A novela do vice de Zema

Zema Eleicoes
Zema ainda está em busca de um vice (Henrique Coelho/BHAZ)

Estamos a menos de um mês do início das convenções partidárias, que ocorrerão entre 20 de julho e 5 de agosto, mas as incertezas sobre as forças políticas em disputa em Minas Gerais permanecem. Entre os muitos mistérios que ainda rondam o cenário eleitoral, está a composição da chapa de Romeu Zema (Novo) que, até a presente data, permanece sem candidato a vice-governador. Há, porém, algumas hipóteses pairando no ar.

Hipótese chapa (quase) puro-sangue

Zema foi eleito em 2018 com uma chapa puro-sangue, com candidatos a governador e vice-governador e ao Senado filiados ao Partido Novo. Um dos primeiros nomes que foram cotados para candidato a vice na chapa de Romeu Zema é o do ex-Secretário de Governo Mateus Simões, filiado à mesma sigla do governador. Essa escolha, apoiada pela ala mais ideológica do Novo, se aproximaria das experiências eleitorais do partido em 2016 (ano em que estreou eleitoralmente), em 2018 e em 2020, quando a sigla não se coligou com nenhum outro partido, com uma diferença determinante: a vaga para o candidato na chapa será cedida a um partido aliado. Ou seja, pela primeira vez mesmo os mais puristas do Novo consideram que um pouco de mistura pode ser necessário para vencer as eleições (ou para governar).

Hipótese União Brasil

Desde que surgiu no cenário político nacional, o União Brasil, fruto da fusão entre Democratas e PSL, tem sido uma das siglas mais disputadas pelas coligações país afora. O motivo é bastante primário: é o partido com maior número de deputados federais e que, portanto, agregará o maior fatia de tempo do horário eleitoral gratuito:16,5%.

Não por acaso, um dos quadros mais cobiçados para vice na chapa de Romeu Zema foi, durante certo tempo, o deputado federal Bilac Pinto, membro do partido, que fez parte do secretariado do governador quando ainda pertencia ao extinto Democratas.

Bilac Pinto, curiosamente, distancia-se bastante da ideia de nova política apregoada pelo partido de Romeu Zema. O ex-deputado, filho e neto de políticos, exerce carreira política desde 1994, quando foi eleito deputado estadual e foi secretário dos governos Aécio e Anastasia.

Na última semana (13), porém, essa hipótese foi abalada pelo anúncio do presidente nacional do partido, Luciano Bivar de que o União Brasil apoiaria, nas eleições para o Governo de Minas, o principal adversário de Zema, Alexandre Kalil (PSD). No mesmo dia, porém, o presidente da sigla em Minas, o deputado federal Marcelo Freitas, negou que o apoio a Kalil estivesse definido, mostrando que o União Brasil não está tão unido como o nome sugere. De acordo com o deputado mineiro, a decisão será tomada apenas no momento das convenções partidárias, mantendo acesa a hipótese Bilac Pinto. A ver.

Hipótese Marcelo Aro

O deputado federal Marcelo Aro (PP) é mais um dos cotados para concorrer como vice na chapa do atual governador. Apoiador incondicional de Zema, Marcelo Aro é um bom articulador político e é considerado um dos responsáveis para atrair para a base de governo diversos partidos como Podemos, Agir, Solidariedade, Pros, MDB e Avante.

Sua máquina eleitoral também causou muitas dores de cabeça ao então prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil. Depois de governar em seu primeiro mandato com o auxílio de uma Câmara Municipal com poucos opositores, Kalil viu a maioria que tinha na Casa se esvair a partir de 2021, em boa parte, por conta da articulação política de Aro, que atuou para desgastar o prefeito e favorecer o governador Romeu Zema.

