Após o caso de uma família intoxicada ao consumir a chamada “falsa couve”, o alerta sobre o risco de confusão entre plantas voltou a preocupar especialistas. Em entrevista ao BHAZ, a bióloga, mestre em botânica e professora da UniBH, Fernanda Raggi Grossi, explicou como diferenciar a verdadeira couve da espécie tóxica — e o que torna essa planta tão perigosa.
A “falsa couve” é, na verdade, a Nicotiana glauca, uma planta da família das Solanáceas, a mesma do tomate, da batata e do tabaco. Apesar da aparência semelhante à couve tradicional, a Nicotiana glauca é altamente venenosa, pois contém anabasina e nicotina, dois alcaloides potentes que atuam diretamente no sistema nervoso.
“A anabasina é uma substância muito mais tóxica que a nicotina — cerca de cinco vezes mais potente. A ingestão pode causar vômitos, mal-estar, paralisia dos músculos e até parada respiratória”, explica Fernanda.
5 formas de diferenciar a falsa couve da verdadeira
Segundo a bióloga, a Nicotiana glauca possui:
- folhas menores
- mais grossas
- ásperas
- cor acinzentada ou azulada
- aspecto opaco
A planta tem um tronco lenhoso, e suas folhas se prendem a esse caule, o que já é um sinal de alerta. Além disso, apresenta flores pequenas agrupadas em cachos — algo incomum na couve que consumimos.
Já a couve verdadeira (Brassica oleracea), da família das Brassicáceas, é uma planta herbácea, que nasce diretamente do solo, sem tronco. Suas folhas são grandes, lisas, brilhantes, de cor verde intensa, com nervuras bem marcadas e textura cerosa.
“A couve que comemos é rica em compostos bioativos, antioxidantes e anticancerígenos, e não apresenta qualquer risco de toxicidade”, reforça Fernanda.
Por que a falsa couve é perigosa
Além de causar graves intoxicações em humanos, a Nicotiana glauca também pode ser tóxica para alguns animais, embora ruminantes, como vacas e bois, sejam mais resistentes devido ao processo de digestão em várias etapas. Por conter substâncias amargas e tóxicas, ela costuma aparecer em beiras de estradas e pastagens, sendo usada, inclusive, como forma de afastar animais de plantações.
Fernanda explica que a toxicidade da planta é, na verdade, um mecanismo natural de defesa. “Espécies do gênero Nicotiana, incluindo a Nicotiana glauca, têm um histórico de uso como pesticidas e inseticidas naturais, justamente por causa da alta concentração de alcaloides como a anabasina”, afirma.
Esses compostos atuam como neurotoxinas potentes contra insetos, conferindo um sabor amargo e tóxico que repele ou inibe a alimentação de herbívoros e pragas.
“Embora essa toxicidade seja uma forma de proteção da planta, ela representa um risco real para animais domésticos ou silvestres que a ingiram. É uma espécie conhecida por causar efeitos graves em gado e humanos, ainda que os ruminantes apresentem resistência maior”, completa a professora.
Fernanda alerta que a confusão é comum, especialmente quando a planta ainda está jovem. “A aparência pode enganar, mas é importante observar o caule e a textura das folhas. Quando há dúvida, o ideal é não consumir e procurar orientação técnica”, conclui.
Entenda o caso de Patrocínio
Um almoço em família na cidade de Patrocínio, no Alto Paranaíba, terminou em emergência médica nessa quarta-feira (8) depois que quatro pessoas ingeriram a planta Nicotiana glauca, conhecida como “falsa couve”.
As vítimas – três homens, de 67, 67 e 60 anos, e uma mulher de 37 – começaram a passar mal logo após a refeição, apresentando sintomas como dormência nas pernas, falta de força e dificuldade para respirar. Segundo o Corpo de Bombeiros, os familiares haviam se mudado recentemente para a chácara e confundiram a planta tóxica com couve, preparando-a para o almoço.
Durante o socorro, a mulher chegou a sofrer uma parada cardiorrespiratória, mas foi reanimada e levada ao Pronto-Socorro Municipal. O Samu também prestou atendimento e encaminhou as demais vítimas para o hospital. De acordo com o sargento Pedro Nogueira, que participou da ocorrência, três pessoas permanecem intubadas em estado grave.
A Secretaria de Saúde de Patrocínio informou que equipes da Vigilância Sanitária e Epidemiológica realizam vistorias e coletas de amostras no local para investigar o caso.










