A riqueza de detalhes dos produtos artesanais cuidadosamente colocados em nichos de madeira chama a atenção de quem entra na Furdunço, uma loja colaborativa que existe há 4 anos no Mercado Novo, no centro de Belo Horizonte. O espaço funciona com a união de 56 marcas, das quais 45 pertencem a mulheres empreendedoras que criam acessórios femininos, peças de crochê, camisaria, jogos de prato, xícaras e itens temáticos. Esse é apenas um dos milhares de negócios inseridos no modelo de economia colaborativa que vem crescendo no Brasil. Compartilhado entre elas, tornou-se um exemplo de sucesso na capital mineira. Nesta reportagem especial, o BHAZ conta histórias de quem apostou na união feminina como caminho para empreender e encontrou uma forma de ampliar oportunidades e enfrentar desafios.
Na Furdunço, a curadoria e a administração do espaço são feitas pela ceramista Amanda Vieira Lourenço, de 32 anos. Engenheira de produção por formação, a artesã encontrou na arte uma válvula de escape para o burnout – síndrome causada pelo estresse no trabalho, que provoca sintomas mentais e físicos. A prática com argila dava origem a peças únicas de cerâmica, o que despertou nela um espírito empreendedor. Amanda logo percebeu que era possível transformar a atividade, até então um hobby, em um negócio promissor. O desafio era conseguir bancar a ideia: os custos para manter uma loja com portas abertas eram altos demais. Aluguel, condomínio, gastos com água, energia, funcionários… a solução surgiu da percepção de que outros artesãos enfrentavam o mesmo problema.
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“A gente começou a enxergar essa dor em outras pessoas, que é essa dor do artesão que precisa de um espaço físico, que precisa de tempo pra vender, tempo pra fazer marketing, tempo pra produzir, muitas vezes tem um segundo emprego, porque a arte, por si só, principalmente no início, é difícil de sustentar”, lembra Amanda. Ao lançar uma consulta com colegas do setor criativo, ela teve uma resposta: vários estavam dispostos a fazer parte da empreitada. A Furdunço estava prestes a inaugurar.
O modelo colaborativo foi essencial para que a Furdunço pudesse existir. Enquanto Amanda paga as contas do espaço, os outros artesãos contribuem em uma espécie de rateio dos custos. A artesã Rafaella Borges também faz parte da rede de apoio. Ela produz brincos, anéis e colares femininos, além de uma linha de camisas autorais unissex, e diz que a colaboração é essencial. Pouco engajada nas redes sociais, onde geralmente muitos pequenos empreendedores conseguem mostrar os seus produtos, ela conta que, nesse modelo, a loja física já é suficiente e funciona como uma vitrine, tornando-se a principal forma de escoar a produção. “Se eu estivesse em mais duas ou três lojas assim, pra mim, estava ótimo!”, analisa. (veja mais em vídeo abaixo)
Negócios colaborativos exaltam economia criativa
Negócios colaborativos estão, quase sempre, inseridos num contexto de economia criativa. O setor prioriza produtos e experiências únicos em vez de produções em massa. A criatividade é um ingrediente essencial para quem se propõe a investir na área que, embora tenha forte influência cultural, tem crescido com o uso de tecnologia e inovações. Dados do Sebrae Minas mostram que o setor já representa cerca de 3% do PIB do Brasil e emprega mais de 2 milhões de pessoas.
O analista do Sebrae Minas, Victor Mota, especialista em varejo, define a economia criativa como a arte de criar valor a partir do intangível, ao transformar o capital intelectual em renda. No caso do modelo colaborativo, boa parte do que as lojas oferecem vem de criações autorais e manuais que integram o setor criativo e, ao mesmo tempo, pertencem a pequenos negócios.
O relatório mais recente do Sebrae, divulgado em maio deste ano, mostra que os setores de comércio e serviços abrigam a maior parte dos pequenos negócios no Brasil. São quase 20 milhões (19.404 milhões) de registros ativos, dos quais pouco mais de 2 milhões localizados em Minas Gerais. Somente as micro e pequenas empresas mineiras do setor de serviços correspondem a 33% do PIB do estado e empregam quase 800 mil pessoas. Já no caso do setor de comércio, são 776 mil empregos gerados, que movimentam cerca de 35% do PIB de Minas.
