“A intolerância religiosa é o marco da desumanização da sociedade. Porque quando a gente ataca a religião do outro, a gente deixa de professar a nossa”. O desabafo é do Pai Murilo de Oxalá, sacerdote da Fraternidade Jesus Amigo (Feja) no bairro Fernão Dias, em Esmeraldas, na Grande BH, após encontrar o terreiro completamente vandalizado e furtado na última quinta-feira (30).
Em conversa com o BHAZ, Pai Murilo contou que havia deixado o espaço no último domingo (26) em perfeito estado, mas quando retornou na quinta-feira (30) o cenário já era de devastação. Ele disse que ao chegar no local, encontrou itens religiosos jogados na rua e, dentro do templo, a destruição era quase total. “Nós tiramos três caminhonetes de coisas quebradas lá dentro. Deixaram só as paredes em pé”, relatou.
Além da quebra de assentamentos sagrados de orixás e inquices, o sacerdote disse que os criminosos também furtaram dezenas de cadeiras de plástico usadas nas atividades promovidas pela casa. Pai Murilo ainda relatou que foram levados objetos pessoais ligados à iniciação dele no Candomblé. Ele classifica a ação como “pura covardia”: “a grande questão foi terem quebrado o assentamento de Exu, de terem roubado e profanado de todas as formas os assentamentos de Ogum e de outros orixás”, comentou.
“Quando a gente ataca a religião do outro, a gente deixa de professar a nossa. Quando a gente julga o outro, a gente a gente perde a capacidade de olhar para si mesmo com leveza”, destacou Pai Murilo.
Segundo ele, o prejuízo financeiro estimado para a reabertura da casa não deve ser menos de R$ 10 mil, valor que inclui a reposição de materiais e a infraestrutura necessária para realizar os rituais. Para além do dinheiro, Pai Murilo destacou que ainda há uma complexidade espiritual para que o local volte a funcionar. “Agora eu demando dos meus mais velhos, da minha mãe de santo vir para minha casa e refazer várias estruturas espirituais… para que eu volte a poder tocar”, explicou.
Por isso, ainda não há uma data definida para que as atividades retornem. Em publicação nas redes sociais, a Feja comunicou a suspensão temporária das atividades externas. “Não temos data ainda para retorno, mas podem saber que a casa está ficando ainda mais linda e com mais estrutura para abrirmos os trabalhos e atividades culturais na nossa casa”, disse a postagem.
Casa já foi alvo de violência em outras ocasiões
De acordo com Pai Murilo, esta não é a primeira vez que a casa é alvo de violência. Em julho de 2022, o terreiro sofreu três invasões consecutivas em diferentes sextas-feiras. Na época, o espaço estava localizado no mesmo bairro, mas em outro endereço. Depois da invasão, ele contou que adquiriu o terreno atual e, desde então, não recebeu reclamações. “Eu nunca tive problema com vizinho, com ninguém, nunca”, destacou.
Agora, quatro anos depois, a situação se repetiu com maior gravidade. “Em 2022 a casa tinha muito menos estrutura. Hoje tem muito mais coisas… Desta vez, o que foi quebrado, profanado e roubado foram itens do culto religioso”, explicou.
O sacerdote contou que registrou um boletim de ocorrência na Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) e afirmou que a postura humanizada utilizada pelos policiais deu força nesse momento difícil. “Uma das coisas que tornou mais possível passar por tudo isso foi o respeito e o acolhimento da polícia. Eu jamais esperaria tanta sensibilidade, respeito e atenção naquele momento como foi dado pra gente”, disse.
Conforme contou, os policiais ainda sugeriram medidas para melhorar a segurança da casa, como a instalação de sistemas de monitoramento com câmeras e concertina. No entanto, até então, ele não havia recebido uma resposta sobre o progresso das investigações. A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) informou ao BHAZ que, até o momento, “não houve conduzidos à delegacia”, comunicou em nota.
Resiliência
Apesar da dor de ver os assentamentos profanados, muitos dos quais tiveram que ser devolvidos à natureza em um ritual na beira do rio, o sacerdote mantém a fé inabalável e garantiu que o fechamento da casa não é uma opção. Pai Murilo explicou que, embora o assentamento faça parte da relação dele com o sagrado, “aquilo que é sagrado não se limita”. “Exu é caminho muito antes de ser assentamento’, completou.
Atualmente, a Feja conta com 72 filhos de santo e atende cerca de 200 pessoas por semana, sendo reconhecida pela atuação em diversos projetos sociais em Esmeraldas. Agora, a comunidade iniciou uma campanha de doações para reconstruir o local e reforçar a segurança, visando evitar novos ataques.












