Ícone LGBT+ da história de BH, Cintura Fina será reconhecida como cidadã honorária da capital

Cintura Fina
Nascida em Fortaleza, Cintura Fina viveu uma vida de resistência e luta em BH (Enverga mas não quebra/Divulgação)

Uma das personalidades mais marcantes da história da população LGBT+ de Belo Horizonte, a travesti Cintura Fina será reconhecida como cidadã honorária da capital mineira nesta sexta-feira (17), em condição post mortem.

A indicação para a entrega do título partiu da vereadora Iza Lourença (PSOL), que enxerga a cidadania honorária como forma de honrar a memória de Cintura Fina.

“Cintura é parte da história da cidade, do seu desenvolvimento, e como tal deve ser conhecida. Essa é uma forma de honrar sua memória e de tantas mulheres trans e travestis que resistem nesta cidade. Vamos contar a verdadeira história de BH”, defende a vereadora.

A cerimônia de solenidade de entrega do título ocorre às 18h de amanhã, no Centro Cultural Liberalino Alves de Oliveira, dentro do Mercado da Lagoinha, na avenida Presidente Antônio Carlos, 821.

Quem foi Cintura Fina

Nascida em Fortaleza, Cintura Fina viveu uma vida de resistência e luta em Belo Horizonte, ficando famosa pela habilidade com as navalhas que usava para se defender ao ocupar os espaços públicos da cidade.

Ela chegou à capital mineira em 1953 e trabalhou como cozinheira, faxineira, lavadeira, gerente de pensão, profissional do sexo, alfaiate, cabeleireira e gari. Enquanto isso, a imprensa mineira explorava sua imagem usando o gênero masculino e a apelidando de “rei da navalha”.

A história de Cintura em BH é detalhada no livro “Enverga, mas não quebra: Cintura Fina em Belo Horizonte“, de Luiz Morando. Na obra, o pesquisador mostra como a mídia da época retratava a travesti e tenta desvendar sua trajetória na cidade por meio de registros policiais, notas em jornais e depoimentos de moradores.

Em 1998, Cintura Fina ficou conhecida nacionalmente através da minissérie Hilda Furacão, da TV Globo. Quando a obra foi disponibilizada no Globoplay, recentemente, surgiu uma polêmica por ela ter sido interpretada pelo ator Matheus Nachtergaele, homem branco e cisgênero.

Indicação

A vereadora Iza Lourença defende que a imprensa da época construiu uma lenda ao redor da história dela, em geral, criando e reproduzindo estigmas e violências contra Cintura.

“Essa estigmatização reforçada na abordagem da mídia da época justificava, também, a violência do estado contra ela, e legitimava as políticas de criminalização e higienização para controle social do nosso povo”, diz a parlamentar.

Por mandato, cada vereador pode indicar pessoas de contribuição relevante para a história da cidade para serem nomeadas como cidadãs honorárias. Para a nomeação ser concretizada, a indicação precisa de dois terços das assinaturas de líderes de bancadas e blocos de vereadores.

“Concedê-la esse título reconhecerá sua importância na luta pela cidadania e garantia de direitos na cidade, além de fazer justiça à forma criminosa como foi tratada quando viveu por aqui”, finaliza Iza Lourença.

Edição: Giovanna Fávero
Sofia Leãosofia.leao@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde 2019 e graduanda em jornalismo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Participou de reportagens premiadas pelo Prêmio Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados, pela CDL/BH e pelo Prêmio Sebrae de Jornalismo em 2021.

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