Aceitação ou ‘romantização’? Participação de Tiago Abravanel no BBB levanta debate sobre gordofobia e obesidade

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No BBB, Tiago Abravanel protagonizou conversas importantes sobre o tema (Reprodução/Globo)

Em apenas uma semana, o BBB22 já levantou diversas pautas que vão muito além do jogo e que refletem problemas e estigmas do mundo real. Um desses assuntos foi abordado pelo ator Tiago Abravanel, participante do grupo camarote que tem levantado alertas sobre gordofobia aos outros brothers. Em uma conversa na academia da “casa mais vigiada do Brasil”, por exemplo, ele compartilhou as dificuldades que pessoas gordas enfrentam rotineiramente em tarefas básicas do dia a dia.

“A gordofobia vai além do estético. Eu não passo em catracas, o cinto da poltrona do avião não cabe em mim. As pessoas gordas são excluídas da sociedade. O problema social hoje é que as pessoas olham para alguém gordo e automaticamente falam que ela não é saudável. Temos que desconstruir isso”, afirmou o ator.

A simples presença do artista no programa já fez reverberar diversas discussões na internet. Isso porque Abravanel já é conhecido nas redes sociais por propagar a autoaceitação e o respeito por corpos gordos.

Equilíbrio é tudo (e existe)

Os debates levantados pelo ator fizeram surgir ainda várias perspectivas sobre o assunto, inclusive aquelas que contestam os tópicos levantados por Tiago. Pouco após o início do reality, uma página de nutrologia com milhares de seguidores no Instagram viralizou ao fazer uma crítica sobre o assunto.

O texto, que foi excluído após a repercussão, foi publicado junto de uma foto de Tiago Abravanel vestindo uma sunga, na área externa da casa, e trazia dados sobre a obesidade no mundo. “Enquanto acharmos normal uma foto como essa, nossa sociedade permanecerá doente”, dizia um trecho.

Desde então, o assunto segue dividindo opiniões nas redes sociais, com vários profissionais saindo em defesa do ator e outros afirmando que a obesidade não deve ser “romantizada”. Para entender melhor o assunto, o BHAZ conversou com a nutricionista Maria Tereza Beling, que explica que o equilíbrio é a chave de tudo. 

“Eu acho que é muito importante que a gente não estigmatize [a obesidade], mas também não a romantize. É preciso um equilíbrio. A gente não pode falar que um indivíduo de 120 kg tá feliz com seu próprio corpo e que isso por si só basta como saúde. Saúde é um estado de bem estar físico, mental e social”, explica.

‘O corpo é um templo’

“Em primeiro lugar, a gente precisa considerar que o peso, ele está sim relacionado a determinantes de saúde. A gente não pode ignorar esse fato. Tanto o baixo peso, quanto o sobrepeso podem acarretar ao nosso organismo uma maior probabilidade para o surgimento de diversas doenças”, acrescenta ela.

A especialista explica, ainda, que o fato de uma pessoa não estar dentro do peso ideal não significa que ela seja obesa. Aos médicos, cabe analisar toda a composição corporal do paciente.

“A gente tem que ter muita seriedade enquanto profissionais de saúde porque o corpo é uma espécie de templo que está abrigando os nossos órgãos e nos fazendo sobreviver e que pode viver mais e melhor se a gente cuidar bem dele”, frisa ela.

Durante a conversa no BBB, Abravanel expôs os estigmas que pessoas gordas sofrem e afirma que “generalizar o sobrepeso como fator de risco é gordofobia”. “Eu, com 120 quilos, tenho meus exames todos em dia, sem colesterol alto nem nada. Cada caso é um caso, o médico precisa estudar individualmente”, disse.

‘É sobre exigir respeito’

Ana Luiza Palhares é digital influencer e, em seu perfil no Instagram, ela fala com frequência sobre o assunto para os mais de 170 mil seguidores. Na visão da jovem, aceitar o próprio corpo como ele é não representa comodidade, mas sim, uma reivindicação por respeito.

“Ninguém ali tá falando que ser gordo é incrível e propagando a obesidade para todos. É sobre exigir respeito e, querendo ou não, é o mínimo. Só que esse é um direito que nos é negado só por a gente ter o corpo que a gente tem”, disse Ana. 

‘Tome esse chá de engordar!’

“Eu nunca nessa vida vi alguém falando ‘vamos todos ser gordos’, ‘prepare seu corpo para o verão, venha comer muito e ficar gordo conosco!’, ‘tome esse chá de engordar, faça essa massagem engordadora’. Acho que não existe uma apologia e nem uma romantização da obesidade, que tanto falam”, acrescenta a influenciadora.

