Polícia investiga vídeo falso de idosa ‘enterrada viva’ para inflar casos de Covid-19

idosa resgatada em necrotério
Idosa foi atendida em estado grave em hospital do Pará (Facebook/Reprodução)

Um vídeo que mostra uma idosa em uma maca com dificuldade de respirar tem circulado pelas redes sociais. A mulher está dentro de um saco plástico, comumente utilizado para carregar corpos de pessoas mortas. Junto às imagens, são compartilhadas mensagens afirmando que a mulher teria sido resgatada de um necrotério.

Somente uma das publicações feitas com o vídeo já passa de 2,6 milhões de visualizações. Os textos afirmam que a mulher seria enterrada viva para inflar o número de mortes por Covid-19. No entanto, essa afirmação é falsa e a Polícia Civil do Pará já abriu inquérito para investigar a divulgação do vídeo.

Em algumas publicações do vídeo, o local da filmagem é atribuído a um hospital de Manaus e outras dizem que a cena se passou em Belém, no Pará.

Com a grande repercussão, a BBC divulgou que o governo do Pará emitiu uma nota confirmando que o vídeo foi gravado no distrito de Icoaraci, em Belém. No entanto, as autoridade locais negam que a mulher estivesse em um necrotério. “Em nenhum momento a paciente foi encaminhada para o necrotério enquanto viva”, diz comunicado da Secretaria Estadual de Saúde do Pará.

A verdadeira história

Segundo a BBC, as imagens da idosa foram feitas enquanto ela estava no setor de observação do Hospital Abelardo Santos. Conforme comunicado do Governo do Pará, a mulher esperava por um leito na unidade de saúde, que é referência no combate ao novo coronavírus no Estado.

Na unidade de saúde, o número de atendimentos têm aumentado muito com o crescimento exponencial de casos no Pará. Já são 10,8 mil casos e mil morte, até essa quinta-feira (14).

Segundo a Direção da Santa Casa de Pacaembu, Organização Social em Saúde responsável pelo Hospital, a idosa deu entrada na unidade em 4 de maio, em estado gravíssimo. De acordo com a BBC, ela apresentava quadro de intensa falta de ar e fraqueza. A direção afirma ainda que a paciente “recebeu assistência médica adequada pela equipe de plantão” logo que chegou.

Ao longo do dia 5 de maio, de acordo com a direção do hospital, o quadro de saúde da idosa se agravou enquanto aguardava internação. À espera de um leito, ela respirava com dificuldades, sem ventilação mecânica. O diretor técnico do hospital, Milton Bonny, afirma que muitos pacientes precisam esperar por um leito, em razão da grande demanda no local.

Hospital Abelardo Santos, em Belém (PA)
Hospital Abelardo Santos se tornou referência para atendimento da Covid-19 após aumento exponencial de casos no estado (Pedro Guerreiro/Agência Pará)

Com relação ao saco usado para levar cadáveres, o diretor justifica que o aparato iria ajudar a carregar a idosa para uma outra maca, em razão da fragilidade do estado de saúde dela. “É uma prática comum em hospitais, ainda mais (em) épocas de pandemia ou epidemia, que mudam os nossos conceitos e precisamos fazer adaptações”, disse o diretor à BBC.

A Organização Social em Saúde garantiu que, posteriormente a paciente foi avaliada por dois médicos e encaminhada para a sala vermelha, que atende pacientes graves. Depois, não resistiu e morreu.

A Polícia Civil do Pará abriu inquérito para apurar o vazamento do vídeo e também para investigar os responsáveis pela fake news que afirma que a idosa foi levada viva para o necrotério. Segundo o jornal, os familiares dela e os profissionais de saúde envolvidos no atendimento à paciente devem ser ouvidos nos próximos dias.

Guilherme Gurgelguilherme.gurgel@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Escreve com foco nas editorias de Cidades e Variedades no BHAZ.