Jovem e criança são constrangidas ao tirar fotos 3×4 e denúncia de racismo revolta

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UAI Divinópolis não aceitou a foto da jovem e da criança, e fotógrafo fez elas molharem o cabelo (Reprodução/Agência Brasil + Reprodução/Redes Sociais/@sarapollicarpo)

No dia 20 de Novembro é celebrado, no Brasil, o Dia da Consciência Negra, que faz referência à morte de Zumbi dos Palmares. A data também é marcada pela conscientização sobre a luta que a comunidade preta enfrenta desde o Brasil colônia.

Entretanto, episódios de racismo marcaram o 20 de novembro deste ano. A operadora de linha Sara Pollicarpo e uma menina de 5 anos estiveram em situações de constrangimento. Elas foram orientadas a adequar seus cabelos ao “padrão” para tirar uma foto 3×4, em Divinópolis.

A moça, de 25 anos, mora em Itaúna, região metropolitana de Belo Horizonte, e teve que ir até o UAI (Unidade de Atendimento Integrado) de Divinópolis para tirar uma identidade. Na última sexta-feira (20), Sara Pollicarpo levou uma foto 3×4 que já possuía para ser usada na elaboração do documento. Porém, a funcionária da unidade disse que a imagem estava fora do enquadramento, e que Sara teria que tirar outra.

Foto levada por Sara para tirar RG (Arquivo pessoal)

“O lugar mais próximo era o que estava em frente. Fui no fotógrafo e chegando lá vi uma mãe reclamando de ter que arrumar o cabelo da filha para tirar foto”, contou Sara ao BHAZ. Essa mulher é Sueli Elena, mãe de uma menina de cinco anos que também tinha sido orientada pelo UAI a tirar uma nova foto. Segundo relatado ao BHAZ, Sueli disse que a unidade não havia aceitado a foto por estar cortando o cabelo da menina.

Sueli, de 29 anos, levava a filha para tirar identidade. Antes, passou no mesmo estúdio de fotografia que Sara, e lá o fotógrafo capturou a imagem da menina, que tem o cabelo black e o usava solto. “Ele tirou um pedaço no cabelo dela, aí a foto não foi aceita [no UAI]. Aí eu voltei no fotógrafo e fiz uma segunda foto, aonde ela ‘tava’ com um coque, porque eu fiz um coque no cabelo dela”, contou.

Foto ‘não estava no padrão’

Sueli relata que o fotógrafo não chegou a revelar a foto em que a filha usava o coque, porque, segundo ele, a foto “não estava no padrão e também não passava”. Então, o profissional pediu para que Sueli fosse ao banheiro com a filha para molhar o cabelo dela e “abaixá-lo”. “Assim eu fiz, levei ela no banheiro, molhei, passei escova e abaixou o cabelo dela”, diz a mãe.

Já na terceira tentativa, o fotógrafo disse para a mãe da menina que talvez a foto com o cabelo molhado não passaria no UAI. De acordo com ela, ele pediu para que elas não voltassem, caso a foto não fosse aceita. “Porque ele não ia repetir a foto pois estava perdendo o tempo dele, e para eu não perder dinheiro também”, lembrou Sueli.

No mesmo momento, Sara Pollicarpo estava no estúdio, para tirar uma foto 3×4 de si, e da filha de três anos. A situação não foi diferente com Sara pois, segundo ela, o fotógrafo se recusou a fotografá-la por causa do penteado que usava, o “afro puff”. “Ele falou ‘se você quiser pode ir no banheiro arrumar seu cabelo porque se não eles [UAI] não vão aceitar sua foto, e você vai ter que voltar”, relatou Sara.

Sara conta que foi ao banheiro e arrumou o cabelo de um jeito que não ficasse tão aparente, desmanchando o penteado. Na primeira tentativa de fotografar, o homem disse a ela que não teria jeito, e que iria ter que cortar o cabelo no Photoshop. “Ele editou minha foto e tirou todo o meu cabelo”. A filha de Sara Pollicarpo, que possui cabelo cacheado com pouco volume, fez a foto normalmente.

Normas para fotos em MG

A Polícia Civil informa que existe uma portaria que estabelece padrões mínimos para as fotos de documentos em Minas Gerais. Segundo a polícia, “ambas fotografias estavam em desacordo com as recomendações da portaria”. O UAI Divinópolis afirmou que o cabelo ou o penteado não interferem na confecção do documento. As recomendações técnicas que as fotos para documentação devem seguir estão listadas aqui e ao fim da matéria (veja abaixo).

De acordo com a Polícia Civil, “a denúncia sobre a suposta conduta irregular do fotógrafo, que atua em um comércio, sem qualquer vínculo com a instituição, será investigada pela Delegacia Regional em Divinópolis”. A Polícia Civil reforçou que não está em concordância com qualquer conduta de racismo.

