Zema vira alvo de críticas após citar ‘obsessão feminina’ para alfinetar João Amoêdo: ‘Desnecessário’

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Em vídeo que circula pelas redes sociais Zema cita ‘estatísticas’ de que mulheres são mais obsessivas que homens (Reprodução/@romeuzemaoficial/Instagram)

O governador Romeu Zema (Novo) virou alvo de críticas após usar uma analogia sexista para “alfinetar” o ex-presidente nacional de seu partido, João Amoêdo. Em vídeo que circula nas redes sociais nesta semana, Zema aparece comparando a postura de Amoêdo com o “comportamento obsessivo” que, segundo ele, as mulheres adotam ao fim de um relacionamento.

“Ontem mesmo eu comentei nessa reunião nossa que está havendo uma obsessão. E quando alguém fica obcecado fica cego”, começou o governador. “É a mulher que separa e passa a ser a obsessão da vida dela destruir e atacar o ex-cônjuge”, continuou Zema.

Na mesma fala, o governador chegou a dizer que “sabe que isso acontece tanto com homens quanto com mulheres, mas um percentual mais elevado com mulheres”. A frase machista foi usada para defender que Amoêdo ainda não teria superado a derrota nas eleições presidenciais de 2018, o que tem sido prejudicial para o partido.

‘Agora só fica remoendo’

Em tom de deboche, Zema ainda tentou “aconselhar” o ex-presidente do Novo. “E parece que no caso do partido Novo a derrota até hoje não foi digerida. ‘Então eu sou mais rico, eu sou mais inteligente e sou mais descolado então eu nunca deveria ter perdido essa eleição’, mas perdeu! Tem de tocar a vida pra frente, agora só ficar remoendo aí fica muito difícil”, disse.

Confira o vídeo abaixo:

‘Vejam o que é o machismo’

Após a repercussão do vídeo, várias pessoas apoiaram o governador e concordaram com as críticas a João Amoêdo, mas houve também quem lamentasse o teor da fala. “Desnecessária essa comparação, Zema”, criticou uma internauta.

“Zema diz que mulheres tornam-se ‘obsessivas’ por não aceitarem o fim do relacionamento ’em percentual mais elevado que homens’. Interessante a experiência pessoal dele, agora vamos ao FATO: em percentual mais elevado que mulheres, homens AGRIDEM E MATAM na mesma circunstância”, pontuou uma outra.

“Vocês vejam o que é o machismo: um homem vai falar mal de outro homem e para isso atribui ao criticado um suposto comportamento ‘de mulher'”, criticou uma terceira, que ainda completou: “Tanta forma de criticar o ‘Amoeba’, mas Zema opta por negar o feminicídio”.

Realidade é outra

Ao contrário da afirmação lamentável do governador, pesquisas e levantamentos conduzidos há anos revelam uma realidade bem diferente da “obsessão feminina” citada por Zema. A mulher é, na realidade, a principal vítima após o término de relacionamentos. Isso foi ilustrado, por exemplo, em uma pesquisa feita no ano passado pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, que mostrou que uma em cada três agressões contra mulher é atribuída à dificuldade do autor do crime em aceitar o término.

E, apesar de triste, o cenário não é novo. Em 2013, a situação já era apontada como preocupante. Em uma pesquisa feita em mais de 100 mil municípios brasileiros, o Instituto Patrícia Galvão concluiu que 43% dos entrevistados – homens e mulheres – reconheceram que o fim de um relacionamento é o momento de maior risco à vida da mulher.

Esse risco é comprovado diariamente em casos como o de uma jovem que foi espancada pelo ex-namorado e mantida em cárcere privado após terminar o relacionamento. Ou a outra jovem assassinada com três tiros porque foi vista pelo ex com outro homem em uma festa. Ou a mulher morta pelo ex-companheiro, que também tirou a vida do filho do casal. Ou vários outros casos, como este e este – todos apenas neste ano.

Ainda na semana passada, um homem ateou fogo na casa da ex-mulher em Esmeraldas, também na Grande BH. As chamas acabaram matando uma adolescente de 15 anos e duas crianças pequenas carbonizadas (relembre aqui). Há ainda vários outros casos – como este e este -, todos apenas neste ano e em Minas.

Larissa Reis
Larissa Reislarissa.reis@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Giovanna Fávero
Giovanna Fáverogiovanna.favero@bhaz.com.br

Editora do BHAZ desde julho de 2021 e repórter desde 2019. Graduada em jornalismo pela PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais). Participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2021, além de figurar entre os finalistas do prêmio Sebrae de Jornalismo também em 2021.

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