A nutricionista Maria Tereza ressalta que, embora o indivíduo deva ser responsabilizado pelos cuidados com o próprio corpo, pessoas obesas não podem ser culpadas pelos corpos que têm – como acontece com frequência, seja por meio de comentários preconceituosos, estigma ou até de falta de estrutura básica para acolher corpos fora do padrão. No BBB, por exemplo, Tiago Abravanel precisou usar toalhas da área externa da casa, já que as que foram disponibilizadas para os participantes eram pequenas para ele.

“A pessoa não escolhe ser obesa e a sociedade estigmatiza e é preconceituosa sim em relação a essas pessoas. Além delas não terem acesso a serviços de qualidade, elas são culpabilizadas por essa questão”, pontua.

Representatividade de corpos

A presença de Tiago no programa também trouxe à tona a falta de representatividade de corpos na televisão, em especial àqueles que fogem do considerado “padrão de beleza”. Para Ana Luiza, a preferência por dar visibilidade a corpos magros parte de e é estimulada por um viés comercial.

“Querendo ou não, se vende muito a magreza. E se vende no sentido literal. A magreza reina na beleza, nos cosméticos, na moda, então, querendo ou não, rende muito mais dinheiro para veículos grandes veicular corpos padronizados”, pondera.

Apesar disso, para a influenciadora, a participação de Abravanel é importante por levar esse debate para “fora da bolha”. Algo que ela mesma tenta fazer, diariamente, através do seu perfil no Instagram.

“Quando a gente tá numa emissora de repercussão nacional, em um programa que, querendo ou não, a gente sabe que bomba muito, a gente começa a sair da bolha com esse discurso. Pra chegar na senhorinha que tá ali assistindo TV aberta e nunca ouviu falar sobre isso, que reproduz gordofobia em casa e às vezes nem sabe”, comenta Ana. 

Magreza é sinônimo de saúde?

Embora haja uma grande valorização de corpos magros na sociedade, o emagrecimento nem sempre está relacionado à saúde. Apesar de os corpos gordos serem quase sempre os apontados para revelar “alertas” à saúde, o médico endocrinologista Tiago Spizirri explica que a obsessão por ter um corpo magro pode representar sérios distúrbios.

“Existe um emagrecimento de forma exagerada que pode significar até uma alteração de personalidade. Alguma doença psiquiátrica e isso também precisa ser tratado. O emagrecimento pode estar relacionado a distúrbios como anorexia e bulimia, então nem todo emagrecimento é saudável”, conta ao BHAZ.

Já a nutricionista Maria Tereza Beling explica que cuidar do próprio corpo vai muito além do esforço para emagrecer. Para ela, o próprio paciente precisa se livrar dos estigmas sobre si mesmo para levar uma vida mais saudável.

“Eu já recebi pacientes obesos que perderam 20 kg em um mês por causa de uma doença altamente catabólica e ficaram felizes. Isso não configura de jeito nenhum um emagrecimento saudável. Ele é feito com acompanhamento nutricional e atividade física”, diz Beling.

BHAZ indica

Se você ficou curioso sobre o tema e tem vontade de se aprofundar ainda mais nessa discussão, o BHAZ preparou uma lista de conteúdos variados que abordam o tema. Confira:

  • Porque sou gorda, mamãe?

Livro publicado em 2006 pela jornalista brasileira Cíntia Moscovich fala sobre crises de autoimagem corporal, ódio e aceitação do próprio corpo.

  • Fome: uma autobiografia do meu corpo

Lançado em 2017, o livro “Fome”, da escritora americana Roxane Gay fala como o corpo pode ser um “esconderijo” dos nossos medos e inseguranças. A partir da sua própria experiência, a autora, que engordou até os 260 kg após sofrer um abuso sexual, relata como é conviver com distúrbios alimentares e faz alertas sobre fatores individuais e sociais que estão relacionados ao peso.

  • GordaCast

PodCast idealizado pela jornalista Thamiris Rezende traz reflexões e discussões de temas que envolvem o universo de pessoas gordas. Com a participação de convidados, o programa fala sobre auto-aceitação e desconstrução de padrões.

  • Maintenance Phase (Fase de Manutenção, em português)

Os episódios “Is being fat bad for you? (É ruim ser gordo para você?)” e “Anti-fat bias (Viés anti-gordura)” do podcast de saúde Maintenance Phase falam sobre a obesidade ao longo dos anos e debatem a acessibilidade para pessoas gordas.

Edição: Giovanna Fávero
Larissa Reislarissa.reis@bhaz.com.br

Graduada em jornalismo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e repórter do BHAZ desde 2021. Vencedora do 13° Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, idealizado pelo Instituto Vladimir Herzog.

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