e integridade pessoal. Casos de assédios não serão tolerados de forma alguma e toda denúncia será apurada”, finaliza a nota (leia na íntegra abaixo).

Nota do Shopping Oiapoque na íntegra

“Por meio desta nota, o shopping Oiapoque vem a público repudiar todo o tipo de assédio, especialmente aquele cometido contra as mulheres.

Até então, em 18 anos de história, nunca houve histórico de denúncias. Tão logo tomou conhecimento dos fatos, adotou todas as providências internas cabíveis e procedimentos administrativos para apuração.

O Shopping Oiapoque reafirma seu compromisso com a sociedade e colaboradores, pautados no respeito humano e integridade pessoal.

Casos de assédios não serão tolerados de forma alguma e toda denúncia será apurada”.

Edição: Giovanna Fávero
Sofia Leão
Sofia Leãosofia.leao@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde 2019 e graduanda em jornalismo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Participou de reportagem premiada pela CDL/BH e pelo Prêmio Sebrae de Jornalismo em 2021, além de figurar entre os finalistas do Prêmio Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados.

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