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Novo relatório aponta que JK foi assassinado pela ditadura

08/05/2026 às 12h20 - Atualizado em 08/05/2026 às 12h30
JK pode ter sido assassinado pela DItadura Militar
(Reprodução/Arquivo Público)

Um Relatório da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos aponta que o ex-presidente Juscelino Kubitschek não morreu em um acidente de carro em 1976, mas teria sido vítima de uma ação da ditadura militar. Anteriormente tratada como controversa, esta hipótese foi noticiado pela Folha de São Paulo, e pode mudar o entendimento oficial que se manteve por décadas.

Um relatório da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) pode mudar de vez a história contada sobre a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek. A nova análise aponta que ele pode ter sido assassinado pela ditadura militar, contrariando a versão oficial mantida por décadas de que o caso se tratou de um acidente de trânsito.

O documento foi elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão e ainda está sendo avaliado pelos integrantes da comissão. A votação, que estava prevista para abril, acabou adiada para que o conteúdo completo, que soma mais de 5 mil páginas, fosse analisado com mais calma. Nos bastidores, a tendência é de aprovação.

Se isso se confirmar, o reconhecimento terá peso institucional, já que a CEMDP é um órgão ligado ao Estado brasileiro, responsável por analisar casos de mortes e desaparecimentos durante o período da ditadura.

Versões em disputa há quase 50 anos

A trajetória de Juscelino Kubitschek é diretamente entrelaçada à Belo Horizonte como conhecemos hoje. Enquanto prefeito, ele guiou obras e decisões que mudaram o desenho urbano, sendo a mais simbólica o projeto da Conjunto Arquitetônico da Pampulha. Na época, as suas ideais eram fora do padrão, o que acabou virando um dos cartões-postais mais emblemáticos de BH.

Esse tipo de intervenção ajuda a explicar por que o nome de JK ainda aparece quando se fala de planejamento urbano na capital. Ao mesmo tempo, a relação com BH também carrega um peso político e simbólico: foi daqui que ele ganhou projeção nacional e construiu parte da imagem de gestor que depois levaria para o cenário federal.

Juscelino foi presidente entre 1956 e 1961, e o seu governo foi pautado por um projeto acelerado de desenvolvimento, com forte investimento em infraestrutura, indústria e integração do território, guiado pelo lema “50 anos em 5”. O principal símbolo dessa agenda é a construção de Brasília, planejada para transferir a capital para o interior e reorganizar a dinâmica política e econômica do país.

A morte de JK aconteceu em 22 de agosto de 1976, na Via Dutra. O carro em que ele estava, dirigido por Geraldo Ribeiro, perdeu o controle, atravessou o canteiro central e bateu na pista contrária. Os dois morreram. Na época, a conclusão foi de que o veículo teria sido atingido por um ônibus durante uma ultrapassagem, o que teria causado o acidente.

Essa versão acabou sendo reforçada ao longo dos anos por outras investigações oficiais, mas essa nunca foi a única linha possível. Ao longo do tempo, diferentes apurações levantaram dúvidas sobre o que realmente aconteceu. Entre as hipóteses consideradas estão falha mecânica provocada, interferência externa no veículo e até ações diretas contra o motorista.

Base do novo relatório

Para sustentar a nova conclusão, o relatório da CEMDP se apoia principalmente em um inquérito conduzido pelo Ministério Público Federal entre 2013 e 2019. Esse estudo revisou provas antigas e trouxe novas análises técnicas sobre o caso.

Uma das principais conclusões foi a de que não há evidências que comprovem a colisão com o ônibus, ponto central da versão oficial. Mesmo assim, o próprio MPF afirmou que não é possível afirmar com certeza o que causou a perda de controle do carro.

O inquérito também apontou falhas nas investigações feitas na época, como ausência de exames mais completos e problemas nos laudos periciais utilizados para sustentar a versão do acidente.

Além dos aspectos técnicos, o relatório considera o contexto em que JK morreu. Após ter os direitos políticos cassados em 1964, ele voltou a se movimentar politicamente nos anos seguintes e era visto como uma liderança relevante da oposição.

Naquele período, países da América do Sul viviam um cenário de repressão coordenada entre regimes militares, com ações como a Operação Condor, voltadas a perseguir opositores. Esse ambiente é apontado como um dos fatores que reforçam a possibilidade de que a morte não tenha sido acidental.

O que pode mudar

Caso o parecer seja aprovado, a comissão pode recomendar a alteração da certidão de óbito de Juscelino Kubitschek e de Geraldo Ribeiro, reconhecendo oficialmente que as mortes tiveram relação com perseguição política.

A mudança não deve gerar indenizações, mas tem impacto simbólico importante, especialmente por mexer em uma versão histórica consolidada há décadas. A decisão final ainda depende da votação do colegiado, mas, se confirmada, deve reacender o debate sobre o caso, justamente no momento em que a morte de JK se aproxima de completar 50 anos.

Raul Costa

Graduando em Jornalismo pela UFMG e estagiário no BHAZ. Gosto jornalismo cultural, cultura pop e tudo que envolve contar boas histórias.

Raul Costa

Email: [email protected]

Estagiário do BHAZ

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