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O supermercado sem patrão onde quem compra também manda

08/07/2026 às 10h29
Gomo coop

No centro de São Paulo, funciona um supermercado sem patrão. Quem entra para fazer compras também repõe prateleiras, opera o caixa ou passa o pano no chão. Em troca, tem acesso a produtos orgânicos e agroecológicos por preços abaixo dos praticados no varejo tradicional. O lugar se chama Gomo Coop, e é a primeira cooperativa de consumo participativa do Brasil — e da América Latina.

O que é uma cooperativa de consumo participativa

O modelo funciona assim: qualquer pessoa pode se tornar cooperante. Para isso, paga uma cota-parte de R$ 100 — uma fração de propriedade da cooperativa — e se compromete a trabalhar três horas a cada 28 dias. As tarefas são as do dia a dia de qualquer supermercado: organização de estoque, limpeza, atendimento no caixa, recebimento de entregas.

A lógica é de redução de custos por trabalho coletivo. A Gomo Coop tem quatro funcionários contratados, que recebem R$ 4 mil por 36 horas semanais. O restante da operação é feito pelos próprios cooperantes. Com a folha de pagamento enxuta, os custos operacionais caem, e essa economia se traduz em preços menores nas prateleiras.

A cooperativa não visa lucro. Os preços são formados pelo custo de aquisição das mercadorias somado às despesas operacionais da loja. Quanto mais cooperantes participarem, mais eficiente fica a operação e mais os preços podem cair.

Como funciona na prática

Ao entrar na Gomo, o cooperante passa por uma reunião de boas-vindas, em que recebe as informações sobre os turnos e as regras de funcionamento. Já sai da reunião com o primeiro turno agendado. A partir daí, compra na loja com preços diferenciados e tem voz e voto nas decisões da cooperativa.

Uma vez por ano, os cooperantes participam da assembleia geral, em que prestam contas e escolhem quem vai compor os conselhos administrativo e fiscal. Cada cooperante representa um voto, independentemente de quantas cotas possua.

A cota-parte de R$ 100 pode ser recuperada integralmente caso a pessoa decida sair ao fim do ano fiscal. Ela não é uma taxa, mas uma fração de propriedade do negócio.

O que a loja vende

O foco da Gomo Coop é em produtos orgânicos, agroecológicos e de cadeias de produção responsáveis — hortifruti sem agrotóxicos, itens de mercearia com origem rastreável, produtos de povos originários e da reforma agrária. Mas a cooperativa também vende produtos convencionais. A razão é acesso: para que os cooperantes não precisem ir a mais de um lugar para fazer as compras do mês, a loja oferece ao menos uma opção de preço menor para cada categoria de produto.

A Gomo também está aberta ao público geral — não apenas a cooperantes. Os não-cooperantes pagam entre R$ 1 e R$ 3 a mais por produto. Essa abertura é uma estratégia para o período inicial: atrair pessoas para o modelo e garantir capital de giro. A decisão de manter ou encerrar o acesso ao público será discutida.

A origem do projeto

O projeto levou quatro anos para sair do papel. Em 2021, um grupo de 30 pessoas se reuniu em São Paulo para estudar cooperativismo e pensar em como replicar no Brasil um modelo que já existe há décadas em outros países. Um dos idealizadores é o ator Chico Lima, que conheceu a Park Slope Food Coop em Nova York.

Para tirar o projeto do papel, o grupo levantou R$ 430 mil em empréstimos entre os próprios idealizadores — valor que começa a ser devolvido em cinco anos — e fez uma campanha de financiamento coletivo que arrecadou outros R$ 100 mil, usados na primeira compra de produtos. A Gomo abriu as portas na primeira semana de janeiro de 2026, com 358 cooperantes. A meta é chegar a 700.

Onde o modelo surgiu

A referência principal da Gomo é a Park Slope Food Coop, criada em 1973 em Nova York. A cooperativa tem cerca de 16,5 mil membros e mais de 50 anos de operação. Um balanço de 2024 mostrou vendas na faixa de US$ 55 milhões. Os membros dedicam 2,75 horas de serviço a cada seis semanas.

Em Paris, a La Louve opera em um espaço de 1.450 m² desde 2017 e tem mais de 5 mil membros registrados. Em Bruxelas, a Bees Coop reúne cerca de 3 mil membros em 600 m² de loja. Modelos semelhantes também funcionam em Portugal, Espanha e Alemanha.

Como entrar

Para se tornar cooperante, o interessado preenche um formulário no site da cooperativa (gomo.coop.br), é incluído em um grupo de WhatsApp com orientações e participa de uma reunião de boas-vindas — etapa obrigatória para agendar o primeiro turno de trabalho.

A Gomo funciona de terça a quinta, das 8h às 16h; sextas, das 8h às 18h; e aos sábados, domingos e feriados, das 10h às 16h.

Pedro Rocha Franco

Pedro Rocha Franco é jornalista desde 2007 e bacharel em ciências sociais. Foi repórter do jornal Estado de Minas, editor do portal O Tempo e head do departamento de jornalismo digital da Itatiaia. Hoje é gerente executivo do BHAZ. Além disso, colaborou com UOL e Repórter Brasil.

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