“Eu acreditei, sabe? Acreditei e fui tapeada”. O desabafo é da administradora de empresas Thaís Ribeiro, de 30 anos, uma das dezenas de vítimas de um suposto esquema de estelionato em BH. Lançada em novembro de 2025, a startup Meu Bolinho tinha a promessa de revolucionar o mercado de comemorações como uma espécie de Airbnb ou Booking de eventos, chegando a captar cerca de R$ 1 milhão com mais de 30 investidores. No entanto, o empreendimento se tornou alvo de uma investigação da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) após o CEO desaparecer e deixar de responder os financiadores do projeto.
No papel, a proprietária da startup é Vanilda Carvalho Abreu, de 72 anos. Na prática, quem se apresentava como o CEO, comandava a empresa e atraía os investimentos era o filho dela, Alexandre Carvalho Abreu, de 41 anos.
É importante esclarecer que, apesar de possuírem nomes parecidos, a startup Meu Bolinho não tem nenhuma relação com a artista Raquel Bolinho, conhecida pelos famosos grafites na capital mineira.
Círculo de confiança
Em conversa com o BHAZ, Thaís Ribeiro contou que chegou à startup por meio do advogado Rubens Oliveira do Nascimento, de 37 anos, de quem é amiga próxima há muitos anos. Rubens, por sua vez, mantinha uma relação de amizade com Alexandre Abreu há cerca de uma década.
“O Alexandre apresentou o projeto para o Rubens, ele se interessou e conversou comigo”, recordou a administradora. Como o amigo era de confiança e conhecia Alexandre de longa data, Thaís aceitou o convite para participar de um jantar de captação luxuoso em um restaurante italiano em Nova Lima.
Segundo ela, a estratégia de captação de investidores incluía um forte senso de urgência, além da promessa de valorização das cotas. De acordo com Thaís, Alexandre utilizava projeções fictícias para pressionar pelos aportes. “Na reunião ele até falou que a cota era em torno de R$ 5, mas que já estava marcada uma reunião em São Paulo, onde as cotas estariam no valor de R$ 8, quase R$ 9”.
Para não deixar passar a “oportunidade imperdível”, Thaís tomou uma decisão drástica. “Como eu não tinha o valor, eu passei no cartão porque depois as cotas iam aumentar. Eu tinha uma reserva de R$ 10 mil e o restante eu parcelei no cartão”, explicou. Thais contou que parcelou o valor em seis vezes e já quitou todas as parcelas. No entanto, não recebeu nenhum centavo de retorno, nem respostas sobre onde o dinheiro teria sido investido.
“É um valor que eu cutuquei, eu tive que ‘cavacar’ para poder pagar essas faturas. A gente cria aquela esperança, porque você acredita que esse esforço é para algo muito maior”, destacou.
A administradora ainda relatou que essa foi a primeira experiência investindo em um empreendimento. Segundo ela, o desgaste é devastador. “Eu estou muito abalada com a situação. É uma situação que tem me prejudicado muito, porque foi um valor que talvez eu poderia ter investido em outras questões”, desabafou.
“Usei do meu prestígio com os meus amigos”
Além de Thaís, o prejuízo financeiro atingiu outros amigos de Rubens. O advogado contou ao BHAZ que investiu R$ 50 mil no negócio em conjunto com o companheiro dele e com o amigo Rafael. Além disso, ele relatou que acabou indicando o Meu Bolinho para outras pessoas próximas investirem. Ao todo, ele e o círculo de amizades destinaram cerca de R$ 100 mil ao empreendimento.
“Me senti extremamente mal. Usei do meu prestígio com os meus amigos… pessoas que entraram pela minha influência e que hoje eu fico com peso na consciência de ter influenciado elas a isso, por eu ter confiado [no Alexandre]”, lamentou o advogado.
Segundo Rubens, a proposta da startup era sedutora. “A ideia do Meu Bolinho era até semelhante à ideia de ser um Airbnb, um booking de eventos. Você conseguiria fazer todo o seu evento por meio de um aplicativo, simplificando a organização de comemorações”, destacou o advogado.
“Não tinha nenhum cliente”
De acordo com Thaís, a imagem pública do Meu Bolinho passava credibilidade ao mercado e aos possíveis investidores. “O Cauã Reymond era o garoto propaganda do negócio, tinham pessoas que eram funcionários deles”, destacou. A administradora ainda recordou que entre os colaboradores havia um engenheiro consolidado que teria largado o emprego para se dedicar ao Meu Bolinho. “Eu não esqueço dele. Ele é um que está sendo prejudicado também, porque sumiu, não teve acerto, não teve nada”, disse.