‘É o meu cabelo, a minha identidade’

Ao ser perguntada sobre como se sentiu no momento, Sara conta que foi muito ruim. “Porque é o meu cabelo (…) essa é a minha identidade, se você me encontrar na rua você vai me ver assim”, disse.

Sueli contou que se sentiu muito humilhada por estar vendo a filha de apenas cinco anos passar por uma situação de racismo. “Eu nunca ouvi falar de ter um padrão para tirar uma foto, e a gente passou por um racismo”. Ela acrescentou: “A minha filha me perguntou por que é que estava prendendo o cabelo dela, por que é que estava molhando, sendo que ela estava com o cabelo bonito do jeito que ela gostava que ficasse”.

A situação foi de grande constrangimento tanto para Sara Pollicarpo, quanto para Sueli Helena e a filha de cinco anos. “Eu não vou aceitar porque foi um racismo que a gente sofreu, a minha filha me pergunta por que é que ela teve que molhar o cabelo dela para poder tirar foto”, disse Sueli. Segundo a mulher, a menina passou o final de semana com aquilo na cabeça e comentando com os familiares.

Repercussão nas redes sociais

Sara Pollicarpo postou um relato sobre a situação. Na legenda, a operadora de linha escreveu o seguinte: “Chorei tanto mas tanto de ver uma criança passar por isso e ver no pc que todas as mulheres negras estavam com cabelo escondido e as pessoas com cabelo liso todos soltos”.

A postagem acabou gerando repercussão e, com isso, Sueli Helena encontrou Sara Pollicarpo, e as duas se uniram para denunciar nas redes as injúrias sofridas. Confira uma das postagens feitas por Sara, em que a mãe da menina de cinco anos relata com detalhes o que ocorreu:

Essa é a mãe da Manu que passou pelo contragimento, junto comigo no mesmo dia e momento, de ter que mexer no nosso…

Publicado por Sara Policarpo em Domingo, 22 de novembro de 2020

Sobre a repercussão do caso, Sara Pollicarpo diz que não imaginava que tomaria tais proporções, mas que está feliz com o apoio que vem recebendo. “Eu simplesmente postei lá no Instagram mas eu achei que só meus amigos iriam ver, nunca imaginei que iria dar essa repercussão toda e que eu iria conseguir apoio de tantas pessoas pretas. Estou chocada e feliz por ter sido ouvida e compreendida”.

Veja as normas para fotos na íntegra

I – Formato 3×4 cm;
II – Ser recente (registrada há 6 meses, no máximo) e identificar a pessoa do requerente;
III – Ser colorida, tirada de frente, contra fundo branco e com iluminação uniforme;
IV – O rosto e os ombros da pessoa fotografada devem estar completamente enquadrados e centralizados. Os olhos devem estar abertos, visíveis e direcionados para a câmara, sendo vedada a utilização de fotografia posada de perfil;
V – O rosto da pessoa fotografada deve cobrir entre 70% a 80% da foto, desde o queixo até a testa;
VI – A fotografia deve ser realizada em alta definição e sua impressão feita em alta qualidade;
VII – Não pode haver reflexos (inclusive “olhos vermelhos”), penumbras ou sombras em nenhuma parte da fotografia;
VIII – O requerente deve apresentar fisionomia neutra ou com um sorriso discreto, mas, em ambos os casos, deve manter os lábios fechados e sem franzir o rosto;
IX – O uso de óculos é permitido, somente, quando a não utilização cause algum constrangimento. No caso da pessoa utilizar óculos na fotografia, os seus olhos devem estar totalmente visíveis, ou seja, a armação não pode ser grande, grossa ou chamativa e, principalmente, não pode cobrir os olhos, mesmo que parcialmente. Não pode haver nenhum reflexo de flash nas lentes que, também, não podem ser escuras ou coloridas, mesmo que possuam grau (exceto para deficientes visuais que se sintam constrangidos em não utilizar o acessório na foto);
X – A foto deve mostrar a pessoa sozinha, sem nenhum objeto nem pessoas ao fundo. Quando se tratar de criança, essa deve estar sem chupeta e/ou brinquedos e, principalmente, não deve aparecer na foto, as mãos ou qualquer parte do corpo da pessoa que a estiver segurando;
XI – Não é permitida maquiagem carregada e quaisquer itens de chapelaria ou cobertura na cabeça, em ambos os casos, exceto se utilizados por motivos religiosos que, ainda assim, não podem impedir a visualização perfeita do rosto do requerente, nem ofender as leis nacionais, a moral e aos bons costumes;
XII – É permitido o uso de brincos, colares e outros adornos na fotografia, desde que não fiquem em destaque na fotografia ou impeçam a visualização perfeita do rosto do requerente, nem ofenda as leis nacionais, a moral e aos bons costumes.

Edição: Roberth Costa
Andreza Mirandaandreza.miranda@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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