Para Victor Mota, “a economia colaborativa abre portas que seriam inacessíveis sem ela, porque, juntos, quando a gente se junta com outros empreendedores, a gente tem a capacidade de, por exemplo, abrir uma loja em um local que seria inacessível sozinho, como um shopping center, por exemplo. Porque, quando eu tô colaborando, eu tenho a possibilidade de dividir custos, de dividir o trabalho, de ter mais pessoas pensando as estratégias, e isso é uma vantagem considerável”.
Mulheres protagonizam a economia colaborativa
As mulheres são maioria em muitos dos negócios que integram o universo das lojas colaborativas e da economia criativa. Em espaços compartilhados, elas transformam conhecimentos, técnicas artesanais e experiências pessoais em fonte de renda, ao mesmo tempo em que dividem custos, ampliam a visibilidade de seus produtos e constroem redes de apoio entre empreendedoras.
Esse protagonismo também aparece nos dados. Segundo levantamento do Sebrae, 65% das mulheres empreendem após identificar uma oportunidade de negócio e planejar a entrada no mercado. Outras 35% iniciam uma atividade por necessidade, diante da falta de alternativas profissionais ou da instabilidade financeira. A maior parte das empreendedoras brasileiras está na faixa entre 31 e 40 anos (37%), seguida pelas mulheres entre 41 e 50 anos (28%).
Na loja colaborativa Canto da Rua, uma das artesãs que ajuda a dar forma a esse cenário é Cláudia Regina, que encontrou nas pedras naturais uma forma de expressão criativa e de geração de renda. O trabalho começou de maneira despretensiosa, quando recebeu algumas pedras e decidiu experimentar novas composições. A partir daí, buscou aperfeiçoamento por meio de cursos e passou a desenvolver peças autorais utilizando materiais como ametista, topázio imperial, água-marinha, apatita, pérolas e metais.
Mais do que a venda das peças, o que a motiva é acompanhar a reação das clientes diante dos produtos expostos na loja. Para ela, o artesanato também tem um papel de valorização pessoal.
“O mais gostoso de tudo é quando você vê uma cliente encantada com o trabalho. A gente fica encantada quando alguém usa uma roupa e sai dali com a autoestima levantada”, conta.
Segundo a artesã, a satisfação não está apenas na comercialização das próprias criações, mas também em ver o reconhecimento do trabalho desenvolvido pelas outras empreendedoras que compartilham o espaço.

“O que é a nossa missão como mulher, como empreendedora? É fazer as outras mulheres se sentirem valorizadas”, afirma.
A percepção de Cláudia ajuda a explicar uma característica comum aos empreendimentos colaborativos: a construção de uma rede em que diferentes marcas convivem e se fortalecem mutuamente. Em vez de competir por espaço, as artesãs compartilham clientes, experiências e oportunidades de crescimento.
Lojas colaborativas também são democráticas
Enquanto a loja colaborativa Canto da Rua, no Mercado Novo, une produtos artesanais de empreendedoras que buscavam por um espaço para expor seus produtos, também reserva um espaço para o trabalho desempenhado pela Pastoral de Rua, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Essa união possibilitou que materiais de limpeza feitos por pessoas em situação de vulnerabilidade social pudessem ocupar algumas prateleiras.
Sabão em barra, detergente, amaciante, água sanitária e desinfetante. A cartela de produtos é resultado de ações de reintegração social, em que oito pessoas em situação de rua aprendem um ofício e ganham a chance de mudar de vida. “A partir do trabalho, tem uma equipe social que acompanha, em um processo em que ele [o morador] se desenvolve e se capacita para desenvolver os produtos, mas também tem uma retaguarda de acompanhamento social que ajuda essas pessoas no processo de construir novos projetos de vida. E, a partir do trabalho, a maioria delas foi encaminhada para projetos de moradia, provisórios ou definitivos. E, na moradia, inclusive, esse trabalho passa a ter um outro sentido”, explica Claudenice Rodrigues, conselheira do Instituto Canto da Rua. (veja mais no vídeo abaixo)
Em uma realidade distinta, mas igualmente empreendedora, a loja colaborativa Amor de Mãe ocupa um espaço privilegiado em um dos maiores shoppings de Belo Horizonte. O projeto surgiu a partir de um grupo de mães coordenado por Márcia Machado, que percebeu que a principal lamentação da maioria das integrantes era a dependência financeira de outras pessoas. Hoje, na loja, 24 mulheres expõem produtos variados, como artigos para casa, mesa, acessórios como brincos e colares, sabonetes e velas aromáticas, além de itens de decoração.
