“Será que Deus esqueceu-me?”. O clamor por justiça de Carolina Maria de Jesus no livro “Quarto de despejo: diário de uma favelada” foi ponto de partida para uma investigação teológica conduzida pelo pesquisador Carlos Rafael Pinto. Em conversa com o BHAZ, ele fala sobre o lançamento do livro “Carolina Maria de Jesus: contribuições para uma Teologia Negra Decolonial” que chega às prateleiras nesta semana.
O lançamento do texto, a primeira contribuição teológica sobre a obra de Carolina Maria de Jesus, ocorreu na última segunda-feira (3), em evento na Academia Mineira de Letras, no Centro de Belo Horizonte. De acordo com o autor mineiro, o livro nasceu de uma tese de doutorado em teologia desenvolvida na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), após seis anos de pesquisa sobre a escritora.
“Meu primeiro encontro com Carolina foi através dos escritos de ‘Quarto de despejo: diário de uma favelada’. A partir dali, a pergunta que me veio foi: ‘Será que Deus esqueceu-me?’”, conta Carlos. “Essa questão mostra como ela estabelece uma relação com Deus mais horizontal do que vertical, uma interlocução.”

A partir dessa inquietação, o pesquisador mergulhou na obra de Carolina e encontrou uma escrita marcada pela fome e pela fé. “Ela lutava todos os dias contra a fome, mas também escrevia fortalecida pela fé”, explica. Segundo o autor, o livro busca socializar esse conhecimento. “A tese, depois de defendida, fica na biblioteca. Eu quis transformar em livro para que mais pessoas pudessem ter acesso. Sou um democrata nesse sentido: quero socializar o conhecimento”, diz.
A obra se estrutura em três partes. A primeira apresenta o que Carlos chama de biografemas, pequenos fragmentos da vida de Carolina a partir de suas palavras mais recorrentes: “diário”, “fome”, “Deus”. “Carolina catava papéis, mas também catava palavras. Eu procurei fazer o mesmo. Recolher as palavras que mais se repetem em seus escritos e, a partir delas, reconstruir sua trajetória”, explica.
Na segunda parte, o autor aproxima o pensamento de Carolina da perspectiva decolonial. Ele destaca que a escritora via a fome como “a escravidão atual”. “O pensamento decolonial investiga outras formas de ler e refletir sobre a realidade. A Carolina foi ferida pela fome, consequência direta da escravatura moderna, e isso a aproxima dessa linha de reflexão”, afirma.
Já na terceira parte, Carlos propõe uma leitura teológica da autora, relacionando seus escritos à Teologia Negra e à Teologia da Libertação. “Carolina oferece contribuições para pensar a fé a partir de outro lugar: o lugar do marginalizado, do amaldiçoado pelo patriarcado. Ela propõe uma experiência de Deus que nasce da dor, mas também da resistência”, analisa.
Para o pesquisador, essa releitura teológica tem potencial de acrescentar ao debate sobre fé no Brasil. “A teologia negra começou no protestantismo com James Cone e foi desenvolvida no catolicismo pelo padre Toninho. A partir de Carolina, eu busco um diálogo entre esses campos e com a literatura”, explica. “Meu trabalho está na linha da teopoética, esse encontro entre teologia e literatura.”
Carlos espera que o livro ajude a ampliar o acesso ao pensamento da escritora e inspire novos olhares sobre sua obra. “Existe uma comunidade de pesquisadores se formando ao redor do pensamento de Carolina. Eu quero que este livro seja mais uma contribuição. A teologia pode ter uma palavra a partir dos escritos de Carolina. Ela escreveu, e escrever foi o seu ato de liberdade”, ressalta.
‘Carolina Maria de Jesus: contribuições para uma Teologia Negra Decolonial’
Autor: Carlos Rafael Pinto
Editora: Contra o Vento
Páginas: 284
Preço: R$ 70
Onde comprar: Quixote Livraria (Rua Fernandes Tourinho, 274 – Savassi, Belo Horizonte)













