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Prefeitura de cidade mineira pede suspensão de ‘O Menino Marrom’, de Ziraldo, nas escolas

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o menino marrom
A prefeitura de Conselheiro Lafaiete orientou que as escolas não utilizem o livro "O Menino Marrom", do escritor Ziraldo, em sala de aula (Reprodução/redes sociais)

A Secretaria Municipal de Educação de Conselheiro Lafaiete, cidade do Alto Paraopeba, orientou nessa terça-feira (18) que as escolas não utilizem o livro “O Menino Marrom”, do escritor Ziraldo, para atividades em sala de aula.

O livro foi lançado em 1986 pelo escritor mineiro e logo se tornou um clássico nas escolas infantis brasileiras. A obra fala sobre a amizade do protagonista, que dá nome ao livro, com o menino cor-de-rosa.

Em nota de orientação enviada às unidades escolares, a Secretaria diz que a decisão foi tomada “diante de diversas manifestações”. Em um áudio que circula nas redes sociais, um pai diz que a capa do livro “remete para assuntos de racismo”, mas que esse não seria o conteúdo do livro.

“Esse livro tem um conteúdo agressivo no sentido de que ele induz a criança a cortar os próprios pulsos. E não só isso, tem uma página que fala que quer que a velhinha morra atropelada”, diz o homem na mensagem.

No trecho citado por ele, Ziraldo descreve a cena em que o menino marrom e o menino cor-de-rosa resolvem selar a amizade deles fazendo um “pacto de sangue”, mas acabam usando tinta azul ao invés de furar os dedos. “Estávamos fazendo um pacto de sangue azul, amigos para sempre, Milord!”, diz um trecho do livro.

Secretaria orientou a suspensão do uso do livro nas escolas.

‘Livro de extrema importância’

Em outro áudio, obtido pelo BHAZ, uma mãe se revoltou com a proibição do livro nas escolas municipais de Conselheiro Lafaiete. “Recebi com grande perplexidade a decisão de que a Semed cancelou a realização de trabalhos voltados a interpretação desse livro”, pontua.

“É um livro de extrema importância nos nossos dias, pois trata de questões raciais, de amizade, do processo de crescimento, além da riquíssima aquisição de vocabulário”, acrescentou a mãe.

A opinião dela também é compartilhada pelo professor de Língua Portuguesa Filipe Emanuel, natural do município. Na visão dele, a obra trata de assuntos importantes para o desenvolvimento cidadão e humano das crianças.

“Eu acho que o livro é importante porque debate pautas antirracistas e discute sobre a condição da criança negra e, inclusive, trata de questões sobre o cuidado com o outro, o diálogo, e tudo isso de uma forma muito didática”, diz ele ao BHAZ.

Ainda de acordo com o professor, os trechos que foram alvo de críticas podem ter sido tirados de contexto, o que contribuiu com a falha de interpretação.

“Isso é muito irrelevante considerando o contexto que o livro fala. Até mesmo esse trecho discute sobre amizade e a lealdade e nada tem a ver com questões de automutilação. Esse livro, que pode ser trabalhado, inclusive, com a família dessas crianças. Então é muito contraditória a decisão da secretaria de suspender um livro que ela mesma recomenda”, continuou ele.

Ziraldo deixou legado na literatura brasileira

O escritor e desenhista Ziraldo morreu aos 91 anos em abril deste ano, no Rio de Janeiro. Criador de personagens famosos, como “O Menino Maluquinho”, o artista era mineiro de Caratinga, na região do Vale do Rio Doce.

Em 1960, ele lançou a Turma do Pererê, cancelada pela ditadura em 1964. Em 1980 lançou o livro “O Menino Maluquinho”, o maior sucesso de sua carreira, adaptado para a televisão e no cinema. 

Com mais de 200 livros publicados, Ziraldo teve vários outros best-sellers. Uma Professora Muito Maluquinha, Menina Nina, O Bichinho da Maçã, O Planeta Lilás, e Flicts estão entre os sucessos do artista.

O que diz a prefeitura?

Em nota enviada ao BHAZ, a Prefeitura de Conselheiro Lafaiete reconhece que o livro é “uma das principais obras infantis a abordar os temas sociais” e que ele “aborda de forma sensível e poética temas como diversidade racial, preconceito e amizade”.

A prefeitura lamenta que “tenham havido interpretações dúbias acerca do mesmo e levando em conta nosso respeito aos pais e a comunidade escolar” e diz que, diante das diversas manifestações e divergência de opiniões, “procedeu a solicitação de suspensão temporária dos trabalhos realizados sobre o livro a fim de melhor readequação da abordagem pedagógica evitando assim interpretações equivocadas” (leia a nota na íntegra abaixo).

Nota da prefeitura na íntegra

O “Menino Marrom” é um livro infantil escrito por Ziraldo, conhecido autor brasileiro e publicado em 1986. Uma das principais obras infantis a abordar os temas sociais, aborda de forma sensível e poética temas como diversidade racial, preconceito e amizade. A história é centrada em dois personagens principais: o Menino Marrom e o Menino Branco, que, apesar de suas diferenças, desenvolvem uma amizade genuína e se divertem juntos.

O livro é um recurso valioso na educação, pois promove discussões importantes sobre respeito às diferenças e igualdade. Utilizando uma linguagem simples e ilustrações atraentes, Ziraldo consegue envolver as crianças e facilitar a compreensão de conceitos complexos como racismo e empatia.

Ao abordar esses temas desde cedo, “Menino Marrom” ajuda a construir uma base sólida para o desenvolvimento de atitudes positivas e inclusivas nas novas gerações.

Lamentamos que tenham havido interpretações dúbias acerca do mesmo e levando em conta nosso respeito aos pais e a comunidade escolar, a Secretaria Municipal de Educação de Conselheiro Lafaiete, diante das diversas manifestações e, divergência de opiniões, procedeu a solicitação de suspensão temporária dos trabalhos realizados sobre o livro “O MENINO MARROM”, do autor Ziraldo, a fim de melhor readequação da abordagem pedagógica evitando assim interpretações equivocadas.

A Secretaria, em sua função de gestão e articulação entre escola e comunidade compreende ser necessário momento de diálogo junto aos responsáveis para que não sejam estabelecidos pensamentos precipitados e depreciativos em relação às temáticas abordadas.

A Secretaria reitera a qualidade das obras literárias contempladas em acervo bibliográfico de dimensão nacional, salienta que todo o planejamento pedagógico perpassa pelos documentos norteadores que regem a educação nacional e se baseia no desenvolvimento integral dos estudantes, prezando pela autonomia; entretanto, cabendo ao momento melhor análise e reflexão sobre o uso institucional da obra em questão.

Larissa Reis

Graduada em jornalismo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e repórter do BHAZ desde 2021. Vencedora do 13° Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, idealizado pelo Instituto Vladimir Herzog. Também participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.

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