‘Como é grande o meu amor por você’, cantam bolsonaristas em BH: Por que eleitores endeusam políticos?

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Mesmo que a figura de Bolsonaro seja rodeada de sentimentos tão extremos, ele não está sozinho nessa (Asafe Alcântara/BHAZ)

Apoiadores e opositores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) protagonizaram um fervoroso embate na Cidade Administrativa, em Belo Horizonte, na manhã desta quinta-feira (30). Enquanto de um lado se ouviam gritos de “genocida” e “impeachment já”, do outro, dezenas pessoas se declararam ao chefe de Estado, em coro, com a canção “Como é grande o meu amor por você”, de Roberto Carlos. Mas mesmo que a figura de Bolsonaro seja rodeada de sentimentos tão extremos, ele não está sozinho nessa.

Prova disso é um dos memes favoritos dos eleitores do principal antagonista de Bolsonaro: o ex-presidente Lula. Com a frase “Lula ladrão, roubou meu coração”, milhares de eleitores do petista relativizam as críticas feitas ao ex-presidente e ilustram esse fanatismo.

Em conversa com o BHAZ, o historiador Ademir Gargary explica que a única diferença entre os dois lados é uma falsa concepção de que uma idolatria seria certa e outra, errada. “Esse endeusamento ou está de um lado ou está de outro. Só que se criou uma ideia de que o endeusamento da esquerda seria o correto e o da direita seria o errado. Mas, na verdade, os dois são errados, porque eles são extremistas”, pontua.

Isso acontece, conforme um outro especialista ouvido pelo BHAZ, por uma série de fatores – dentre os quais se destaca o papel de “produto pop” que a política adquiriu recentemente. Mas engana-se quem pensa que isso é exclusividade dos tempos atuais.

Segundo Ademir, a história brasileira é repleta de ícones que conquistaram o povo através da passionalidade. Esses líderes se consolidam por meio de promessas exageradas e inimigos invisíveis.

“Um grande exemplo disso é Getúlio Vargas, que sobe ao poder através de um golpe em 1930 para poder romper com a ideia de oligarquia. Ou seja, ele promete uma transformação geral e diz desprezar tudo aquilo que tinha no passado, fala que vai mudar tudo”, explica o professor.

“Em 1937 ele forja o plano da ameaça comunista, que fala que o comunismo está se ‘espalhando pelas entranhas do país’, algo bem parecido com o que a gente escuta até hoje”, acrescenta.

Política como ‘produto pop’

Para Felipe Nunes, que é professor de ciências políticas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e diretor do instituto de pesquisa Quaest, Vargas, Juscelino Kubitschek, Lula e Bolsonaro estão no mesmo pódio quando o assunto é “roubar o coração” da população. Esse fenômeno, para ele, é um reflexo da transformação da política ao longo dos anos.

“A política acabou se tornando um ‘produto pop’ que exerce uma relação emocional com as pessoas. E ela está ganhando esses traços porque as personalidades, cada vez mais, vendem a ideia de uma solução personalista, individualizada e isso cria vínculos emocionais que engajam e mobilizam”, disse ao BHAZ.

E as redes sociais, muito utilizadas como ferramentas de reivindicação política, têm grande contribuição nesse cenário. Isso porque elas acabam aproximando a população da vida e da intimidade de seus líderes, o que cria uma relação que vai além da política.

“As redes forçaram os políticos a se transformarem em celebridades. Eles passaram a mostrar seus bastidores, sua vida pessoal, o que gostam de comer, pra onde gostam de viajar… E isso acaba criando vínculos personalistas com as pessoas”, conta.

‘Brasil acima de tudo’

Todos esses fatores, para o especialista, acabam transformando a idolatria em uma importante ferramenta de participação política. “Um lado positivo é que isso gera engajamento político e acaba forçando positivamente as pessoas a falarem mais e a se interessarem mais, procurarem mais informação, a política precisa disso também”, argumenta.

Por outro lado, quando exagerado, esse “endeusamento” pode trazer grandes prejuízos à democracia. O cientista político alerta que isso acontece quando a população passa a acreditar que essas figuras são mais importantes que a nação.

“Não tem problema nenhum ter idolatria desde que ela não seja transformada em algo nocivo às instituições. Afinal de contas, o estado democrático de direito, as leis, as instituições são maiores do que as pessoas”, explica.

‘Pare de criar mitos’

Ademir Gargary acredita que um bom termômetro para isso é o “bom senso” e a visão crítica. Para ele, quando a população deixa de ver os políticos como humanos e passa a vê-los como “super-heróis”, ela acaba sendo cegada pelos seus erros.

“A gente tem que parar de criar mitos, porque se não a gente não enxerga os erros que eles cometem e ficamos justificando sempre. Se a gente for olhar, acontecem as mesmas coisas com as celebridades, elas cometem um erro, mas o seu seguidor arruma uma forma de defendê-la de todo jeito”, explica o historiador.

Edição: Giovanna Fávero
Larissa Reis
Larissa Reislarissa.reis@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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