“Entregaram meu filho morto” diz a mãe de Davi Lucca Gonçalves de Araújo, de apenas 1 ano e 10 meses, morto em uma policlínica de São José da Lapa, na Grande BH. A criança aguardou cerca de duas horas por atendimento, mesmo diante do quadro grave, com insuficiência respiratória. Parentes da criança apontam uma série de falhas durante o atendimento e afirmam que houve negligência médica.
A mãe, Kassandra Gonçalves Lopes, conta que levou o filho à policlínica, localizada no bairro Dom Pedro I, na manhã dessa quarta-feira (4), depois que ele começou a apresentar alterações no comportamento e na respiração durante a madrugada. Segundo ela, apesar dos pedidos de ajuda e dos sinais de agravamento, a criança não recebeu atendimento médico imediato.
“Peguei o meu filho e saí correndo, gritando no corredor. Gritei ‘socorro, socorro! Meu filho, meu filho, meu filho!’ E aí, um tanto de médico olhando para a minha cara. Na hora que eu peguei ele e coloquei na cama, aí eu vi que o médico fez três vezes, devagar, tentando reanimar ele”, conta a mãe. Ela também afirma que isso aconteceu depois que um dos médicos da unidade de saúde já tinha feito uma primeira avaliação da criança e afirmado que estava tudo bem.
O caso aconteceu no Centro de Saúde Municipal Dr. Luiz Issa. Depois da morte, familiares que chegaram à unidade questionaram os procedimentos adotados pela equipe médica e impediram que o corpo fosse levado diretamente para uma funerária. A Polícia Militar foi acionada e registrou um boletim de ocorrência.
Kassandra também questiona a demora para que a equipe informasse sobre a morte do menino e afirma que ficou por um longo período sem notícias sobre o estado de saúde do filho.
Mãe relata espera e piora do estado de saúde
Segundo Kassandra, Davi começou a passar mal por volta das 4h da manhã. Inicialmente, a criança apresentava cansaço, mas, diante da persistência dos sintomas, a mãe decidiu procurar atendimento médico. Ela chegou à policlínica por volta das 9h.
A mãe afirma que aguardou aproximadamente uma hora do lado de fora da unidade antes de ser chamada para a triagem. Nesse intervalo, o menino teria começado a apresentar falta de ar e chegou a vomitar. Preocupada, Kassandra procurou o funcionário da portaria e pediu que chamasse um médico.
De acordo com o relato, o funcionário retornou dizendo que o profissional estava atendendo outro paciente e não poderia passar ninguém à frente. A criança só teria sido chamada para a triagem entre 10h e 10h30.
Kassandra conta que, durante o procedimento, o profissional responsável apenas pesou Davi e perguntou o que estava acontecendo. Mesmo depois de informar que o filho estava com dificuldade para respirar, ela diz que recebeu a orientação de aguardar novamente do lado de fora.
“Ele não fez nada. Não olhou o peitinho do meu filho, não examinou ele. A única coisa que fez foi pedir para eu esperar lá fora”, relata.
A mãe afirma que voltou a pedir ajuda enquanto aguardava, mas que a resposta teria sido a mesma. Segundo ela, Davi foi ficando cada vez mais debilitado, até ser chamado para uma consulta médica por volta das 11h30. Já no consultório, Kassandra diz que o menino já estava perdendo o fôlego. Durante a tentativa de avaliação, ele teria vomitado novamente. A mãe conta que pediu ajuda ao médico, insistindo que o filho estava com falta de ar.
Ainda segundo Kassandra, quando o profissional se preparava para examinar o pulmão da criança, ela percebeu que Davi estava com a boca roxa. A criança foi colocada em uma maca e que a equipe iniciou tentativas de reanimação. Na sequência, ela teria sido retirada da sala e ficou sem informações sobre o estado de saúde do menino.
Família questiona demora para comunicar a morte
Kassandra afirma que permaneceu por um longo período sem receber notícias. Segundo ela, profissionais entravam e saíam da sala onde o filho estava, enquanto novas ambulâncias chegavam à unidade.
Em determinado momento, o médico que havia atendido Davi teria se aproximado para tranquilizá-la, dizendo que estava tudo bem. A mãe conta que questionou a informação, pois havia presenciado o agravamento do quadro e as tentativas de reanimação.
Somente por volta de 12h30, segundo o relato, um profissional de enfermagem a chamou para comunicar a morte da criança.
“Eu gritei com você, eu falei com você. Por que você não correu com meu filho para a sala e deu oxigênio para ele? Ele estava precisando respirar. Por que você não fez isso?”, questionou Kassandra ao profissional no momento de desespero, quando recebeu a notícia da morte da criança, conforme contou ao BHAZ.
A tia da criança, Diana Santos, também questiona a conduta da unidade. Ela afirma que, quando chegou à policlínica, o sobrinho já estava dentro de um caixão, preparado para ser levado por uma funerária. A família foi informada de que a morte havia sido registrada como consequência de bronquiolite, mas não concordou com a liberação do corpo sem que as circunstâncias fossem devidamente investigadas.
“Meu sobrinho já estava dentro do caixão para a funerária levar, sem passar pelo IML, sem uma perícia, sem um laudo concreto da morte”, afirmou a tia do menino em entrevista.
Diante da situação, os parentes decidiram acionar a Polícia Militar. Foi necessário questionar os procedimentos adotados e solicitar a intervenção policial. Os policiais, então, determinaram a retirada do corpo do caixão e acionaram os procedimentos para encaminhamento ao Instituto Médico-Legal (IML). Ela também relata que a documentação inicial do óbito precisou ser revista.
“A falta de socorro foi o que matou ele. Não foi a bronquiolite, foi a falta de socorro!”, desabafou Diana.
Irmão gêmeo estava bem no dia da morte de Davi
Outro ponto destacado pela família é que Davi tinha um irmão gêmeo. Segundo Diana, os dois estavam bem quando foram deixados na creche na manhã de terça-feira (3). A tia afirma que profissionais da instituição de ensino confirmaram aos familiares que os irmãos não apresentavam sinais de que estavam passando mal durante o período em que permaneceram na escola.
Davi foi levado à unidade de saúde pela mãe depois de apresentar alterações durante a madrugada. Para Diana, a família procurou atendimento justamente para conseguir ajuda diante da piora do quadro, mas não recebeu o suporte esperado.
Além do irmão gêmeo, o menino também tinha outro irmão, mais velho. A tia conta que a morte abalou profundamente a família, especialmente o irmão que nasceu junto com Davi.

A causa da morte da criança ainda não foi confirmada. Na declaração de óbito da criança, feita pela equipe médica da unidade de pronto atendimento e obtida pelo BHAZ, o médico afirma que a criança teve uma parada cardiorrespiratória, insuficiência respiratória e uma bronquiolite viral aguda.
A Polícia Civil investiga o caso.
A reportagem do BHAZ procurou a Prefeitura de São José da Lapa e aguarda retorno.








