Uma travessia promovida pelos Legendários, movimento cristão que busca a “transformação de homens por meio de experiências”, acessou, indevidamente, o parque estadual da Serra do Ouro Branco, na região central de Minas, em abril, e causou “possíveis infrações ambientais”, segundo autoridades. A apuração é da Folha. Um especialista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) afirma que o grupo pode ser considerado um terrorista ambiental.
A passagem dos Legendários pela unidade de conservação (UC) ocorreu entre 10 e 13 de abril, sem a autorização do Instituto Estadual de Florestas (IEF), órgão federal responsável pela gestão do espaço. Segundo o IEF, os participantes acamparam na Serra mesmo com a atividade proibida pelo plano de manejo do Parque.
“No dia 11 de abril, a equipe da Supervisão Regional da Unidade de Fiscalização e Regularização da Biodiversidade (UFRBio) Sul, do IEF, esteve no local e advertiu aos responsáveis do grupo sobre a irregularidade da ação, que não deveria ser continuada no local”, afirmou o Instituto. Entretanto, as atividades dos Legendários duraram mais dois dias.
Denúncia
À Folha, moradores da região denunciaram os impactos causados pela presença indevida do grupo em comunidades próximas à Serra, que vão de barulho excessivo a lixo descartado incorretamente.
“Quando você coloca, por dinheiro ou não, 400, 300 pessoas em uma montanha, você deve ser questionado. Não importa se é um evento de corrida de montanha ou de escalada. O reflexo disso é você ter uma dificuldade na gestão do impacto dessas pessoas”, apontou.
A reportagem registrou parte dos dejetos deixados pelos Legendários no local. Veja abaixo.

‘Terrorismo ambiental’
De acordo com o IEF, o grupo religioso chegou a comunicar a intenção de realizar atividades no parque estadual da Serra do Ouro Branco dois dias antes antes da jornada. Entretanto, a autorização não foi expedida, já que o pedido não atendeu ao prazo mínimo estipulado para análise do pedido, conforme os protocolos de gestão. A documentação enviada também estaria incompleta, segundo o órgão.
Professor do Departamento de Geografia da UFMG, Bernardo Machado Gontijo afirmou à Folha que o uso público em unidade de conservação de proteção integral, como na Serra do Ouro Branco, é restrito a algumas atividades, como pesquisa, ecoturismo e educação ambiental. “Nenhum deles se encaixa na atividade dos Legendários, que podem ser considerados terroristas ambientais”, complementou.
Diante do descumprimento, o IEF afirmou que uma vistoria foi realizada para apurar possíveis infrações. “O relatório está em fase de finalização e será encaminhado à administração para a adoção das medidas cabíveis, que podem incluir advertências e autuações”, garantiu o Instituto. “A atuação do IEF segue pautada pelo respeito às normas ambientais e pela proteção das Unidades de Conservação em Minas Gerais”, concluiu.
Em nota ao BHAZ, a assessoria de imprensa do Legendários esclarece que o movimento se compromete com responsabilidade social em todas as suas atividades (veja íntegra abaixo).
Nota do Legendários
A assessoria de imprensa do Legendários esclarece que o movimento se compromete com responsabilidade social em todas as suas atividades.
O TOP (Track Outdoor de Potencial) número 972, bem como todos os eventos promovidos, são organizados por equipes que executam respectivas atividades. Portanto, o Legendários protocolou o ofício nº 1370.01.0019302/2024-94 ao Instituto Estadual de Florestas (IEF) em 9 de abril de 2025.
O documento comprova que o movimento informou antecipadamente a passagem pelas áreas do Parque Estadual de Ouro Branco e da região de Itatiaia, localizados em Minas Gerais, reforçando que se tratam de áreas não restritas e fora de zonas de preservação integral.
Na ocasião, os resíduos encontrados ao longo do trajeto foram reunidos em pontos estratégicos por um grupo de Legendários e, em seguida, recolhidos pela equipe de logística, que garante a destinação correta no ponto de descarte da região.
O Legendários está comprometido com a transformação dos homens e com o cumprimento de todas as leis e boas práticas para a correta conservação da natureza, dado que esta é sua principal ferramenta no processo.
O que são os Legendários?
Criado em 2015 na Guatemala, o movimento cristão Legendários promove imersões na natureza com a proposta de oferecer uma “transformação profunda” para homens, famílias e comunidades. Segundo eles, a experiência leva os participantes a encontrarem “a melhor versão de si mesmos e seu novo potencial”.
Presente em 18 países, o grupo chegou ao Brasil em 2017 e já acumula milhares de entusiastas. Cada participante ganha um número para si, enquanto o legendário número um, dizem os organizadores, é Jesus Cristo. Ao longo de 2025, estão previstas pelo menos 325 experiências do coletivo.












