A banda mineira Graveola, antes conhecida como Graveola e o Lixo Polifônico, se despede oficialmente dos palcos neste sábado (1), em um show na Autêntica, no bairro Santa Efigênia, na região Centro-Sul de BH. Em conversa com o BHAZ, José Luis Braga, fundador, compositor e vocalista da banda, explicou o fim do grupo e prometeu o lançamento de um último disco em 2026, intitulado “Horizonte”.
Fim de uma era
A banda, que surgiu em 2004 na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da (Fafich) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), passou por “diversas formações e metamorfoses”. José Luis Braga, o único da formação original, explicou que a decisão de finalizar o Graveola partiu de um consenso. Além dele, Amanda Barbosa, Joana Bentes e Thiago Corrêa integram a atual formação.
“Esse excesso de transformações tem momento que é muito traumático. Por exemplo, em 2024, a gente perdeu metade da banda”, contou. O músico também mencionou que o Graveola, por reverenciar muito o próprio passado, poderia se tornar uma banda rotulada como “nostálgica”, mas, ao mesmo tempo, “a banda sempre aspira algo novo, ela tem que estar se renovando”, explicou José Luis Braga.
“Será que às vezes não é importante a gente preservar esse legado, mas deixar a gente abrir espaço para outras possibilidades? (…). Foi essa autorreflexão, de se pensar como um grupo que já cumpriu seu papel”.
O vocalista explicou que “chega um momento que vira um fardo” ser o único a permanecer na formação da banda desde o início. “Então, para mim, está sendo uma libertação também. Conseguir pensar outras possibilidades para a minha carreira, outras estéticas possíveis. Eu poder ter liberdade de pensar um repertório, de pensar uma direção artística e musical”, finalizou.
“Horizonte”
Conforme contou o vocalista, o álbum de despedida está previsto para ser lançado em março do ano que vem. José Luis Braga esclareceu que a banda não fará uma turnê de despedida e que o disco é uma forma de homenagear e “dar um presente para o público” nesse encerramento de ciclo. Além disso, ele destacou que o trabalho final também é “importante para consolidar e reverenciar essa última formação da banda”, disse.
O último disco terá sete ou oito canções, sendo “uma mistura de músicas inéditas com duas releituras”, revelou o José Luis Braga. O vocalista revelou com exclusividade um spoiler do álbum: o projeto terá a faixa tema “Horizonte” e a releitura reggae do hit “Dois Lados da Canção”, presente no primeiro disco da banda. O compositor ainda disse que as canções serão apresentadas ao vivo pela primeira e última vez no show de despedida deste sábado (1).
Efervescência cultural e política
Ao longo dos anos, a banda marcou gerações em BH, e o legado do Graveola é inseparável da história política e cultural da capital mineira. A advogada Míriam Marinho, fã do grupo desde 2008, afirmou que a banda é a “descrição perfeita do que foi um determinado momento da cidade”. Ela define esse período como uma “pulsão de música, de cultura, de política e de ocupação de espaços”, destacou.
Míriam Marinho contou que viu a banda pela primeira vez em um show comemorativo no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet), quando ainda estudava na instituição.
“Eu lembro que na época eles ainda eram Graveola e o Lixo Polifônico. Eles tinham uma questão de fazer som a partir de diversos instrumentos, de coisas inusitadas. Eu fiquei muito apaixonada de cara. Lembro de ficar em suspensão assistindo aquilo como se fosse, e era, a coisa mais incrível do mundo. Foi muito bonito”, relembrou a advogada.
A advogada destacou que o Graveola sempre esteve inserido nos movimentos sociais e na ocupação da cidade. Ela lembra de assistir shows embaixo do Viaduto Santa Tereza e na Praça da Estação, no Hipercentro da capital.
“Ocupar a cidade”
José Luis Braga recorda que, com o lançamento do álbum de estreia em 2010, a banda conquistou maior projeção no cenário mineiro e, consequentemente, “também impulsionou uma forma da gente se colocar e de ocupar a cidade, de mostrar que era possível a gente fazer uma uma Belo Horizonte pulsante, de forma cultural”, disse o vocalista.