Também de família tradicional na política, Aro é filho do Deputado Estadual José Guilherme Ferreira Filho e da vereadora de Belo Horizonte Professora Marli, ambos do PP. O clã também tem uma profunda ligação com a Federação Mineira de Futebol. A entidade já foi presidida pelo avô de Aro, o Coronel José Guilherme Ferreira e pelo seu tio, o também coronel Elmer Ferreira da Silva. O bastão hoje se encontra nas mãos do irmão de Marcelo, Adriano Guilherme de Aro Ferreira.

Há, porém, certa resistência entre membros do Novo e apoiadores do governo ao nome de Aro. O deputado e aspirante a vice-governador desperta em parte da classe política mineira uma certa desconfiança e tem em sua história passagens controversas, como a proximidade ao ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Marcelo Aro chegou a fazer, quando ainda era vereador em Minas Gerais, uma homenagem ao deputado carioca, cassado por corrupção em 2016.

Diante das dificuldades enfrentadas por Aro para ser aceito como vice na chapa de Zema, pode acabar lhe restando a vaga para senador na chapa com o Partido Novo ou mesmo a candidatura a reeleição para deputado federal.

Hipótese Eduardo Costa – A cartada final

Por fim, foi noticiado ontem o convite feito por Romeu Zema para o jornalista Eduardo Costa para assumir o disputado posto de candidato a vice-governador em sua chapa. O nome é bem aceito pelo partido do governador e agregaria à sua chapa alguns atributos importantes. Costa, como Zema em 2018, poderia ser considerado um outsider na política. Além disso, o jornalista traria para a chapa a sua inquestionável popularidade, que falta a boa parte dos postulantes à vaga.

Há, porém, alguns obstáculos que dificultam a composição. Costa é filiado ao Cidadania, partido que formou federação, recentemente, com o PSDB e, no arranjo entre as duas siglas, o PSDB é majoritário e detém maior poder de decisão.

Os tucanos, que lançaram a candidatura do Deputado Marcus Pestana ao governo do Estado, parecem, porém, pouco dispostos a ceder. O PSDB foi um dos poucos partidos que ajudaram Romeu Zema a governar e tem em seus quadros, atualmente, o vice-governador Paulo Brant. No entanto, antes de convidar Eduardo Costa, Zema e o Novo preferiram buscar alianças em outros grupos e partidos o que, no limite, acabou ajudando o PSDB a se decidir pelo lançamento de uma candidatura própria.

A nota lançada pelos tucanos, no mesmo dia do anúncio do convite de Zema a Eduardo Costa, reafirma a candidatura de Marcus Pestana e menciona abertamente o nome de Brant, sinalizando para o governador que o tempo do diálogo e da composição já teriam passado.

Tudo pode mudar, mas com Paulo Brant se sentindo preterido e com a possível pretensão de Aécio de concorrer ao Senado, o que seria muito difícil na chapa de Zema, a hipótese Eduardo Costa ainda está bem distante de se confirmar.

Do outro lado…

Após idas e vindas e intensa negociação, está firmada (e percorrendo o estado) a chapa de Alexandre Kalil (PSD), que contará com o deputado André Quintão como candidato a vice e com o Alexandre Silveira correndo pelo Senado. A chapa do ex-prefeito, que até agora conta com PSD e a federação PT-PV-PCdoB, tenta ampliar o seu leque de apoio eleitoral com legendas como União Brasil. O PSB, tradicional aliado do Partido dos Trabalhadores em Minas Gerais e ex-partido de Kalil, insiste ainda na candidatura de Saraiva Felipe, ex-deputado e ex-Ministro da Saúde durante o primeiro governo do ex-presidente Lula.

Muito ainda está por se definir. Aguardemos.

Pedro Munhozpedro.munhoz@bhaz.com.br

Editor de Política do BHAZ. Graduado em Direito pela Faculdade Milton Campos e em História pela UFMG, trabalhou como articulista de política no BHAZ entre 2012 e 2013. Atuou como assessor parlamentar desde 2016, com passagens pela Câmara dos Deputados, Câmara Municipal de Belo Horizonte e Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

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