Um Super El Niño, previsto para o final deste ano, pode ser seguido por uma forte redução na vazão do Rio das Velhas, com um período mais crítico de seca a partir de 2028. O alerta é de um estudo do Fórum Permanente São Francisco (FPSF), que aponta possível impacto no abastecimento de Belo Horizonte e da Região Metropolitana.
O cenário é projetado a partir de dados de mais de 50 anos sobre o fenômeno climático e o comportamento do Rio das Velhas. Segundo o estudo, a vazão do rio caiu após seis dos sete episódios fortes de El Niño analisados.
A partir desse padrão, o FPSF aponta que o período seco de 2027 pode ser mais severo, enquanto 2028 pode registrar uma situação ainda mais crítica.
El Niño deve ser muito forte
O chamado Super El Niño é um episódio de intensidade excepcional do fenômeno climático, provocado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial.
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), há mais de 90% de probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte em 2026 e 2027. O órgão também aponta 75% de chance de que o evento esteja entre os mais intensos registrados desde 1950.
Para analisar os possíveis efeitos sobre o Rio das Velhas, o FPSF utilizou dados do índice ONI, que acompanha a intensidade do El Niño, além de registros de vazão do rio desde 1971 e informações de chuva de diferentes pontos da região.
O pesquisador Euler Cruz, responsável pelo estudo, explica que o padrão observado nos dados históricos não indica necessariamente uma queda imediata da vazão durante o El Niño. Segundo ele, os efeitos mais severos aparecem nos períodos seguintes.
“Se esse El Niño realmente tiver a intensidade que está sendo prevista, o histórico mostra que existe uma possibilidade muito grande de termos uma seca muito forte depois”, afirmou Euler ao BHAZ.
O pesquisador ressalta que a projeção é baseada em padrões históricos e não significa que o mesmo cenário necessariamente irá se repetir.
Vazão pode cair até 60%
A nota técnica do FPSF trabalha com diferentes cenários de intensidade para o fenômeno. Segundo os cálculos apresentados pelo estudo, caso a anomalia de temperatura do Pacífico chegue a cerca de 3°C, a vazão média do Rio das Velhas poderia cair aproximadamente 47%.
Em um cenário ainda mais intenso, com anomalia próxima de 3,7°C, a redução poderia chegar perto de 60%.
O estudo aponta que uma queda dessa magnitude levaria a vazões próximas das registradas nos períodos mais críticos dos últimos anos. A nota cita os anos de 2014 e 2017, quando a vazão média ficou próxima de 15 metros cúbicos por segundo na região analisada. Os números são cenários calculados pelo estudo, e não uma previsão oficial de vazão para 2028.
Abastecimento da Grande BH pode ser afetado
A preocupação está relacionada à importância do Rio das Velhas para o abastecimento da capital e da Região Metropolitana.
Segundo material divulgado pelo FPSF, a Estação de Tratamento de Água (ETA) Bela Fama, em Nova Lima, é responsável por cerca de 71% do abastecimento de Belo Horizonte e aproximadamente 51% da Região Metropolitana.
A unidade capta água do Rio das Velhas. Por isso, uma redução expressiva da vazão poderia afetar o abastecimento, segundo Euler.
“Se a vazão cair de forma muito acentuada, o impacto para a população seria muito grande”, afirmou.
O pesquisador defende que medidas de prevenção sejam adotadas antes de uma eventual crise. Entre as sugestões estão o monitoramento permanente da vazão do rio, a elaboração de planos de contingência, a redução do desperdício e a preparação de estratégias específicas para serviços essenciais, como hospitais e escolas.
O estudo também recomenda o acompanhamento contínuo dos indicadores do El Niño, além da revisão de outorgas de uso da água e da fiscalização de possíveis captações irregulares.
Chuva extrema também preocupa
Além da possibilidade de seca severa, o pesquisador Euler Cruz alerta para o risco de períodos de estiagem serem seguidos por chuvas intensas.
Segundo ele, a alternância entre extremos climáticos pode aumentar os desafios para a região, com períodos de baixa disponibilidade de água e, posteriormente, episódios de chuva forte e inundações.
Por isso, o pesquisador defende que os órgãos públicos se preparem para os dois cenários, com planos de contingência tanto para uma eventual crise de abastecimento quanto para eventos de chuva extrema.
Copasa é questionada sobre abastecimento
O BHAZ procurou a Copasa para saber se a companhia recebeu a nota técnica do Fórum Permanente São Francisco, como avalia o cenário projetado para 2027 e 2028 e quais medidas estão sendo adotadas para garantir o abastecimento caso a vazão do Rio das Velhas sofra uma redução significativa.
A matéria será atualizada com o posicionamento da empresa.