“A nossa estética também dialogava com esse momento de buscar, de tentar explorar novas linguagens, de se arriscar artisticamente num cenário de profundas transformações políticas e na comunicação humana. Então, de certa forma, a gente foi ali um participante dessa história, dessa maluquice toda que foi essa década, mas um participante ativo, que eu acho que propôs. Eu acho que a gente soube inspirar”, explicou o compositor.
Para além da presença nas ruas, a carga política e a conexão com a cidade também estão evidentes nas composições dos sete discos lançados. Míriam Marinho cita a “Babulina’s Trip” como uma de suas favoritas. De acordo com a advogada, a faixa é “uma música que fala da questão do tarifa zero, da ocupação dos espaços da cidade, da Praia da Estação. É uma música que vem ali com uma carga política muito forte, muito importante”, destacou.
Sobre o fim do Graveola, Miriam Marinho lamenta a “perda”, mas vê a decisão com respeito e cuidado: “terminar é mais bonito do que insistir, porque mostra que a banda se entendeu e ela teve a sua trajetória escrita”, refletiu.
“Claro que a banda permanece, o legado permanece. A gente vai continuar ouvindo e acessando essas memórias e apoiando os integrantes da banda em tudo que eles forem fazer”.
Inovação e persistência
José Luis Braga ainda destacou a contribuição do Graveola para a nova música popular brasileira e a persistência em um cenário de profundas transformações. Segundo o vocalista, em 2010 a banda inovou ao disponibilizar o primeiro disco, “Graveola e o Lixo Polifônico”, para download gratuito. De acordo com ele, essa decisão ajudou a “fazer a música chegar nos lugares e ter capilaridade”.
Sendo assim, o compositor acredita que o Graveola soube inspirar outros projetos, encorajando a mistura de gêneros e o arriscar artístico na cena musical belo-horizontina:
“De certa forma, eu acho que a gente impulsionou um pouco. Encorajamos um movimento com outras bandas também que estavam no circuito, mas que talvez foram bandas que estavam ali naquele momento e que não conseguiram persistir como nós”, refletiu José Luis Braga.
Em mais de 20 anos, a banda se consolidou no mercado musical realizando turnês internacionais na Europa e shows em países como Dinamarca, Portugal, Espanha, França, Itália, Argentina e Estados Unidos. O vocalista ainda lembrou com carinho de quando conseguiram “encher uma praça” de Lisboa, em Portugal.
Show de despedida e novos caminhos
O último show do Graveola faz parte do Festival Novos Encontros. De acordo com o fundador da banda, a apresentação será um “rito de passagem” e contará com participações especiais, incluindo as ex-integrantes Luiza Brina e Juliana Perdigão, além da cantora baiana Coral. A presença de Coral visa também “passar um pouco o bastão” para a nova geração.
“Vai ser muito especial, um rito de passagem mesmo. A gente vai tocar música de todos os discos (…), vai ser histórico. Acho que é um pouco para dar aquele gostinho nostálgico, das pessoas poderem reviver esses momentos, uma oportunidade única”, explicou o compositor.
Após a apresentação de despedida do Graveola, José Luis Braga continuará sua carreira como professor de música e canto. Além disso, ele pretende lançar um novo single solo em 2026 e será o curador da programação de um novo espaço cultural em BH, na Serra, chamado Casa de Bamba. Gerenciado em conjunto com familiares, o espaço terá estúdio de gravação, sala de cinema e outros ambientes culturais. A inauguração está prevista para o primeiro semestre do ano que vem, após o Carnaval.






Então, anota aí!
Graveola no Festival Novos Encontros
- Data: 01/11
- Local: Autêntica | rua Álvares Maciel, 312 – Santa Efigênia, BH
- Horário: 21h
- Entrada: a partir de R$ 60, no Sympla


















