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ENTREVISTA| Alessandro Fernandes Moreira, reitor da UFMG

17/07/2026 às 13h05
Alessandro Moreira, novo reitor da UFMG, em entrevista exclusiva ao BHAZ.
Alessandro Moreira, novo reitor da UFMG, em entrevista exclusiva ao BHAZ. Foto: Leonardo Fonseca/BHAZ

À frente da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Alessandro Fernandes Moreira chega aos cem dias, o primeiro marco da nova gestão. Vice-reitor entre 2018 e 2026, será ele o responsável por enfrentar, a partir de agora e pelos próximos quatro anos, os inúmeros desafios sob o comando de uma das mais importantes universidades públicas do País, prestes a comemorar seu centenário. Convidado a eleger os principais desafios, o reitor cita dois: primeiro, o esforço para garantir a permanência dos estudantes, sobretudo os de baixa renda, e, segundo, a necessidade de elaboração de uma política que norteie o uso da inteligência artificial no maior centro de produção científica do estado. Em entrevista exclusiva ao BHAZ, Moreira também falou sobre política: disse que vai “enfrentar e fazer valer a ampliação da diversidade”, mesmo diante das críticas e reações à aprovação das cotas para pessoas trans e travestis, e, ainda, elogiou a decisão da antecessora, Sandra Regina Goulart Almeida, de se colocar à disposição do PT para disputar o governo. ‘Minas Gerais estará em ótimas mãos’, garante. Sobre Mateus Simões (PSD), revelou que deve se encontrar com o governador nas próximas semanas para discutir parcerias, e, em relação ao prefeito Álvaro Damião (União Brasil), ‘brincou’ que ainda aguarda um encontro. “Estou até pedindo uma agenda com ele. Quem sabe agora vai”. Veja íntegra em vídeo abaixo.

Uso da IA

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) está elaborando diretrizes para orientar o uso da inteligência artificial (IA) tanto nas atividades de ensino e pesquisa quanto na gestão administrativa. Segundo o reitor Alessandro Moreira, a proposta é estabelecer princípios permanentes para o emprego da tecnologia, buscando priorizar aspectos éticos e responsáveis, em vez de focar em ferramentas específicas, que mudam rapidamente.

“Modelos, equipamentos, plataformas vão aparecer. Hoje vai aparecer um, amanhã vai aparecer outro. Eu acho que o que a gente tem que estar preservando é o uso responsável, o uso ético, adequado da inteligência artificial”, explica.

De acordo com o reitor, a universidade já iniciou esse processo há alguns anos, com a criação de uma comissão formada por professores e técnicos administrativos de diferentes áreas. O grupo trabalha na construção das primeiras diretrizes, que deverão ser apresentadas em breve à comunidade acadêmica.

“Já há alguns anos, nós iniciamos um trabalho, instituímos uma comissão com participação ampla da comunidade universitária, de vários professores, técnicos administrativos também. Então, a gente está numa fase mesmo de apresentar para a comunidade acadêmica as primeiras linhas, diretrizes, de como a gente pretende trabalhar a questão da inteligência artificial na educação”, afirmou.

Além do uso em atividades na sala de aula e nos laboratórios, a UFMG também estuda formas de aplicar ‘de maneira responsável’ a IA nos processos administrativos. A iniciativa envolve diferentes setores da instituição, entre eles a Diretoria de Educação a Distância e Educação Digital (DEDD), antigo Centro de Apoio à Educação a Distância (Caed), que, segundo Moreira, já desenvolve projetos relacionados à transformação digital.

Segundo o reitor, o papel da universidade é acompanhar a evolução tecnológica, mas sem perder de vista sua responsabilidade na formação dos estudantes e na definição de parâmetros para o uso da IA. “A universidade precisa estar atenta às transformações, mas o principal é preservar os princípios que orientam o uso correto dessa tecnologia”, reforça.

Orçamento apertado

Alessandro assumiu a Reitoria num contexto de novo corte no orçamento das universidades federais brasileiras, o que, claro, inclui a UFMG. Em 2026, as instituições perderam R$ 488 milhões, cerca de 7% dos chamados recursos discricionários, aqueles que a lei não obriga que sejam repassados. Segundo a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), a redução do valor em caixa compromete principalmente a assistência estudantil.

Na entrevista ao BHAZ, Moreira afirmou que, embora a situação tenha melhorado em relação aos anos anteriores, o orçamento da UFMG ainda está distante do necessário.

“A gente sempre inicia o ano preocupado com qual tipo de política que você vai acabar priorizando, com qual que você vai trabalhar. Não é o orçamento dos nossos sonhos, não é o orçamento que a gente necessita, mas também não é aquele orçamento como a gente viveu em governos anteriores”, avalia.

Segundo ele, a realidade faz com que seja necessário definir prioridades, o que coloca a UFMG, muitas vezes, em situações complexas.

“Os principais cortes de orçamento que tivemos é de investimento. Ou seja, o custeio fica a quem, mas o principal problema é o que impacta as obras, é o que impacta as manutenções. O orçamento que a gente recebe e a gente pratica ao longo do ano, ele ainda nos coloca situações e exigências de priorizações que você tem que fazer. E a gente prioriza sempre as bolsas acadêmicas”, explica.

Cotas para trans e travestis

Durante a entrevista, o reitor reafirmou o compromisso da gestão com as políticas de inclusão e saiu em defesa das cotas adicionais para pessoas trans e travestis, aprovadas em março pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) da Universidade. A medida foi alvo de críticas e gerou reações, inclusive de políticos. Os vereadores Pablo Almeida e Uner Augusto, ambos do PL, protocolaram uma Ação Popular na Justiça Federal para tentar anular a decisão. Eles alegam que a Universidade não tem competência para criar essas cotas.