Além disso, Thaís relatou que Alexandre teria dito em uma das poucas reuniões de prestação de contas com investidores que uma empresa estaria interessada em comprar o empreendimento por mais de R$ 2 milhões. “Então, estava tudo muito bonito, tudo muito: ‘realmente está dando muito certo'”, contou a administradora.
No entanto, por trás da fachada, a realidade era outra. Contratado para ser gerente de operações e braço direito de Alexandre, Álvaro Castro, de 28 anos, pediu demissão de um emprego estável de muitos anos seduzido por uma “proposta incrível”. Ele trabalhou no Meu Bolinho desde agosto de 2025 até março de 2026 e relatou que a empresa não tinha sustentabilidade financeira real, apesar de ter aumentado o quadro de funcionários em pouco tempo. “A empresa inflou muito e cresceu muito o time de diversas formas”, disse.
“Mesmo com tudo isso, não tinha nenhum cliente… dependia completamente de investidores. Ela não tinha nenhuma receita de mercado mesmo, nem dos próprios produtos. Ela não gerava uma receita. A operação era mantida com o dinheiro dos investidores”, revelou.
Segundo o ex-gerente, o único crescimento da empresa ocorria no número de seguidores no perfil do Meu Bolinho no Instagram. De acordo com Álvaro, o foco do negócio foi desviado para a venda de publicidade na rede social. O plano inicial, no entanto, era o lançamento de um aplicativo que conectasse bares e restaurantes ao público belo-horizontino. “A plataforma mesmo nunca teve nenhuma tração durante todo esse tempo, ela não tinha absolutamente nenhuma tração”, afirmou.
Apesar da receita inexistente, Álvaro contou que Alexandre inflava a folha de pagamento, contratando cada vez mais funcionários e terceirizados, chegando a contar com pelo menos nove colaboradores apenas no escritório. Segundo ele, todos os colaboradores foram dispensados sem receber salários atrasados, verbas rescisórias ou tiveram a baixa na Carteira de Trabalho (CTPS).
“Vendendo o almoço para comprar a janta”
Álvaro contou que o caixa secou e os salários começaram a atrasar a partir do quarto mês de operação. O ex-funcionário contou que Alexandre priorizava pagar os novos funcionários temporariamente apenas para evitar que o mercado ficasse sabendo da crise interna. “Para não vazar que a empresa, de fato, só estava respirando, vendendo o almoço para comprar a janta”, disse.
De acordo com Álvaro, o cotidiano da empresa era marcado por um certo “desespero” por novas captações quase que a cada semana. “As contas vão vencer agora nessa semana e hoje, segunda-feira, a gente ainda está fazendo captação de investidores para poder pagar essas contas”, relembrou o ex-gerente. “Foi uma bola de neve, empréstimo em cima de empréstimo… que no final das contas não pagou absolutamente ninguém”, completou.
Em fevereiro de 2006, alegando “dificuldades momentâneas no caixa”, Alexandre recorreu diretamente a Rubens, pedindo R$ 25 mil emprestados para quitar a folha de pagamento da startup. O advogado contou que emprestou o valor e assinou uma nota promissória com o CEO de duas parcelas de R$ 16 mil. Ele disse que recebeu a primeira parcela com atraso, mas a segunda, que tinha vencimento em 30 de abril, não foi paga até hoje.
Ainda de acordo com o advogado, Alexandre “desapareceu” a partir de abril. Por isso, ele contou que chegou a procurar por familiares do CEO, que informaram que o empresário estava internado há 40 dias devido a uma pneumonia severa.
“Foi uma má administração, não foi feito o acerto dos funcionários, se o dinheiro tivesse ido para isso até teria justificativa. Existe o risco do negócio e todo mundo está ciente disso”, argumentou Rubens. “Mas agora sem prestação de contas, sem nada, não tem, não faz sentido”, completou.
Polícia Civil investiga o caso
A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) confirmou ao BHAZ que o caso está sobre investigação. “Procedimentos investigativos foram instaurados com o objetivo de apurar a materialidade e confirmar a autoria dos fatos”, disse em nota. “Todas as providências legais cabíveis serão adotadas”, completou.
No entanto, a corporação não repassou mais detalhes sobre o caso. “Outras informações poderão ser divulgadas oportunamente, conforme o avanço das diligências e observados os limites legais”, esclareceu.
O BHAZ tenta contato com Alexandre Carvalho Abreu e Vanilda Carvalho Abreu para um posicionamento oficial. O espaço está aberto.












