E onde comer os melhores em BH
Cresci achando que PF era coisa ruim. Quando criança, não queria que alguém fizesse meu prato se eu mesmo tinha a prerrogativa de ir ao buffet escolher o que e quanto eu quisesse. Demorei a entender que não havia desvantagem alguma em ter meu “Prato Feito”.
O Prato Feito dá ao Chef a possibilidade de propor uma coesão nos ingredientes que são servidos. E hoje valorizo muito esse elemento surpresa. Gosto de chegar em um bom restaurante e ver lá o tal do Prato do Dia, de preferência escrito em giz, na lousa. É esse que eu vou pedir, confiando totalmente ao estabelecimento um dos (se não o) principais prazeres de uma quarta feira qualquer. Por conta disso, valorizo muito os lugares que se esmeram na elaboração e execução desses pratos. E meu principal critério de avaliação de qualidade naquilo que é ofertado, está no fato dos ingredientes serem bons separadamente e ainda melhor juntos.
O arroz precisa estar bem temperado. Pouco alho e quantidade adequada de sal. Estar soltinho é um plus, mas eu, particularmente, não faço tanta questão assim. Me incomoda o arroz estar muito gorduroso, porque ao juntar com outros ingredientes naturalmente mais pesados, o prato acaba perdendo o equilíbrio. Então entre sequinho e soltinho, fico com o sequinho.
Valido a existência de PFs sem feijão em algumas condições específicas, mas normalmente enxergo o feijão como sendo uma das principais estrelas do prato. Normalmente é minha primeira garfada. Um feijão no ponto certo é aquele que não está todo despedaçado, mas que também não oferece resistência demais às dentadas. Aqui o alho pode estar para mais e o caldinho é sempre bem vindo. Aquele um pouquinho mais espesso, que recebe super bem uma pimentinha. Um bom feijão não precisa do arroz pra fazer combinação: Vai muito bem à boca com folhas verde escuras, por exemplo.
A escolha da salada também tem relevância. Como não costuma ser o ponto alto do PF, geralmente é relegada para um lugar de “qualquer coisa está bom”. Não que todo restaurante sirva folhas estragadas ou em pouca quantidade, mas muitas vezes não há o interesse em combinar ingredientes com o restante do prato. O que a gente mais vê é o alface picotado com cenoura ralada e duas lascas de tomate. Bastante enfadonho. Folhas, verduras, legumes e hortaliças precisam combinar com os outros ingredientes do PF. Afinal de contas, prato feito não é bagunça. Em alguns casos, a salada é servida antes, ofendendo o próprio conceito de prato feito.

Agora ela. Diga o que quiser, mas a carne é sempre a estrela maior de qualquer prato. Vale tudo: Bife, coxa de frango, carne cozida, assada, moída, etc. Ela dá o tom do restante do prato, que se adapta a ela. Alguns lugares oferecem a opção de PF onde varia-se somente a proteína. Não que eu não tenha comido bons pratos feitos dessa maneira, mas PF bom MESMO é aquele que consegue ornar bem todos os ingredientes em volta da carne específica.
Por fim, quase sempre temos um ingrediente adjunto que agrega algum valor. Normalmente não é necessário, visto que os 4 ingredientes acima já configuram uma refeição equilibrada. No entanto, o adjunto costuma propor aquele boost no carboidrato tornando a refeição mais divertida. Macarrão, farofa ou batata frita são as iguarias mais vistas. Entre todas as possibilidades, a que mais gosto é o purê de batatas, seja ele lisinho ou mais pedaçudo. O purê recebe bem os molhos e ajuda a limpar o prato ao fim da refeição.
Preparei então uma singela lista de onde se come um PF bem pensado, com as características citadas acima. Para a sorte de todos nós, essa lista não representa sequer 0,5% das boas opções que temos na cidade. Em matéria de comida do dia a dia, Minas Gerais ganha de todos os outros estados da federação – com folga. Mas compartilho com vocês alguns dos meus favoritos atualmente:
Bar Nova Suíça: O preço e a quantidade espantam. O bar tem sempre os pratos do dia, que vem tão bem servidos que desenvolvemos o conceito da “Borda infinita de feijão”: Fenômeno que acontece quando a quantidade é tamanha, que o caldo do feijão fica à beira de cair do prato, mas não cai. Olhando de cima, não se vê a borda do prato, somente o caldo do feijão. O bar fica na Rua Joaquim Nabuco, 183, adivinhem, no bairro Nova Suiça.

Bar da Praça: O que dizer deste bar que conheço há pouco tempo e já considero pakas. As opções de pequeno, médio e grande custam R$ 16, R$ 18 e R$ 20 respectivamente. Ótimo preço ainda mais considerando o nível do rango. O tropeiro completo garante saciedade para todo o dia, e os acompanhamentos costumam mudar. Além disso, o bar fica realmente em uma praça, desacelerando sua atividade cerebral em pelo menos 30%. É de chorar! Na Rua Oeste, 517 – Calafate.
Feijão: Acho muita responsabilidade colocar batizar um restaurante de Feijão. A expectativa para a boa execução do grão já sobe antes mesmo da visita. Imagina comer um feijão ruim no Feijão? Mas até onde pudemos apurar, não decepcionam nesse quesito. E não somente neste: A elaboração dos pratos faz sentido e os ingredientes são muito bons isoladamente. Combinar todos na mesma garfada não é necessidade, mas opção. No Edifício Maletta, Rua da Bahia, 1148 – Centro.
Xok Xok: Talvez o bar que já me vendeu PFs na vida. A localização central favoreceu minhas visitas ao longo de tantos anos de rotinas diferentes. Gosto muito da carne cozida, da variação das folhas e do tempero do feijão, que embora eu não possa testemunhar por 100% de acerto, normalmente é sempre bem feito e costuma ser bom ator coadjuvante do prato. O Xok Xok também se destaca pela estufa, o que favorece aquele almoço mais devagar, precedido de uns petiscos. Também está no Edifício Maletta, Rua da Bahia, 1148 – Centro.
Na Tora: Já cansei de falar dele para vocês. Esteve na minha coluna sobre preço justo e sobre onde comer bons defumados na cidade. Além das proteínas serem muito bem pensadas e executadas, aqui eles se destacam pelo carinho no preparo do ingrediente adjunto. No Na Tora, esse ingrediente tem valor! As folhas são sempre escolhidas de acordo com o prato e o ótimo feijão roxinho é opcional: Sim, porque pasmem, tem gente que acha que não é necessário no prato. Na Rua Tombos, 14 – Prado.
Menções honrosas: Bola Bar e Andu. Embora o PF de ambos seja muito bom, trabalham naquele modelo onde o prato é sempre igual e você escolhe a proteína. Não tenho problema com o fato, mas preciso valorizar os lugares que pensam o PF como um todo. De qualquer forma, os dois bares produzem deliciosas refeições, com destaque para as proteínas, em especial, as línguas de ambos.











