Gabriel Araújo, atleta mineiro e medalhista paralímpico, utiliza cadeira de rodas motorizada do SUS

Gabriel Araújo Brasil
Gabriel ainda vai disputar mais duas medalhas pelo Brasil na capital japonesa (Reprodução/@gabrielaraujo_s2/Instagram)

O mineiro Gabriel Araújo ganhou destaque nos últimos dias depois de se tornar o primeiro medalhista brasileiro nos Jogos Paralímpicos de Tóquio. O atleta encantou Santa Luzia, sua cidade natal, Corinto, onde foi criado, Juiz de Fora, onde treina, mas também a equipe do Centro Especializado em Reabilitação (CER IV) de Diamantina e o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). O jovem utiliza uma cadeira de rodas motorizada do SUS graças à intervenção das duas instituições.

Tudo começou quando um médico da cidade viu Gabriel usando o smartphone com os pés. O fato chamou a atenção do profissional, que resolveu encaminhá-lo para atendimento no CER, a fim de receber a cadeira de rodas fornecida pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Em janeiro do ano passado, o atleta recebeu a sua “tão sonhada cadeira de rodas motorizada”, como ele mesmo descreveu, ganhando autonomia na locomoção e nos treinos.

Na época, o jovem agradeceu pela doação. “Há alguns dias recebi umas das melhores notícias da minha vida e gostaria de dividir com vocês: ganhei a minha tão sonhada cadeira de rodas motorizada! Me faltam palavras para expressar tamanha alegria, mas queria dizer que estou profundamente agradecido por essa doação que foi feita pelo CER de Diamantina”, escreveu em uma rede social.

“Graças ao apoio de inúmeras pessoas e da CER Diamantina realizei mais um sonho e agora consigo ainda mais alcançar minha independência. Muito obrigado a todos os envolvidos, vocês mudaram a minha vida”, finalizou o atleta.

Atuação decisiva

A história poderia ter sido diferente se o MPMG não tivesse atuado quatro anos antes. O CER IV de Diamantina, objeto de agradecimento do atleta, quase fechou as portas em 2016. Na época, a dívida do CER chegava a R$ 25 milhões, o déficit mensal estava em R$ 1,1 milhão para uma receita de R$ 1 milhão, e os funcionários estavam há 11 meses sem receber.

A 2ª Promotoria de Justiça de Diamantina abriu inquérito civil para investigar a empresa que administrava a Irmandade Nossa Senhora da Saúde, responsável pelo CER, e encontraram várias irregularidades. As investigações resultaram no ajuizamento de uma Ação Civil Pública (ACP) que afastou a empresa e os membros dela, além de uma intervenção judicial e uma ação penal. A antiga gestora foi condenada recentemente a ressarcir a Irmandade em cerca de R$ 10 milhões.

Segundo o promotor Luís Gustavo Patuzzi Bortoncello, ao longo da ACP foram definidas novas receitas e serviços e redução de despesas. A Irmandade recebeu nova direção, determinante na recuperação da instituição. Hoje, o hospital, que tem 93% da receita proveniente do SUS, ao lado da Santa Casa de Caridade, é responsável por todos os atendimentos de média e alta complexidade da região do Jequitinhonha. Recentemente, a unidade ainda inaugurou novos serviços como tomografia e CTI Adulto.

Gabriel no dia em que recebeu a cadeira (Reprodução/@gabrielaraujo_s2/Instagram)

Depois da atuação do Ministério Público, o CER de Diamantina se tornou um dos mais importantes centros de reabilitação do país, com a saúde financeira em dia. Com isso, conseguiu fornecer, em 2020, a cadeira de rodas para o atleta paralímpico. Ainda hoje, a Promotoria realiza reuniões quinzenais com a direção da Irmandade para acompanhar a situação.

Um dos primeiros CER do Brasil, implantado em 2013, juntamente com o Hospital Nossa Senhora da Saúde, braços da Irmandade Nossa Senhora da Saúde, hoje são referências no atendimento.

Atleta utiliza a cadeira de rodas em Tóquio

Segundo a diretora da instituição, Tereza Cristina Santiago e Faria, a cadeira foi adaptada para o atleta para que ele conseguisse acionar os comandos com os pés, já que ele não tem os braços. Gabriel Araújo é portador de focomelia, doença congênita que provoca má formação dos membros.

A rapidez com que o atleta se adaptou à cadeira surpreendeu os gerentes Roggerio Aguilar Ferreira da Silva, Letícia Araújo Neves Sena, a fisioterapeuta Vanessa Ribeiro, a terapeuta ocupacional Hamanda Rocha e o técnico Alan Gomes, da equipe da provedora Themis Maria Mandacaru.

Em Tóquio, o atleta do Clube Bom Pastor, de Juiz de Fora, na Zona da Mata, usa a cadeira enquanto se prepara para a disputa de mais duas provas, os 200m livre e os 50m costas.

Conquistas e história

O mineiro conquistou a primeira medalha do Brasil nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, na última quarta-feira (25), quando levou a prata nos 100m costas da classe S2 com a marca de 2min02s47. O atleta de 19 anos, porém, já vem de uma série de conquistas internacionais.

Aos 17 anos, em 2019, Gabriel conquistou cinco medalhas nos Jogos Para Pan-americanos de Lima, no Peru. Foram duas de bronze, uma de prata e duas de ouro. Ele começou a nadar ainda criança, em Corinto, na região Central do estado, onde foi criado, e passou a competir nos Jogos Escolares de Minas Gerais.

No próximo ano, o medalhista paralímpico deve retornar a Diamantina para trocar a sua cadeira de rodas no centro que fornece cerca de 600 unidades por ano para pessoas de cidades atendidas por ele.

Com MPMG

Comentários