Se alguém te parasse no meio de um evento literário e pedisse para citar autores negros, você saberia responder? A pergunta pode parecer simples, mas ainda provoca dúvidas em muita gente. Durante a 55ª edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada entre 4 e 13 de setembro, o debate sobre representatividade e literatura ganhou espaço, e um influenciador fez essa pergunta para quem passava pelos estandes: ‘Cite dois autores negros’. Muitos silenciaram sem saber citar um só, e alguns citaram alguns da lista abaixo, seja pela falta de conhecimento ou interesse ou mesmo pela falta de espaço que é dada a pessoas negras na sociedade brasileira em suas diferentes esferas.
Pensando nisso, o BHAZ preparou uma lista com 10 autores negros brasileiros que você precisa conhecer, de nomes consagrados da literatura brasileira a escritores contemporâneos.
Machado de Assis
Joaquim Maria Machado de Assis é um o principal nome da literatura brasileira. Jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, ele é considerado um dos principais autores da língua portuguesa. Em 1881, publicou “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, obra que marcou uma nova fase de sua produção literária e é tradicionalmente associada ao início do Realismo no Brasil. Machado também é autor de clássicos como “Dom Casmurro”, “Quincas Borba”, “Ressurreição” e “Papéis Avulsos”.
A identidade racial de Machado também passou por diferentes interpretações ao longo da história. Estudos e biografias recentes têm destacado sua negritude e discutido como ela foi apagada ou minimizada em parte da representação histórica do escritor. A própria Academia Brasileira de Letras, da qual ele foi fundador e primeiro presidente, já o descreveu como um escritor negro em publicações sobre sua trajetória.

Lima Barreto
Afonso Henriques de Lima Barreto foi um jornalista e escritor brasileiro, identificado com o pré-modernismo. Publicou romances, sátiras, contos, crônicas e uma vasta obra em periódicos, principalmente revistas populares ilustradas e periódicos anarquistas do início do século XX.
Lima é autor de obras como “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, “Clara dos Anjos” e outras obras.
Neto de escravos e filho de pais livres, nascido no dia 13 de maio de 1881, na mesma data em que sete anos depois a Lei Áurea colocaria um fim na escravidão, Lima abordou o tema a partir de sua própria experiência.

Conceição Evaristo
Maria da Conceição Evaristo de Brito, mineira, linguista e uma das maiores escritoras negras do Brasil. Trabalhou como empregada doméstica, se tornou professora e fez faculdade de Letras, além de mestrado e doutorado.
Ela é autora de grandes obras brasileiras como “Canção para Ninar Menino Grande”, “Olhos d’Água”, “Insubmissas Lágrimas de Mulheres”. Sua primeira obra literária, Ponciá Vicêncio, foi publicada em 2003, aos 57 anos da intelectual.
As poesias e os contos de Conceição Evaristo ampliam a temática sobre a mulher negra por meio de diferentes situações. Sua poesia abarca temas que focalizam a maternidade, a pobreza, a mineiridade, o telúrico, o amor, homenagens a amigos e outros. Os contos, em geral, trazem uma temática ligada à vida na favela, com seus dramas e tragédias. Para demonstrar como se dá esta ampliação temática, comentarei sucintamente alguns poemas e contos.

Jeferson Tenório
Jeferson Tenório é um escritor, professor e pesquisador brasileiro radicado em Porto Alegre. Autor das obras contemporâneas “O Avesso da Pele”, “ De onde eles vêm” e “Estrela sem Deus”.
Suas obras também exploram como negritude é estrutura, não tópico. Como a experiência de ser pessoa negra no Brasil não é algo adicional que pode ser removido de uma história.

Carolina Maria de Jesus
Carolina Maria de Jesus foi uma escritora, cantora, compositora e poetisa brasileira. Uma das primeiras escritoras negras do Brasil, De Jesus é considerada uma das mais importantes escritoras do país, de tal modo que sua obra e vida permanecem objetos de diversos estudos, tanto no Brasil quanto no exterior.
Carolina Maria de Jesus revolucionou a literatura brasileira ao dar voz à realidade da fome, da pobreza e do racismo a partir da sua vivência como mulher negra e catadora de materiais recicláveis na favela do Canindé, em São Paulo. Sua principal obra, “Quarto de Despejo”, foi traduzida para 13 idiomas e vendeu mais de 1 milhão de cópias.
Ela é autora ainda de “Diário de Bitita”, “Casa de Alvenaria” e “O Escravo”.

Jeovanna Vieira
Jornalista, escritora e pós-graduada em literatura para a infância pela “Casa Tombada”, estreou com o romance “Virgínia mordida” da Companhia das Letras, cuja primeira versão foi finalista do Prêmio Kindle de Literatura.
O romance narra a história do relacionamento entre Virgínia e Henrí, a partir da perspectiva dela enquanto narradora. Ela, uma advogada bem-sucedida, uma mulher negra orgulhosa de sua ancestralidade e matrilinearidade; ele, uma ex-criança famosa na Argentina em razão dos abusos sofridos por sua mãe, um ator frustrado e sem talento, residente há mais de uma década no Brasil.

Ana Maria Gonçalves
Ana Maria Gonçalves é uma escritora brasileira e a primeira mulher negra a integrar a Academia Brasileira de Letras, onde ocupa a 33ª cadeira.
Em “Um defeito de cor”, narrativa monumental de 952 páginas, traz em primeira pessoa a trajetória de Kehinde, nascida no Benin, desde o instante em que é escravizada, aos oito anos, até seu retorno à África, décadas mais tarde, como mulher livre, porém sem o filho, vendido pelo próprio pai a fim de saldar uma dívida de jogo.
Ganhador do prêmio Casa de las Américas (2007), o livro também foi classificado como o melhor da literatura brasileira no século 21 por júri especializado convidado pelo jornal Folha de S. Paulo.

Itamar Vieira Junior
Itamar Vieira Junior é um escritor baiano. É autor do romance “Torto Arado”, ganhador dos prêmios LeYa (2018), Jabuti (2020), Oceanos (2020) e Montluc Rèsistance et Liberté (2024).
Seu impactante romance enfatiza a vida de trabalhadores sem-terra remanescentes do regime escravista, em especial as personagens femininas duplamente vítimas da violência que impera nos grotões mais afastados, realidade representada por meio de uma sensível e sofisticada escrita, como bem notaram os jurados do concurso em sua nota de justificativa.
Também é autor de “Salvar o fogo” e “Coração sem medo”.

Eliana Alves Cruz
Eliana Alves dos Santos Cruz é uma jornalista e escritora brasileira. Suas obras focam principalmente em ficção e contos, com ênfase em perspectivas afro-brasileiras. Reconhecida por sua literatura focada na ancestralidade negra e na recuperação de memórias silenciadas da história oficial do Brasil.
É autora dos livros “Solitária”, “Água de barrela” e “O crime do cais do valongo”.

Djamila Ribeiro
Djamila Taís Ribeiro dos Santos é uma professora, filósofa, escritora, feminista negra, acadêmica e ativista do movimento negro no Brasil e internacionalmente, com forte presença nas redes sociais. amplamente reconhecida como uma das principais vozes contemporâneas do feminismo negro e da luta antirracista no Brasil e no mundo.
Entre as obras da intelectual, estão “Pequeno Manual Antirracista” e “Lugar de Fala”.
















