Como seria para você viver em um país considerado o mais ansioso do mundo? E se eu te disser que esse país é o Brasil? Assusta, mas também ajuda a explicar muita coisa. A ansiedade está nas conversas do trabalho, nos grupos de WhatsApp, nas noites mal dormidas, na sensação de urgência permanente, na dificuldade de descansar sem culpa e naquele pensamento que insiste em perguntar: “e se der errado?”.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicados ainda lá em 2017, o Brasil já era apontado como o país com maior prevalência de transtornos de ansiedade no mundo. O número estimado era de 18,6 milhões de pessoas vivendo com esse tipo de sofrimento psíquico. E, entre os grupos mais afetados, as mulheres aparecem de forma expressiva.
Mas é importante começar por um ponto essencial: ansiedade não é, por si só, uma doença.
A ansiedade é uma reação natural do corpo. Ela faz parte da vida de todas as pessoas saudáveis e funciona como um mecanismo de defesa. É ela que nos ajuda a perceber riscos, organizar planos, antecipar problemas e nos proteger de ameaças.
O problema começa quando essa reação aparece com intensidade desproporcional, frequência excessiva ou diante de situações que não representam um perigo real. A ansiedade deixa de ser uma mola que nos movimenta e passa a ser uma força que paralisa.
É quando a pessoa quer descansar, mas não consegue. Quer resolver, mas se sente bloqueada. Quer dormir, mas o corpo continua em estado de alerta. Quer viver o presente, mas a mente insiste em morar no futuro.
Esse é um sinal importante.
Assim, os transtornos de ansiedade se diferenciam da ansiedade comum porque são mais intensos, duradouros e, muitas vezes, desproporcionais à situação vivida. Em geral, eles persistem por meses, causam prejuízos reais e podem acompanhar a pessoa desde o início até o fim do dia.
Por isso, uma frase ajuda a resumir bem: todos nós somos ansiosos, mas nem todos temos transtorno de ansiedade. A diferença está na intensidade, na duração e no impacto que essa ansiedade provoca na vida.
Se a sua ansiedade tem atrapalhado sua rotina, seus relacionamentos, seu sono, sua alimentação, seus estudos, seu trabalho ou sua capacidade de tomar decisões, talvez seja hora de olhar para isso com mais cuidado.
Outro ponto importante é que os transtornos de ansiedade podem aumentar a vulnerabilidade para outros sofrimentos psíquicos, como depressão, uso abusivo de substâncias e outros quadros de saúde mental. Por isso, falar sobre ansiedade não é modismo. É prevenção, cuidado e responsabilidade.
Vivemos em uma cultura ansiosa. Tudo parece urgente. As respostas precisam ser imediatas. O descanso virou culpa. A comparação é constante. O corpo está cansado, mas a mente continua acelerada.
Não se sentir ansioso em uma cultura ansiosa exige esforço. É quase como nadar contra a correnteza.
Ainda assim, pequenos cuidados diários podem ajudar muito na prevenção e no manejo da ansiedade. Não como fórmulas mágicas, mas como atitudes possíveis:
- Praticar atividades físicas que façam sentido para você.
- Cuidar da alimentação sem transformar isso em cobrança.
- Priorizar o sono.
- Fortalecer vínculos.
- Participar de projetos, causas ou espaços que deem sentido à vida.
- Desenvolver autoconhecimento.
- E, quando necessário, buscar avaliação de um profissional de saúde de confiança.
A ansiedade precisa ser escutada, não ignorada. Ela pode estar tentando dizer que algo em você, na sua rotina ou no seu modo de viver precisa de cuidado.
E é justamente com esse convite que inauguro esta coluna: falar de Psicologia de um jeito simples, responsável e próximo da vida real. Porque saúde mental não deve ser assunto apenas para momentos de crise. Deve fazer parte das nossas conversas, das nossas escolhas e da forma como aprendemos a cuidar de nós e dos outros.
Afinal, em um país tão ansioso, falar sobre saúde mental também é um gesto de coragem. E de cuidado coletivo.
Se você se identificou com as situações abordadas na coluna de hoje, considere buscar ajuda psicológica e, se necessário, avaliação psiquiátrica.
Com afeto,
Letícia Faleiro | CRP-MG 04/33265










