Ela poderia estar em casa, tranquila, assistindo a uma série ou lendo um livro _ afinal, os três filhos já estão criados. Em vez disso, corre atrás de apoio para encher a Sala Minas Gerais no dia 27 de setembro. Dos 2.000 ingressos, só 500 foram vendidos até agora. E Mônica Rodrigues Corrêa se desespera. Todo ano é assim.
O tal show existe há quase uma década e já passou por diversos formatos. Já foi festival de música e dança, com orquestra e bailarinos, executado por adolescentes, já foi só apresentação de orquestra e, neste ano, vai misturar coral, orquestra e clássicos do rock sob a batuta do maestro Eliseu de Barros.
O estresse da Mônica justifica-se porque toda a renda do show é revertida para projetos que beneficiam crianças, adolescentes e famílias em situação de vulnerabilidade. Só os menores em casa de acolhimento na Grande Beagá apoiados somam quase 1.000.
Há 15 anos, desde que fundou o Instituto Adotar, Mônica conta moedinhas para manter todos os programas funcionando. São cursos de reciclagem para mulheres, formação artística para as crianças e adolescentes, doação de alimentos e produtos de higiene e ações diversas que possam construir ou reconstruir os laços afetivos que sobraram nas famílias-alvo.
É comum chegar à sede do instituto no Bairro Santa Lúcia e deparar-se com uma pediatra em atendimento a gestantes e crianças, tudo gratuitamente. É possível chegar em uma das 14 comunidades atendidas pelo Adotar e encontrar mães desenhando com os filhos pela primeira vez na vida numa ação cheia de ternura de aproximação das famílias, criada pelo instituto. É capaz de você se deparar com os dois motoristas do Adotar transportando crianças, adolescentes e idosos para cursos de violino, violoncelo, dança e coral.
Às vezes, a própria Mônica se assusta com a dimensão e importância do instituto na vida dessas pessoas porque nada foi planejado. O que era para ser só um ponto de apoio para casais interessados em adotar crianças se transformou num porto seguro para centenas de famílias.
A história dessa mulher traz uma surpreendente virada dos próprios preconceitos. Louca para ser mãe e sem conseguir engravidar, precisou ser convencida por amigos de que poderia adotar. Há 25 anos, quando os adotantes ainda podiam se candidatar em outros estados do país, Mônica optou pelo Paraná, só porque lá estavam os amigos que a incentivaram a dar esse passo.
O juiz avisou que a fila era longa. Havia 160 casais na frente dela e uma espera aproximada de dois anos. Desanimada, Mônica se apegou à ideia de que toda fila anda, portanto, quanto mais cedo entrasse, mais rápido chegaria sua vez.
E já que era para esperar mesmo, não poupou sonhos na petição. Gostaria de ser mãe de menina, se possível gêmeas! Nas contas dela, o pedido “grande” a faria esperar dobrado, ou seja, quatro anos. Talvez ela não se lembrasse que, desde sempre, conseguir pais adotivos para irmãos é um desafio. Dois meses depois, em meio a uma história de cinema que nem dá para contar aqui, Mônica voltou para casa com Izabella e Gabriela, hoje com 25 anos.
Vou abrir um parêntese para contar que, sete meses depois, Mônica engravidou do Renato, mas, aí, ela já sabia que o amor materno não se transmite pelo umbigo. A antes reticente Mônica em relação à adoção se transformou na mulher defensora desse modo de maternar. Advogada por formação, passou a orientar gratuitamente outros casais na mesma jornada.
A partir daí, Mônica foi engolida pelas necessidades que envolvem as crianças em casas de acolhimento, fazendo com que ela ampliasse ainda mais seu olhar para o sistema e quisesse ajudar mais. Nem ela sabe explicar o passo-a-passo do seu envolvimento até fundar, em 2010, o Instituto Adotar, formalizado em 2012.
Seus dias passaram a ser ocupados por pais ansiosos para maternar, famílias partidas por diversos tipos de violência, crianças entregues ou recolhidas de seus pais biológicos, casas de acolhimento em meio aos seus muitos desafios, comunidades envoltas em conflitos variados _ às vezes fome, às vezes desemprego, às vezes drogas, às vezes desrespeito aos direitos humanos.
Há cerca de dois meses, Mônica foi surpreendida com o pedido de uma das filhas gêmeas para conhecer a mãe biológica. Esse ainda é um medo que ronda os pais adotivos mas, de novo, ela reagiu como ninguém imaginava: mobilizou meio mundo até encontrar a mulher que um dia conheceu adolescente ao lhe entregar as gêmeas. Comprou as passagens e a trouxe, junto com a avó, até Beagá. “Agora somos grandes amigas, porque é como eu digo a ela: somos mães, as duas!”
Em momento algum, ela sofreu ao pensar que ia dividir o amor da sua menina com outra mulher e amou cada segundo do encontro delas. Sofrimento para a Mônica é contar os ingressos e ver que ainda precisa vender 1.500 unidades para o show anual que não deixa o Instituto Adotar parar.
Por tudo isso, e muito mais, eu recomendo fortemente que você siga essa mulher em www.instagram.com/institutoadotar e www.instagram.com/monica.adotar.
P.S. Interessados (pessoas físicas e empresas) em assistir ao show ou presentear amigos e colaboradores com ingressos, podem comprar pelo Sympla ou acessar em diretamente o instituto no link da bio no Instagram.









