Você já colocou uma música para tentar melhorar o humor? Ou escolheu justamente aquela canção que parecia traduzir a tristeza que estava sentindo? Talvez tenha uma playlist para os dias de animação, outra para atravessar uma decepção amorosa e uma música especial que, mesmo depois de muitos anos, seja capaz de transportar você para uma lembrança.
A música tem essa capacidade curiosa de nos acompanhar por diferentes momentos da vida. Às vezes, parece dar voz ao que não conseguimos dizer. Em outras, ajuda a mudar o ritmo de um dia difícil, desperta lembranças, provoca saudade ou nos convida a dançar quando tudo o que queríamos era ficar quietos.
Mas como isso acontece? E o que a música tem a ver com a nossa saúde mental?
A experiência musical envolve muito mais do que ouvir sons. Ela mobiliza emoções, memórias, sensações corporais e experiências que construímos ao longo da vida. Uma melodia pode nos lembrar de alguém, de um lugar ou de uma fase que já passou. Uma batida pode despertar vontade de movimentar o corpo. Uma letra pode organizar sentimentos que pareciam confusos e nos ajudar a reconhecer aquilo que estamos vivendo.
A música também pode influenciar nosso humor. Uma canção mais animada pode favorecer a disposição, enquanto uma melodia tranquila pode ajudar algumas pessoas a desacelerar. Mas essa relação não funciona da mesma maneira para todo mundo. A música que traz conforto para alguém pode despertar tristeza em outra pessoa. Tudo depende das experiências, das preferências e do significado que cada um atribui àquilo que escuta.
Por isso, não existe uma música universalmente capaz de melhorar o humor. E nem sempre precisamos escolher uma canção alegre quando estamos tristes. Às vezes, ouvir uma música que acompanha o nosso estado emocional é uma forma de reconhecer o que sentimos, em vez de tentar afastar a emoção a qualquer custo.
Isso não significa que a música, sozinha, resolva problemas emocionais ou substitua o cuidado profissional. Significa reconhecer que ela pode ser um recurso cotidiano de expressão, conexão e acolhimento.
A relação entre música e saúde também tem espaço nas políticas públicas. Em 2017, o Ministério da Saúde incluiu a musicoterapia na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) do Sistema Único de Saúde (SUS). Sua oferta, entretanto, depende da organização dos serviços e das iniciativas de cada território, não estando disponível de maneira uniforme em todos os municípios.
No campo da saúde mental, pesquisas têm investigado o uso da musicoterapia como recurso complementar no cuidado de pessoas com diferentes necessidades. Uma revisão sistemática publicada em 2022 na revista Acta Paulista de Enfermagem, por exemplo, analisou oito estudos sobre musicoterapia em adultos com transtornos mentais. Os resultados apontaram possíveis efeitos positivos sobre sintomas de ansiedade e depressão, embora os próprios autores ressaltem limitações metodológicas e a necessidade de mais pesquisas.
Esses achados são promissores, mas precisam ser compreendidos com cuidado. A musicoterapia não é uma solução única para todas as pessoas e não substitui automaticamente outras formas de tratamento. Seus objetivos e benefícios dependem das necessidades de cada pessoa, da intervenção realizada e do contexto em que o cuidado acontece.
Ainda assim, talvez a contribuição da música para a saúde mental não deva ser medida apenas pela redução de sintomas. A arte também nos oferece possibilidades de experimentar o mundo, entrar em contato com nossas emoções e encontrar sentidos que nem sempre conseguimos explicar.
Uma canção pode nos aproximar de uma lembrança querida. Outra pode nos apresentar a uma realidade muito diferente da nossa. Uma voz, um instrumento ou um ritmo de outra cultura podem ampliar nossa percepção sobre a diversidade das experiências humanas. A música pode nos fazer chorar, rir, dançar, recordar e até enxergar beleza em algo que antes passava despercebido.
Nesse sentido, a arte não precisa ter a obrigação de nos fazer sentir melhor o tempo todo. Ela pode nos oferecer companhia quando estamos tristes, provocar perguntas quando estamos acomodados e nos convidar a olhar a vida por outras perspectivas. Às vezes, o acalento não está em encontrar uma resposta, mas em perceber que aquilo que sentimos também pode encontrar expressão.
Em uma rotina marcada pela pressa, pelas cobranças e pela sensação de que precisamos estar sempre produzindo, reservar alguns minutos para ouvir uma música com atenção pode ser uma forma simples de nos reconectarmos com o presente. Não como mais uma tarefa de autocuidado a cumprir, mas como uma oportunidade de experimentar algo que nos toca.
Talvez valha a pena perguntar: que músicas acompanham a sua história? Quais fazem você lembrar de quem foi, reconhecer quem é ou imaginar quem ainda pode se tornar? E quando foi a última vez que você ouviu uma canção sem fazer outra coisa ao mesmo tempo, apenas para perceber o que ela despertava em você?
A música não elimina as dificuldades da vida, mas pode mudar a maneira como nos relacionamos com algumas delas. Pode nos ajudar a nomear emoções, compartilhar experiências e descobrir beleza em lugares inesperados.
Afinal, cuidar da saúde mental também envolve criar espaço para aquilo que nos sensibiliza, amplia nossos horizontes e nos lembra da riqueza de estar vivos. E, às vezes, tudo começa quando uma música toca e alguma coisa dentro de nós responde.
Com afeto,
Letícia Faleiro | CRP-MG 04/33265
Professora e Psicóloga Clínica















