O Carnaval de Belo Horizonte consolidou-se como um dos maiores e mais autênticos do Brasil. Mas, enquanto nossos blocos ganham as ruas com a alegria e espontaneidade de uma festa construída pela resistência popular, uma sombra tenta ocupar cada brecha do nosso espaço público: as bets. O que começou como um “entretenimento” no cenário esportivo deu um salto agressivo sobre a nossa cultura popular. Já não bastasse dominarem as camisas dos times de futebol, os estádios e os intervalos comerciais, agora, o mercado das apostas quer ser o dono da nossa maior festa.
Pela primeira vez em um carnaval, BH recebeu um patrocínio de R$ 500 mil de uma operadora de apostas e, com isso, a cidade ficou estampada com a marca do vício, do endividamento e da destruição das famílias, exposta para mais de 6,5 milhões de foliões em pontos históricos e de grande importância, como o Parque Municipal, as proximidades da Praça da Liberdade e o Automóvel Clube.
Esse fenômeno não é recente, nem ocorre por acaso. No último ano, Recife, Olinda, Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro já haviam recebido aportes milionários em patrocínio de bets em seus carnavais. Simbolismo ou não, a influenciadora Virgínia Fonseca, principal rosto da CPI das Bets no Senado, desfilou como rainha de bateria da Grande Rio no Sambódromo Marquês de Sapucaí, selando no imaginário popular o casamento perfeito entre as apostas online e o carnaval.
Não se trata apenas de uma transação financeira ou de buscar recursos para viabilizar a folia; trata-se de responsabilidade ética. Até porque já existiam Carnaval e futebol antes das bets. Mas, ao aceitar o dinheiro, o poder público carimba o passaporte de empresas que lucram com o desespero e a vulnerabilidade social. O Carnaval, por essência, é a celebração da liberdade e do encontro, um espaço democrático onde o cidadão deve estar protegido de mecanismos predatórios.
Quando o Estado permite que marcas de apostas dominem a paisagem urbana, ele inverte sua função: em vez de promover o bem-estar, torna-se cúmplice da exposição de milhões de pessoas, incluindo jovens e famílias inteiras, a um modelo de negócio que transfere a renda do trabalhador diretamente para os paraísos fiscais das grandes operadoras. A festa não pode servir de fachada para a institucionalização do vício.
Além de adoecer a população, não é possível argumentar que essas transações reflitam positivamente no mercado. As bets causaram um prejuízo de mais de 100 bilhões de reais ao varejo em 2024 e, só em Minas Gerais, isso representou a redução de mais de 30 bilhões no PIB; além disso, segundo a Confederação Nacional do Comércio, as bets têm potencial de reduzir o faturamento do varejo em R$ 117 bilhões por ano.
Essa prática ainda aumenta os gastos do Poder Público com saúde e previdência. Em BH, o Instituto Assistencial Espírita André Luiz divulgou, no ano passado, uma alta de 300% nos atendimentos a pacientes com ludopatia. No país inteiro, o número de auxílios-doença concedidos por ludopatia aumentou mais de 2.300%.
É um vício que não tem nome, classe social ou endereço, que pode acometer qualquer cidadão diante de tanta publicidade. Por exemplo, beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 21 bilhões em apostas online, de acordo com o Banco Central; 41% dos evangélicos dizem já ter jogado em alguma bet, enquanto 34% dos católicos admitem já terem apostado; e 34% dos jovens adiaram o ingresso no ensino superior devido a gastos com bets.
Já chega de atuação sem limites legais efetivos para defender a nossa população. No Senado, avança o Projeto de Lei 3.563/24, que altera a Lei das Apostas Esportivas (Lei 14.790, de 2023), proibindo ações de comunicação de apostas de quota fixa. O texto estabelece regras rígidas para eliminar a visibilidade das bets no cotidiano da população e define multas em caso de descumprimento das normas.
Enquanto isso, em BH, eu faço minha parte. Sou autor do Projeto de Lei 362/25, que proíbe qualquer tipo de publicidade física de bets e jogos de azar nos limites do nosso município. Isso quer dizer que, se for aprovado pela maioria dos vereadores da Câmara Municipal de BH em segundo turno, com votação prevista para março, não serão permitidos outdoors, painéis de led, camisetas com estampa de bet, rótulos, entre outros.
Nós não queremos inventar a roda; proteger o povo é possível e já acontece em cidades menores que BH. Em Lagoa Santa, na Região Metropolitana, essa proibição já é lei. No município, o texto proíbe a realização de publicidade, patrocínio e qualquer tipo de promoção relacionada às bets. Em Curvelo, na Região Central do estado, a lei proíbe o patrocínio de empresas que gerenciem casas de apostas, as bets, em eventos públicos.
As bets já participaram do aniversário de BH no ano passado, com sua publicidade agressiva e escancarada na comemoração de 128 anos de história da capital do nosso estado, bombardearam nosso carnaval e, se não agirmos, podemos apostar que essa situação se repetirá no tradicional Arraial de Belô, na Virada Cultural e tantas outras comemorações e eventos promovidos na nossa cidade.
O apoio da população é o combustível necessário para que essas mudanças saiam do papel e enfrentem o poder econômico das grandes operadoras. Juntos, precisamos reafirmar o óbvio: a nossa cultura, a nossa economia e a saúde da nossa gente valem muito mais do que qualquer cota de patrocínio. O Carnaval e a cidade pertencem ao povo. É hora de retomar o controle da festa e o futuro das nossas famílias.









