Antes que venham me chamar de “defensor de bandido”, já informo que sou a favor das operações policiais, e não só em favelas, mas também em áreas nobres que também habitam líderes de esquemas criminosos. Feitas essas considerações, preciso dizer: a operação policial no Rio de Janeiro não pode ser vista como o fim de uma guerra onde de um lado estão os vencedores e do outro os derrotados.
Para nós, representantes do povo, a situação não pode ser vista apenas como um ‘grande ato de coragem’ ou “palanque eleitoral” do governador do Rio. Quando o Estado atua unicamente pela via da força, mas se ausenta historicamente na garantia de educação, saúde, saneamento, cultura e oportunidades, o resultado é sempre o mesmo: a criminalidade se reorganiza e a população segue refém do medo.
A morte de 121 pessoas e um dia de terror em uma das cidades mais importantes do país não resolveram definitivamente o problema. Agora que a poeira vai abaixando, voltamos ao mesmo lugar: aqueles indivíduos já foram, ou serão, rapidamente substituídos por outros 121 jovens que, crescendo nas mesmas ausências do Estado, da esperança e da oportunidade, terão provavelmente o mesmo destino trágico. É um ciclo perverso de reposição de mão de obra para o crime.
Não podemos ignorar também o descaso com quem está na linha de frente. Em Minas Gerais, por exemplo, nossas polícias militar e civil, assim como a maioria dos servidores públicos, sofrem com a desvalorização, sem a recomposição salarial prometida pelo governador e submetidas a condições de trabalho precárias. Enquanto isso, uma fábrica de fuzis clandestina à serviço do Comando Vermelho foi descoberta na nossa capital.
É preciso de uma vez por todas que governantes entendam: segurança é também política social. A verdadeira vitória contra o crime não acontece em um dia de operação, mas quando garantimos dignidade, emprego e perspectivas para quem vive especialmente nas periferias. Hoje, sou vereador e presidente da Comissão de Administração Pública e Segurança Pública da Câmara Municipal de Belo Horizonte. Ontem, fui um jovem que cresceu na periferia e teve a vida transformada pelo estudo e pelas oportunidades.
Não estou querendo romantizar a situação, pois ninguém aguenta mais o ciclo cotidiano de violência e é preciso atuar com rigor. Mas é necessário ter consciência de que esse ciclo precisa ser rompido com ações práticas. Por isso, Câmaras Municipais e Prefeituras precisam também ampliar o olhar sobre segurança pública para além das apreensões, dos roubos e da violência que assola nossas cidades.
Belo Horizonte precisa investir na primeira infância, garantindo seu plano municipal que, desde 2016, não sai do papel. Esta situação poderia melhorar os índices de desenvolvimento das nossas crianças de zero a seis anos, com creche em tempo integral para todas as famílias por exemplo. Isso ao mesmo tempo é cuidado com as mães que precisam trabalhar ou estudar, mas que muitas vezes não tem com quem deixar seus filhos. É preciso atuar desde já na base!
Da mesma forma é preciso tratar as pessoas que moram em vilas e favelas com seriedade. Elas não podem ficar décadas aguardando um mero projeto de tratamento de córrego ou de reassentamento, ao passo que gestores se preocupam em construir prédios de 50 andares no centro da cidade. Enquanto tiver pessoas morando em córrego com cocô, não iremos avançar na guerra contra o crime!
Belo Horizonte também precisa de mais atitude na questão de cabos e fios soltos nos postes da cidade. Fiscalizar com maior rigor por exemplo os ferros velhos que receptam esses materiais furtados. Todos os dias moradores, comerciantes, os próprios prédios públicos e até os semáforos sofrem com o roubo de cabos. Esse assunto precisa estar entre as prioridades, porque a venda desses materiais também alimenta o tráfico.
É preciso apoiar de verdade a Guarda Civil Municipal, lutando pela elevação da corporação para polícia municipal, o que fortaleceria e muito o combate ao crime na cidade. Também é urgente a reestruturação das carreiras e garantia dos benefícios a que muitos guardas têm direito. Corporação valorizada, trabalhando estrategicamente próxima da população, como em postos de saúde, garantem a segurança da população.
Além disso, o apoio às diversas modalidades esportivas e paradesportivas se faz necessário. A nossa cidade precisa atuar e investir mais! Uma cidade que apoia o esporte promove vida saudável e protege sua juventude da bandidagem. Nossa capital não tem espaços públicos com quadras oficiais para diversas modalidades, e nossos atletas que precisam disputar campeonatos federados têm que se deslocar para cidades do interior! E aí, os que não tem condições, abandonam o esporte.
BH não tem ônibus noturno regularmente, especialmente na madrugada para os trabalhadores. Homens e mulheres correm riscos e enfrentam a violência nas ruas pelo caminho até em casa. É preciso resolver isso!
Fica, portanto, o recado de que não se faz segurança pública apenas com repressão. É preciso atuar também na prevenção, para salvar nossos jovens da criminalidade e garantir um futuro melhor para as gerações presentes e futuras. É preciso investimento de longo prazo, mas também visão política de quem está no poder.









