“Mãe não é minha melhor versão… É claro que eu gosto de vocês, como pessoa. Eu amo você, amo a sua irmã. Mas ser mãe exige muita submissão, muita abnegação. É até um pouco humilhante. Eu não nasci para ser mãe! Talvez eu tenha até nascido para ser pai. Um pai ausente, como quase todos. Um exemplo de sucesso, um provedor, com certeza. E vocês iriam me amar se eu fosse pai.”
O monólogo que abre esse texto foi retirado da novela “Vale Tudo”, clássico dos anos 1980, que foi reeditada em 2025. Nele, a atriz Débora Bloch, intérprete de Odete Roitman, faz um emocionante desabafo ao seu filho sobre a sua inadequação ao papel social da maternidade. Odete traz, em suas falas, a desigualdade de gênero que permeia o cuidado com os filhos. Esse não é um caso isolado, apesar das especificidades que a narrativa traz: não abdicar das ambições pessoais, em detrimento da priorização do trabalho do cuidado, é um privilégio de classe que marca a vida da milionária.
Isso porque – e não nos parece desnecessário dizer – a possibilidade de acionar outras redes de cuidado, principalmente as pagas, dependem de uma estruturação financeira que a maioria das mulheres brasileiras não possuem. Assim, para as mulheres que trabalham fora do ambiente doméstico, a maternidade se traduz em um perverso equilíbrio de demandas que exigem a conciliação de recursos limitados, tais como tempo e energia, para atividades produtivas, aquelas que geram renda, e reprodutivas, que se voltam ao cuidado doméstico e familiar, reverberando no aprofundamento de desigualdades em sua trajetória pessoal.
Certamente, quem nos lê não sente nenhum estranhamento no fato dessa discussão sobre o trabalho do cuidado estar centrada no papel da mãe. Ostensivamente afirmado como uma obrigação social da mulher, o cuidado é um trabalho imposto às mães como algo natural e determinado biologicamente. Mas isso não tem a ver, necessariamente, com o que é a maternidade.
A ideia de maternidade é, em geral, entendida de forma imbricada com outro termo: a maternagem – que designa os cuidados com bebês e crianças, e que podem ser realizados por qualquer pessoa. Nesse sentido, é necessário entendermos que há distinções entre os aspectos fisiológicos da maternidade, e o trabalho do cuidado e da educação que as crianças requerem de membros da sociedade. Mas, por que, então, as funções do cuidado pesam sobre as mulheres, e são as mães que têm que se dedicar ao ambiente doméstico, sacrificando-se pelos cuidados e pela vida dos filhos e filhas?
E este é um outro ponto: além do uso ambíguo desses termos, foi construído socialmente um ideal de sacrifício pelos filhos, também como papel exclusivo das mães. E isso está relacionado à ascensão do “mito do amor materno”, em que o amor foi atribuído à maternidade como um sentimento inseparável da entidade “mãe” e impregnado de mitos e idealizações – inclusive a de abnegação, como citou Odete Roitman. É este mito que tem garantido, ao longo dos séculos, a submissão de mulheres a um discurso que articula a sobrecarga de trabalho com julgamentos morais. Pautado numa suposta determinação biológica, o ‘ideal de maternidade’ faz com que mulheres sejam responsabilizadas por uma lista cada vez maior de deveres e moldam comportamentos, sentimentos e, consequentemente, expectativas sociais com relação à maternidade.
Em última análise, é de expectativas sociais que se trata, ou seja: qual a mãe ideal? E aqui destacamos a instrumentalização das imagens cristãs que busca tornar a maternidade um tema sagrado, preconizando como referência a mãe de Jesus. Assim, o ideal materno foi construído com traços de devotamento, ideia de vocação, e com enaltecimento do sacrifício: características que devem passar a orientar a conduta das mulheres quando têm filhos.
E nada disso é estranho a nós, afinal, quem nunca ouviu o ditado que diz “ser mãe é padecer no paraíso”? Ideia que naturaliza não só a maternidade como devoção e sofrimento, como violenta sistematicamente mulheres mães de formas diversas – inclusive com a culpa, inerente a qualquer pessoa que tenha como referência o desempenho de uma figura sagrada como Maria, um modelo de uma vida sem sexualidade, sem paixão e sem ambições pessoais.
Não é atoa que começamos a Bíblia com a figura de Eva, a mulher que, dada a sua ambição e a sua não obediência à vontade de Deus, prova do fruto proibido, levando a condenação de toda a sua descendência, e a finalizamos com a Maria. Aquela que é mãe do filho de Deus, obediente e silencioso em todos os momentos. Inspiração ao amor materno cheio de devoção, entrega e abnegação. Essa é a redenção das mulheres na leitura bíblica: a passagem da mulher pecadora à mulher mãe. É só pela maternidade que há uma transformação na imagem feminina.