“Nós vamos continuar trabalhando, nós vamos continuar executando essa política que é muito importante para a nossa instituição e vamos em frente. Vamos enfrentar e vamos fazer valer essa ampliação da diversidade em nossa instituição, que é muito justa”, garantiu.

Para o reitor, as cotas são necessárias porque pessoas trans e travestis ainda são sub-representadas na universidade. “Não é somente essa questão do ingresso. É toda uma situação que a universidade tem que estar atenta, tem que discutir, tem que reconhecer e tem que saber que essas pessoas estão aqui e que elas também têm o direito à educação”, afirmou. “O fato de ter lá um número de vagas para determinados cursos, isso é só um pedacinho. Eu acho que a instituição também tem que compreender e tem que trabalhar.”

Sandra Goulart como pré-candidata

Diante da indefinição do Partido dos Trabalhadores (PT) de escolher um nome para concorrer ao governo do estado, a ex-reitora da UFMG, Sandra Regina Goulart Almeida, com quem Alessandro administrou a universidade nos últimos anos, se colocou à disposição da legenda e do presidente Lula. Questionado, o reitor defendeu que a colega tem competência para governar Minas Gerais.

“Trabalhei com a Sandra oito anos. Então, assim, eu posso falar com muita assertividade da competência que a professora Sandra teve na condução da nossa instituição. É uma referência para nós todos aqui na universidade. Se chegar numa situação dessas [de ser candidata], acho que vai ser muito importante para o nosso estado, porque a professora Sandra, de fato, é uma pessoa que tem uma capacidade de gestão muito importante, muito competente, com muita visão política, com muita visão de princípios, com muito valor. Minas Gerais estará em ótimas mãos” elogia.

Ao ser perguntado se uma candidatura de Sandra poderia colocar a UFMG no centro de disputas políticas, Moreira rejeitou essa hipótese e afirmou que a universidade deve atuar como parceira do poder público, independente de quem seja o governador.

“Eu acho que a UFMG, assim como as outras instituições federais de ensino superior e os institutos federais, serão um grande suporte para Minas, como já são. Tenho certeza de que qualquer governador ou governadora que estiver à frente do estado tem nessas instituições de ensino um grande suporte. A professora Sandra sabe disso. Então, não é alvo, muito antes pelo contrário. Nós somos suporte para muitas políticas que o estado faz. Basta o governador ou a governadora querer. Tenho certeza de que, além da UFMG, todas as outras vão responder muito positivamente.”

Centro Nacional de Vacinas e Campus Saúde

Na entrevista, Alessandro defendeu o fortalecimento do Campus Saúde, onde está a Faculdade de Medicina e o Hospital das Clínicas, como uma prioridade para a instituição, e, ainda, destacou a importância do Centro Nacional de Vacinas que está sendo construído no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC). De acordo com o reitor, o Centro deve estar em pleno funcionamento em “até dois anos”.

“Em parceria com o governo do estado, com o governo federal, com outros parceiros, nós estamos criando esse centro. Com esse, o Brasil passa a ter, além do Butantan e da Fiocruz, em Manguinhos, mais um centro de produção de vacinas”, explica.

O reitor também destacou a importância do Campus Saúde para o Sistema Único de Saúde, considerado como “ponto que a universidade sempre vai vai estar muito cuidadosa” Segundo ele, a contribuição da UFMG para o SUS, no entanto, vai além da Faculdade de Medicina e do Hospital das Clínicas, envolvendo cursos como Enfermagem, Fisioterapia, Terapia Ocupacional, Educação Física e Psicologia, além de projetos de inovação.

“Nós temos um centro de inovação em inteligência artificial aplicada à saúde, que está lá no Hospital das Clínicas, na Faculdade de Medicina, em parceria com o Instituto de Ciências Exatas e com a Escola de Engenharia.”, revela

Patentes

Em junho, a UFMG alcançou a liderança, entre as universidades, no Ranking de Depositantes 2025, divulgado pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Na lista que considera empresas, universidades e institutos de pesquisa, a instituição ocupa a terceira colocação nacional, com 94 depósitos de patentes de invenção realizados em 2025, atrás apenas da Stellantis Automóveis Brasil e da Petrobras.

Na entrevista, o reitor atribui o bom desempenho da UFMG à metodologia que a instituição criou para trabalhar a transferência da tecnologia, política praticada pela Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica (CTIT).

“Até por causa do marco legal da Ciência e Tecnologia, de 2016, isso permitiu que a instituição criasse um modelo de transferência de tecnologia muito muito robusto, muito maduro. Tanto que a CTIT ela é referência para outros núcleos de inovação tecnológica de outras instituições de ensino. O resultado que a instituição tem é muito em função dessas estratégias e políticas de inovação que são adotadas”, conta.

Pablo Nogueira

Pablo Nogueira é jornalista, formado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), com mestrado em Comunicação pela UFMG. Tem passagens pela Rádio Itatiaia, Rádio BandNews, Rede Minas, TV Alterosa, governo do estado, Agência Minas e Centro de Comunicação da Universidade Federal de Minas. Venceu os prêmios de jornalismo CDL, em 2024, MOL, em 2023, e Amagis, em 2022, além de ter sido finalista dos prêmios ABMES, em 2023, CDL, em 2022 e 2023, e C6 Bank, em 2022. É editor do BHAZ.
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