Justiça nega pedido da Globo para manter processo de Carina Pereira em segredo

Carina Pereira
Emissora foi condenada a pagar mais de R$ 1,5 milhão à jornalista (Reprodução/Globo)

A 17ª Vara do Trabalho de Belo Horizonte negou o pedido da Globo para que o processo movido pela jornalista Carina Pereira, ex-apresentadora do Bom Dia Minas e do Globo Esporte, fosse colocado em segredo de justiça. A emissora foi condenada, no dia 11 deste mês, a pagar mais de R$ 1,5 milhão à jornalista (relembre abaixo).

Ao recorrer da decisão e pedir a tramitação em segredo de justiça, a Globo fundamentou o argumento na “necessidade de preservação da intimidade das partes envolvidas e de manutenção de um programa de compliance corporativo eficaz”.

A emissora defendeu que o processo “guarda estrita relação com denúncias envolvendo temas como assédio moral e discriminação de gênero, imputando condutas ilícitas a terceiros que sequer compõem o polo passivo da lide”, e que a “controvérsia” envolve fatos apurados na investigação da área de compliance do Grupo Globo, que “tem como um dos seus pilares a preservação integral do sigilo de todos os seus atos”.

Pedido negado

No entanto, para o advogado que defende Carina Pereira, a empresa não apresentou informações que sustentassem o pedido, perspectiva compartilhada pelo juiz Henrique Alves Vilela.

“A bem da verdade, pelo que se observa no processo, […] não há nada que justifique a necessidade de tramitação do feito em segredo de justiça, motivo pelo qual rejeita-se o requerimento”, determinou o magistrado.

O juiz ainda escreveu na sentença que o pedido da Globo demonstra “apenas o inconformismo com a decisão” inicial.

Ao BHAZ, o advogado André Froes, que defende Carina no processo, afirma que o pedido da Globo para colocar o processo em segredo de justiça é uma “tentativa de esconder as verdades” e “jogar para baixo do tapete as perseguições e atitudes dos superiores da empresa”.

Procurada pelo BHAZ, a emissora informou que não comenta casos sub judice.

Indenização

A Justiça do Trabalho condenou a Globo, no dia 11 de junho, a pagar mais de R$ 1,5 milhão à jornalista Carina Pereira. Ela deixou a emissora em janeiro do ano passado, e a condenação abarca demandas sobre verbas trabalhistas e suposta discriminação de gênero. No processo, a defesa da Globo alegou que a emissora apurou internamente as reclamações de Carina e concluiu que “não havia prática de assédio moral”.

Segundo entendimento do juiz Marcelo Luiz Campos Rodrigues, a jornalista sofria sexismo na emissora.”Em razão de todo o exposto, entendo demonstrado que a reclamante foi vítima de comportamento discriminatório em razão do gênero, praticado pelo respectivo superior hierárquico, devendo a Reclamada [Globo] responder pelos danos decorrentes da conduta deste empregado”, diz um trecho do documento.

Carina foi demitida da Globo em janeiro de 2021, após passar sete anos trabalhando na emissora. Na época, ela usou as redes sociais para desabafar sobre episódios de assédio moral que teria sofrido na empresa, principalmente por parte de um dos chefes.

Em conversa com o BHAZ após a decisão, a jornalista comemorou a vitória na Justiça. “A maioria dos processos que as mulheres tentam enfrentar, elas geralmente perdem, principalmente contra grupos muito grandes. Então essa vitória não é só minha. Espero que seja definitiva e que, atrás de mim, possam vir outras mulheres, porque calada a gente não vence”, disse.

Edição: Roberth Costa
Sofia Leãosofia.leao@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde 2019 e graduada em jornalismo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Participou de reportagens premiadas pelo Prêmio Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados, pela CDL/BH e pelo Prêmio Sebrae de Jornalismo em 2021.

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