Fato é que por mais distante que isso possa nos parecer, essa é uma aposta que ainda fazemos como sociedade. Nos inspiramos nessa transformação como possibilidade real de disciplinar mulheres dentro das performances tradicionais de gênero. A prisão nos parece um campo fértil para analisar esse processo.
Ainda sabemos pouco sobre a origem do aprisionamento feminino. Os esforços que temos neste sentido nos permite fazer duas afirmações: a primeira delas é que as mulheres eram levadas a casas correcionais por romperem as expectativas sociais que perpassavam sua experiência – de mundo e de si mesma. Assim, os principais delitos giravam em torno de escandalos públicos, embriaguez, prostituição, entre outros. A segunda conclusão é que, em diversos contextos nacionais, a Igreja Católica esteve presente na custódia destas mulheres, se o delito tinha cunho moral, sua resolução também assim seria.
Toda essa discussão ajudou a solidificar uma argumentação de que no contexto prisional, as mulheres, especialmente aquelas que são mães, são duplamente condenadas: pelo desvio legal de sua conduta, e pelo desvio moral do ideal materno. Se a expectativa social sobre o que é ser boa mãe é pautada em ideais de devoção e abnegação, como visto, a mulher mãe quando é presa passa a ser punida de maneiras bem específicas.
É diante dessa realidade que nas prisões destinadas às mulheres gestantes e recém mães com seus bebês, a maternidade passa a ser utilizada como instrumento de regulação social e punição moral. Isso é facilmente percebido nos discursos e nas rotinas prisionais. Para se ter uma ideia, as mulheres presas são submetidas a uma série de regras sobre educação e cuidado de suas crianças que são definidas pela unidade. Caso tais normas não sejam cumpridas, sanções punitivas são acionadas. Vale dizer que a maternagem é algo individual, uma escolha da mulher sobre como ela deseja exercer tal papel. Mas o controle prisional viola de tal forma a intimidade desta mãe. As regras, por vezes, são as mais diversas possíveis: proibição sobre interna e seu bebê dormirem juntos na mesma cama, obrigação de estar com a criança durante todo o tempo, sem deixá-lo ir ao chão e a regulação sobre o tempo de choro do bebê, sob possibilidade de levar “comunicado” (um mecanismo de formalizar a infração cometida).
Crianças choram, por vezes, de forma intermitente até a descoberta daquilo que as incomoda. Crianças precisam estar no chão, explorando o ambiente em busca de descobertas. E as mães precisam de um tempo para elas, nem que seja para minutos de descanso, do cuidado integral ofertado.
É justamente pela lógica de tutelar a maternidade, por meio de sanções e punições prisionais, que em unidades materno-infantis o ideal de maternidade torna-se mais um mecanismo de controle, dando ênfase à domesticidade feminina e às expectativas de sacrifício e sofrimento pela vida dos filhos e filhas. A maternagem, nesse sentido, passa a ser vista pelo corpo técnico e policial das unidades como uma forma de aprendizagem para as mulheres que cumprem pena também por desviarem da sua ‘essência natural’ e não serem, em última instância, boas mães. As regras da prisão intensificam os papéis sociais impostos.
Esse cenário faz emergir uma perigosa associação, que faz parte da gramática não oficial da instituição, entre a possibilidade singular de ressocializar mulheres quando a elas é imposta, tutelada e controlada pelo Estado, sustentada em idealizações que não fazem parte da realidade concreta de nenhuma mulher brasileira. As mulheres presas se tornaram assim a experimentação humana da história divina, em que a Eva se redime pela maternidade devotada de Maria. Elas são o encontro possível das duas figuras femininas centrais da Bíblia.
Se essa constatação por si só já é bastante curiosa, vale afirmar que a mesma ideia que condena moralmente todas as mulheres que não cumprem as expectativas sociais de uma mãe ideal. Ideal, este, construído para punir e culpar a todas, inevitavelmente, em maior ou menor grau, suscetível a um maior ou menor controle, seja ele Estatal ou social. E é, justamente, essa moralização da maternidade que condena também mulheres mães presas para além dos crimes a que homens são condenados, quando privados de liberdade. O amor aos filhos é, então, mobilizado como fonte de punição e ressocialização somente para mulheres – nunca para os homens. Concluímos, assim, que nascer para ser pai significa ser menos condenado, inclusive, no sistema prisional.









