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Operação Lívia: polícia desarticula rede que induzia adolescentes ao suicídio e à violência extrema

04/08/2026 às 17h40
operação lívia

O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) apresentou nesta terça-feira (4) os resultados da Operação Lívia, deflagrada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul com apoio técnico do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp/MJSP). A ação mirou uma organização criminosa que atraía crianças e adolescentes para comunidades virtuais, submetia as vítimas a coerção psicológica e as incentivava a praticar violência extrema contra animais, principalmente gatos, desafios de automutilação e, em casos extremos, o suicídio.

A apuração começou depois que uma adolescente de 13 anos, identificada como Lívia, transmitiu ao vivo o próprio suicídio no dia 22 de julho. A live, feita em um grupo da rede social Discord, durou cerca de 45 minutos. Antes de ser induzida a tirar a própria vida na casa onde morava com a família, em Naviraí (MS), a 365 km de Campo Grande, a menina foi coagida pelos criminosos a torturar e matar um gato, o que não chegou a se concretizar.

Além da ação em Mato Grosso do Sul, a Polícia Civil cumpriu, ao todo, oito mandados de busca e apreensão em outros quatro estados: Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro, com a colaboração das respectivas polícias civis.

Dois dos alvos da operação estavam em Minas Gerais, o segundo maior número de mandados entre os estados que não o Mato Grosso do Sul, atrás apenas do Rio de Janeiro, onde foi apreendido o adolescente apontado como líder do grupo.

O MJSP informou que a apuração contou ainda com a participação das polícias civis do Distrito Federal, Pernambuco e Paraná, além do apoio de Ministérios Públicos estaduais, num esforço descrito pelo ministro Wellington César Lima e Silva como “um único sistema de proteção da sociedade” reunindo União e estados. Segundo as autoridades, o material apreendido nos endereços mineiros, como em todos os demais estados, será periciado para identificar outros integrantes da rede e novas vítimas.

As autoridades confirmaram que, entre os presos na operação, estão cinco adolescentes, de 12 a 17 anos, e um homem de 18 anos, que atuavam simultaneamente também pelo aplicativo de mensagens Telegram. O suspeito de chefiar o grupo é um adolescente de 14 anos, apreendido no Rio de Janeiro. Outro investigado é um estudante seminarista de um mosteiro de Pernambuco. De acordo com o delegado da Polícia Civil do Piauí e representante do Ciberlab, Alessandro Barreto, os integrantes do grupo chegaram a abrir uma chave Pix em nome da vítima de Naviraí, sem o conhecimento da mãe dela. “Os próprios criminosos criaram chave Pix para a menina, mandavam dinheiro para comprar gillette, para se automutilar e tudo”, disse o delegado. Barreto classificou o funcionamento do grupo como uma forma de “escravidão digital”, em que as vítimas eram submetidas a uma rotina deameaças e manipulação psicológica e induzidas a cumprir desafios violentos
transmitidos ao vivo, tratados pelos participantes como uma espécie de competição.

Em coletiva de imprensa em Brasília, o ministro da Justiça e Segurança Pública reforçou que o combate a crimes cibernéticos contra crianças e adolescentes exige prevenção e vigilância ativa de pais e de toda a sociedade. “Redobrem a atenção no cuidado com os seus filhos, com as crianças, com os adolescentes, no contato com esses conteúdos, em função dos graves eventos que foram reportados aqui”, disse Wellington César Lima e Silva.

O secretário Nacional de Direitos Digitais do MJSP, Victor Fernandes, apontou descumprimento da legislação por parte de Discord e Telegram em relação ao Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), ao Marco Civil da Internet, atualizado pelo Decreto 2.975/2026, e ao Decreto de Proteção de Mulheres no Ambiente Digital (nº 12.976/2026). Entre as infrações citadas, o Discord não interrompeu o sinal da transmissão ao vivo, não removeu o conteúdo imediatamente e não notificou o ocorrido às autoridades competentes.

“Pelo ECA Digital, o Discord teria a obrigação de derrubar esses conteúdos e comunicar imediatamente às autoridades policiais, para que as autoridades policiais pudessem agir antes que esses resultados acontecessem. E isso não foi feito”, disse Victor Fernandes. O secretário destacou ainda indícios de falhas na verificação de idade dos usuários, exigida pelo ECA Digital. “Todas essas cenas de automutilação, de induzimento, e, no final, nesse caso mais chocante, de suicídio de uma jovem de 13 anos, aconteceram em grupos em transmissões ao vivo no Discord, feitas totalmente por crianças e adolescentes. Todos conseguiam acessar a plataforma sem fazer nenhum tipo de verificação de idade para acessar esses ambientes em que essas transmissões aconteciam”, afirmou.

Fernandes adiantou que a pasta enviará um pedido de investigação contra Discord e Telegram pela morte da adolescente à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), responsável por aplicar o ECA Digital no país.

O delegado Alessandro Barreto revelou que a atuação policial identificou outra vítima do grupo em uma unidade da federação e conseguiu impedir que ela tirasse a própria vida em uma transmissão que já estava agendada. “Estamos vendo os nomes de outras possíveis vítimas para mandar avisar aos pais e responsáveis para que fiquem atentos”, revelou. Segundo o MJSP, todo o material recolhido na operação, incluindo o apreendido em Minas Gerais, será analisado para identificar a possibilidade de outros envolvidos e esclarecer as circunstâncias da atuação online da organização criminosa.

Pessoas em sofrimento intenso podem procurar apoio em unidades básicas de saúde, Caps, serviços de urgência e no Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, disponível 24 horas.

Redação BHAZ

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