O desespero de abrir o caderno de prova, ler a frase temática da redação e sentir que não sabe nada sobre o assunto é um dos grandes medos dos candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Um erro comum, que aumenta ainda mais a ansiedade na reta final, é a tentativa de descobrir qual será o tema do ano. No entanto, segundo Joel Fonseca, professor do Colégio e Pré-Vestibular Chromos, o estudante não precisa entrar em pânico, uma vez que a própria prova ajuda nesses casos.
De acordo com o professor, em vez de tentar adivinhar o tema ou se desesperar por não lembrar uma citação famosa de cabeça, o estudante deve recorrer imediatamente à coletânea de textos fornecida pela banca. “Para evitar esse branco é que a prova traz os textos motivadores. Todo texto motivador esconde alguma dica que a prova gostaria que você se atentasse: seja uma causa do problema, um exemplo ou até um ponto de partida para começar suas ideias”, comenta Joel.
Como usar os textos motivadores na redação do Enem 2026?
Segundo o especialista, os textos motivadores estão disponíveis para serem utilizados. No entanto, Joel destaca que é importante que o estudante analise a coletânea fazendo quatro perguntas fundamentais ao problema. Veja a seguir:
- Quais são as causas deste problema?
- Quais são as consequências diretas para a sociedade?
- Quais são os exemplos práticos dessa situação no Brasil?
- Quais são as vítimas ou grupos mais afetados por este problema?
“Todo texto motivador vai estar associado a uma dessas perguntas. A função do aluno é olhar para a coletânea perguntando: esse texto me trouxe uma causa, uma consequência, um exemplo ou as vítimas? Mesmo que o texto não diga isso expressamente, o candidato deve fazer essas perguntas para a informação”, explica o professor.
Paráfrase
No entanto, Joel deixou claro que os estudantes não podem copiar trechos dos textos motivadores, pois pode levar à anulação ou perda severa de ponto. Segundo ele, é necessário usar o recurso da paráfrase, reformulando o texto para sustentar a argumentação.
“O aluno pode interpretar os dados do texto e reescrevê-los com as próprias palavras. Por exemplo: se o texto motivador afirma que apenas 25% da população tem acesso a um determinado direito, você pode inverter e trabalhar com o dado de que 75% da população está desassistida. Pode-se fazer arredondamentos e aproximações, desde que diga com suas próprias palavras”, comenta.
O professor ainda pondera que o candidato não deve se limitar somente aos textos disponíveis na coletânea. Segundo ele, é preciso acrescentar pelo menos um repertório autoral ao logo da redação. “Ele tem que trazer conhecimentos inéditos que não esteja no texto motivador fornecido”, revela.
Cuidado com repertório de bolso e fórmulas coringa
Outro alerta do professor é o rigor do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) com os chamados “repertório de bolso”. Tais conteúdos são considerados como citações genéricas ou filosóficas decoradas que são encaixadas forçadamente em qualquer tema.
“O INEP deixou claro na Cartilha do Participante que usar repertório de bolso descredibiliza o texto e gera penalizações na nota. Não existe uma ‘lista negra’ de filósofos ou da Constituição, mas o repertório precisa ter relação direta com o problema e ser explicado pelo aluno”, esclarece.
Segundo ele, para ser considerado na nota, o repertório sociocultural precisa cumprir três exigências:
- Pertinente: ter ligação real com o tema abordado;
- Legitimado: o conteúdo deve ser respaldado em uma fonte ou área do conhecimento, como leis, fatos históricos, dados jornalísticos ou obras culturais;
- Produtivo: o repertório precisa ser articulado com a tese e a realidade brasileira.
Dicas de ouro
Com mais de seis anos preparando estudantes para o vestibular, o especialista destaca que a principal estratégia é iniciar a prova pela redação. Como o texto dissertativo-argumentativo é a única forma de alcançar a nota máxima de 1000 pontos, deixar para o final pode ser um problema, como não conseguir passar a redação a limpo.
“No primeiro domingo, a redação tem o peso mais decisivo. Se o aluno deixa para o final, ele fica cansado e mais suscetível a erros bobos de gramática e ortografia que não cometeria no início. Se faltar tempo no final para uma questão objetiva, ele ainda pode chutar e acertar; na redação, não existe chute”, alerta o professor.
A recomendação é ir direto para a redação, fazer o rascunho com calma, responder a algumas questões objetivas e passar o texto a limpo antes da metade do tempo total de prova.
Joel Fonseca ainda orienta os estudantes a manter o “arroz com feijão” bem feito na estrutura do texto para garantir um bom desempenho. “A maior parte da nota está ligada ao respeito à estrutura tradicional, comenta. Conforme explica o professor, a redação deve ter exatamente quatro parágrafos: um de introdução, dois de desenvolvimento e um de conclusão com a proposta de intervenção. “Tentar inventar moda nessa hora é um desvio que compromete o resultado final”, enfatiza.
O professor também acalma os candidatos em relação ao “mistério” sobre o tema da redação. Segundo ele, as temáticas são voltadas, principalmente, para grupos minoritários na sociedade brasileira. “Nos últimos 10 anos de Enem, os temas seguiram um mesmo padrão: um problema atual no Brasil que afeta um grupo vulnerável”, diz. Ele cita como exemplo idosos, mulheres, pessoas com deficiência ou povos tradicionais. “Se o aluno entende essa lógica, ele se acalma e percebe que qualquer tema pode ser desenvolvido com uma boa estrutura e leitura atenta da prova”, finaliza.