“Quando a gente abriu o espaço colaborativo do Grupo Amor de Mãe, em junho de 2019, foi a primeira vez que o grande varejo abriu espaço para o pequeno empreendedor”, relembra Márcia.

O modelo colaborativo também é funcional. “Em todos os âmbitos que você olha. Ele é funcional porque, às vezes, o cliente de uma se torna o cliente da outra. Às vezes, a pessoa vende uma coisa no Instagram, aí vem buscar aqui, na loja, ele acaba vendo o produto de uma, levando o produto da outra”, explica Márcia.
Do Ateliê Artesanato Belas saem boleiras cuidadosamente pintadas à mão, potes e caixas personalizados. Produtos criados pela artesã Michelle Luiza junto com a mãe e que estão expostos na loja Amor de Mãe. “Eu sempre trabalhei aqui com manutenção e passava pelas lojas e falava ‘um dia meu produto vai estar exposto em um shopping’, então, a loja colaborativa ajuda nisso”, diz a empreendedora, que conclui: “Hoje, eu vejo que não estou onde comecei. Eu vejo o meu produto muito mais valorizado, então é uma forma muito gratificante. Você vê o seu trabalho sendo reconhecido!”.
Hoje, o Grupo Amor de Mãe conta com três lojas, todas em shopping centers, sendo uma na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e duas em Belo Horizonte. A segunda loja, em BH, é focada em moda circular. No total, a iniciativa reúne cerca de 90 colaboradoras. (veja mais no vídeo abaixo)
Os desafios da economia colaborativa
A reunião de vários empreendedores alinhados em um único negócio é apontada por especialistas como a maior dificuldade para o sucesso deste modelo. O analista do Sebrae Minas, Victor Mota, diz que “o principal desafio é encontrar pessoas que tenham os mesmos propósitos, os mesmos valores e que estejam dispostas a fazer os mesmos sacrifícios, seja em formas de investimento financeiro, de tempo, de realmente se dedicar ao negócio. E, muitas vezes, os problemas ocorrem quando essas questões não estão alinhadas”, afirma.
Mas também há dificuldades vistas como comuns em pequenos negócios. O gerente executivo do CDL LAB e do Horizonte, Guilherme Meireles, lista problemas comumente observados, como a incompreensão sobre o fluxo de caixa e a gestão financeira, além do não entendimento de que o marketing é algo primordial. O especialista diz que o grande desafio não é detectar o que precisa ser feito na gestão de um empreendimento, mas sim entender como executar as mudanças. “Grande parte do mercado, quando ele [o empreendedor] vai buscar uma consultoria, uma mentoria ou vai a uma empresa pedir ajuda, simplesmente indica para ele o que ele tem que fazer, mas na hora que ele vai implementar, ele tem um desafio: ele não sabe como manter a frequência, a recorrência, como sustentar isso na prática”, explica.

O Horizonte foi inaugurado em março de 2026, pela Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL/BH). No local, donos de micro e pequenos negócios do comércio de BH e região encontram soluções para esses problemas, a partir da análise de especialistas.
Mulher e empreendedora desde a pandemia, Enilce Rangel é a dona do “Quintal da Nicinha”, que fica na região Noroeste de BH. No Horizonte, ela busca por estratégias que possam ajudar o negócio a crescer. “Eu tô fazendo acompanhamento na parte de marketing, parte financeira, o Instagram, então estou tendo toda a assessoria aqui pra poder aprender, pra poder me atualizar e melhorar o meu negócio. Não adianta só eu ter um ambiente feliz, um ambiente alegre, e não ter resultados”, conta.










