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‘Quanto mais eu perdia, mais eu queria jogar’: vício em bets se assemelha à dependência de drogas

11/12/2024 às 07h58
(Isabella Guasti)

“Sua vida acaba na primeira aposta.” A frase de Thiago Silva*, 32, resume o que enfrentou em anos de dependência das apostas online. Há seis meses, ele conseguiu romper com o ciclo de perdas, mas não sem antes ver cerca de R$ 500 mil desaparecerem para as chamadas bets. “Quanto mais você tem, mais você joga. Quando tinha menos, jogava menos, mas tendo mais, eu jogava mais”, desabafa.

Thiago é um entre os milhares de brasileiros afetados pela onda das apostas online que cresceu nos últimos anos. Em média, R$ 6 bilhões são movimentados mensalmente com as bets. O dado é de uma pesquisa feita pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) juntamente com o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Offerwise Pesquisas. O levantamento indica que cerca de 40 milhões de brasileiros fizeram algum tipo de aposta no último ano, o que representa 18% da população. Cerca 63% de quem aposta no Brasil afirma que teve parte de sua renda comprometida com os jogos online. Os apostadores alegam ainda que, por causa das bets, deixaram de comprar vestuário, produtos de higiene pessoal e até alimentos.

A história de Thiago com as apostas começou cedo, quando ainda não se falava em jogos pela internet. “Eu comecei jogando baralho. Na época eu e minhas irmãs gêmeas tivemos uma festa de aniversário de 15 anos e eu ganhei mais de 40 bonés. Todos eu perdi jogando baralho”, lembra.

Hoje, 17 anos depois da primeira experiência com jogos de aposta, o mineiro, que administra uma empresa ao lado do pai, relata que cresceu cercado pelo vício. “Eu comecei a trabalhar com meu pai e o meu primeiro salário eu apostei. Quanto mais eu crescia, mais dinheiro eu ganhava. E quanto mais dinheiro eu ganhava, mais eu jogava”, descreve. Em um desses jogos, Thiago chegou a faturar 52 mil, o que lhe deu confiança para fazer apostas cada vez mais altas.

Ao BHAZ, o neurocientista da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) Bruno Rezende explica que as apostas online ativam áreas específicas do cérebro associadas ao prazer e recompensa.

“Observamos que, ao apostar, o cérebro libera altos níveis de dopamina, semelhante ao que acontece em atividades como o consumo de álcool ou substâncias ilícitas”, pontua. Esse mecanismo de “recompensa rápida” se repete a cada aposta, criando uma necessidade crescente de mais estímulos para alcançar o mesmo nível de satisfação, o que aumenta o risco de dependência.

Esse ciclo vicioso foi o que tomou conta da mente de Thiago.

“Quanto mais eu perdia, mais eu queria jogar. Acho que o principal não era nem quando ganhava, era o ‘nossa, quase ganhei. vou ficar rico’. E mesmo sabendo que eu iria perder, eu jogava”.

Como as bets agem no cérebro?

Bruno Rezende afirma que as apostas online podem causar efeitos significativos no cérebro humano, especialmente nas áreas ligadas ao controle da impulsividade e ao sistema de recompensas. Isso porque o uso frequente de plataformas de apostas pode levar a uma ativação constante de dopamina, neurotransmissor associado ao prazer, mas também à dependência e à perda de controle emocional.

“Esse vício pode ser comparado a outros, como álcool e nicotina, onde a repetição contínua do comportamento é um fator crucial. No caso das apostas, a possibilidade de jogar repetidamente, sem intervalos, intensifica a dependência, mantendo o sistema de recompensa em constante ativação”, pontua.

A dependência de jogos também pode levar a consequências duradouras no cérebro, como maior vulnerabilidade ao estresse, impulsividade e risco de depressão, efeitos que se assemelham ao vício em drogas, apesar de as apostas terem um estímulo direto menos intenso.

Para jovens, o risco é especialmente alto, pois o cérebro em desenvolvimento não possui as mesmas habilidades de autocontrole dos adultos, tornando-os mais propensos a adotar comportamentos compulsivos que podem impactar seu desenvolvimento emocional e social a longo prazo.

