VÍDEO: Após quase 50 anos de trabalho na roça, mulher descobre que vai se aposentar e reação comove

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Mulher se emocionou e se levantou para abraçar o advogado (Reprodução/@adv.alexandrepereira/Instagram)

Um vídeo comovente, gravado no interior do Maranhão neste mês, revela uma história de vida triste, porém ainda comum nos rincões do Brasil. Dona Ana Maria Mendes, de 55 anos, finalmente conseguiu se aposentar após quase cinco décadas de trabalho braçal na roça. Sim, ela começou a lida quando tinha apenas 6 anos. A reação dela, quando o advogado deu a notícia tão esperada, dá uma ideia do quão esse direito lhe parecia distante.

As imagens compartilhadas pelo advogado de dona Ana, Alexandre Pereira, mostram o instante em que a senhora descobre que conquistou a aposentadoria (assista abaixo) e, acompanhada da filha, “quebra os protocolos” – atribuídos ao tratamento formal entre cliente e advogado – quando se levanta para lhe dar um abraço de gratidão.

Em conversa com o BHAZ, Alexandre explicou o caso e relatou que também teve impactos pessoais durante ao longo do processo.

Uma vida de trabalho duro

Dona Ana Maria chegou até o jovem advogado por indicação. Analfabeta, ela vive em uma comunidade quilombola no interior maranhense, em Apicum-Açu, a uma hora do centro da cidade. A vida foi difícil: a mulher trabalhou desde os seis anos na roça para ajudar a mãe, que criou os filhos completamente sozinha e sem o apoio de um companheiro.

“Em cidades aqui do interior, a história se repete. Assim como a mãe, ela trabalha desde criança, criando os nove filhos sozinha. E tem muito a questão do machismo, das agressões. Ela chegou a me contar que se casou três vezes, mas os maridos partiam para cima dos filhos e ela se rebelou, preferiu ficar sozinha”, conta Alexandre.

Ainda segundo o profissional, a mãe de Ana Maria trabalhou até perder a visão e, infelizmente, não conseguiu se aposentar. Conhecendo as dificuldades de ser uma mulher trabalhadora e sem muitos recursos financeiros, com a ajuda da filha, dona Ana decidiu correr atrás do benefício previdenciário para não passar pela mesma situação.

Caso especial

Alexandre destaca que todo o processo durou cerca de quatro meses. Como não conseguiu a aposentadoria por outros meios, Ana decidiu procurar um advogado particular e eles deram entrada nos trâmites legais. Cadastrada no Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), ela encontrou algumas burocracias pelo caminho, mas o resultado, para ele, também foi gratificante.

Alexandre temeu que a repercussão das imagens tomassem rumos negativos, mas ressalta que muitos colegas de profissão o apoiaram e teceram elogios à atitude. Ele conta que as intenções do post não foram publicitárias e que, inclusive, recusou-se a atender quem tentou contratá-lo somente por conta do registro.

“Tive medo de que outros advogados interpretassem como publicidade, mas fiquei contente quando outros me parabenizaram e entenderam. Até um juiz de Santa Catarina ficou sabendo, o que achei muito bacana. Na área previdenciária existe muito preconceito, tem profissional que cobra o máximo que pode dos clientes. Então fiquei feliz em ajudar”.

Vídeo repercute – e emociona

Na publicação do dia 15 de junho, que já ultrapassa mais de nove mil curtidas, Alexandre escreveu que é bom “contribuir para encerrar uma vida inteira” de trabalho duro na roça.

O escritório dele tem um sistema de segurança e, por conta disso, foi possível captar as imagens. Alguns colegas advogados se comoveram e sugeriram que ele publicasse o vídeo nas redes sociais, por ser algo positivo. Com autorização da cliente, ele compartilhou o momento feliz.

“Que massa. Esse é o primeiro vídeo que me dá vontade de advogar”, escreveu uma mulher nos comentários. “Ganhar dinheiro é bom, mas essas coisas são ótimas”, respondeu um homem. “Caiu um cisco no meu olho, te amo, você é muito especial. Deus te abençoe sempre”, elogiou uma terceira pessoa.

Mudança de vida

“Geralmente quando sai o resultado, mando uma mensagem para avisar. Mas, nesse caso, foi especial, porque pode ser só mais uma cliente para mim, mas pra ela é uma mudança de vida. Chamei ela e a filha e preparei o presente de aniversário, mas sabia que o melhor presente mesmo seria o resultado do benefício”, diz o advogado.

“Eu não esperava essa reação partindo dela. Às vezes o cliente agradece de outras formas, presenteando com peixe, por exemplo. Porque aqui no interior o advogado é uma figura de autoridade, né? Mas ela foi tão natural, levantou pra me abraçar. Foi um momento único”, acrescenta, recordando emocionado do instante que marcou sua profissão.

Dona Ana mora em uma área de difícil acesso e não tem contato telefônico nem internet. Mas as imagens de um dos momentos mais importantes de sua vida se espalham pelo país, despertando empatia e esperança.

Aposentadoria por tempo de contribuição

Homens com 35 anos de contribuição e mulheres com 30 anos de contribuição podem solicitar a aposentadoria. Para pedir o benefício, o usuário deve seguir os seguintes passos:

  • Entre no Meu INSS (https://meu.inss.gov.br/#/login);
  • Clique no botão “Novo Pedido”;
  • Digite o nome do serviço/benefício que você quer;
  • Na lista, clique no nome do serviço/benefício;
  • Avance seguindo as instruções.

Em todos os casos, é preciso fornecer o número do CPF. Caso seja procurador ou representante legal, é necessária uma procuração ou termo de representação legal (tutela, curatela, termo de guarda), além de documento de identificação com foto (RG, CNH ou CTPS) e CPF do procurador ou representante. Saiba mais clicando aqui.

Nicole Vasquesnicole.vasques@bhaz.com.br

Graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.

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