“Com o tempo, o uso recorrente de plataformas de apostas online altera a percepção de risco e recompensa, dificultando o controle sobre os impulsos e, em alguns casos, levando a decisões financeiras e emocionais prejudiciais”, destacou Rezende.

Além disso, a dependência das apostas online também pode afetar outras esferas da vida do usuário, como o desempenho no trabalho e as relações pessoais. “A dependência de dopamina gerada pelas apostas faz com que o indivíduo perca o interesse em atividades que antes lhe davam prazer, pois estas não proporcionam o mesmo nível de recompensa rápida”, observou o professor.

Recuperação e tratamento

Thiago atingiu o fundo do poço ao perder mais de R$ 70 mil, retirados dos caixas da empresa familiar, em apenas 10 dias. No entanto, ele destaca que os estragos financeiros foram superados pelos danos profundos nas relações familiares, que sofreram com a quebra de confiança.

“Minhas irmãs já me disseram que eu deveria me matar de tanta tristeza que eu dava pro meu pai. Eu acho que quem mais sofre é a família, porque a gente ainda tem o prazer de jogar”, relata o empresário, que só viu sua situação mudar quando admitiu que tinha uma doença e pediu a ajuda do pai para iniciar a jornada de recuperação.

Foi por meio de um amigo da família que Thiago descobriu a comunidade dos Jogadores Anônimos (JA), um grupo de apoio para pessoas viciadas em jogos. Em Belo Horizonte, os participantes se reúnem semanalmente para compartilhar suas histórias, trocar experiências e buscar motivação na luta contra o vício. Além das bets, problemas com outros jogos de azar, como baralho e caça-níqueis, são citados nas reuniões.

Segundo Lucas Almeida*, presidente do Jogadores Anônimos em BH, o grupo opera desde 1996 ajudando pessoas que buscam largar as apostas. Para Almeida, que também é um jogador em recuperação, chave do sucesso do JA está no compartilhamento de experiências em comum.

Thiago confirma: “No dia 8 de agosto meu carro foi roubado e eu fiquei doido. Pensei em jogar para recuperar o valor do carro. Mas eu não joguei por causa daqui [JA]. Se eu não tivesse conhecido aqui, eu tinha jogado. E esse tempo que eu estou aqui tem sido a melhor escolha da minha vida”.

Desde então, a jornada de tratamento foi construída “um dia de cada vez”, como enfatizado em cada reunião dos Jogadores Anônimos. Além disso, o empresário passou a fazer acompanhamento psiquiátrico.

Hoje, as relações familiares também estão mais fortes: “Minha família toda sabe que eu venho no JA e veem a diferença. Eu era uma pessoa extremamente arrogante, raivosa. Hoje eles confiam em mim. A conta da empresa está no meu celular, todas as minhas contas estão comigo”.

“Hoje todo mundo me vê de uma outra forma que nunca me viu, sabe e eu sei que eu sou uma pessoa boa”.

Problema de saúde pública

Reconhecido como um problema que vem se tornando também de saúde pública, o vício em apostas fez com que o governo federal criasse um Grupo de Trabalho Interministerial de Saúde Mental, Prevenção e Redução de Danos do Jogo Problemático. A Portaria Interministerial que institui a iniciativa foi publicada no dia 9 de dezembro. Representantes dos ministérios do Esporte, Fazenda, Saúde e da Secretaria de Comunicação Social da Presidência vão integrar a equipe que pretende trabalhar no desenvolvimento de estratégias para “prevenir, mitigar danos e oferecer suporte a indivíduos e comunidades afetados por práticas de jogo compulsivo ou em situação de vulnerabilidade”.

*Nome fictício

Isabella Guasti

Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e repórter do BHAZ desde 2021. Participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022 e também de reportagem premiada pelo Sebrae Minas em 2023. Vencedora do prêmio CDL/BH de jornalismo 2024.
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Isabella Guasti

Email: isabella.guasti@bhaz.com.br

Jornalista

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