Antes de o café chegar à xícara de um morador de Belo Horizonte, ele percorre um caminho longo. Nasce numa fazenda do Sul de Minas, é colhido, processado, ensacado, transportado e distribuído, um trajeto que pode durar meses e envolver dezenas de pessoas. O mesmo vale para o leite do café da manhã, o feijão do almoço, a fruta da sobremesa. Por trás de cada refeição, existe uma cadeia produtiva complexa que começa muito antes de qualquer embalagem surgir numa prateleira de supermercado.
Minas Gerais ocupa um papel central nessa história. O estado é considerado o mais diversificado em produção agropecuária do país, e os números justificam o posto. É líder nacional na produção de leite, responsável por mais de um quarto de tudo que é produzido no Brasil. No café, a liderança vai além das fronteiras nacionais: Minas detém 50% da produção brasileira, e se fosse um país independente, seria o maior produtor de café do mundo.
“A gente sempre brinca que Minas não coloca todos os ovos numa cesta só”, diz Mariana Mundim, gerente de Agronegócio da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) e médica veterinária. Além de liderar em leite e café, o estado ocupa o primeiro lugar na produção de alho e batata, o segundo em cana-de-açúcar, feijão, laranja, limão e ovos, e o terceiro em tilápia, abacaxi e tomate. No total, Minas está entre os seis maiores produtores do país em 40 cadeias produtivas relevantes.
A dimensão econômica acompanha a produtiva. Em 2025, o PIB do agronegócio mineiro alcançou R$ 279 bilhões, o equivalente a 24,1% de toda a economia do estado, com crescimento de 18% em relação ao ano anterior. Pela primeira vez, o setor superou a mineração nas exportações estaduais.
Minas Gerais na produção nacional
Primeiro lugar
Segundo lugar
Terceiro lugar
Fonte: Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg)
600 mil produtores, 80% pequenos
Por trás desses números, há gente. Minas tem mais de 600 mil produtores rurais, e cerca de 80% deles são classificados como pequenos. Não é a imagem do agronegócio que costuma aparecer na televisão, tratores imensos, lavouras que se estendem até o horizonte, drones pulverizando hectares de soja. É, na maioria dos casos, uma família cuidando de uma propriedade pequena, produzindo com os recursos disponíveis, tentando manter a viabilidade do negócio e a qualidade de vida no campo.
Lucas Sigefredo, 46 anos, é um desses produtores. Ex-diretor técnico do Inhotim, onde trabalhou por 18 anos na construção do acervo de arte e depois na gestão do jardim botânico, ele trocou a instituição por um terreno de 20 hectares em Brumadinho, na Grande BH. Em 2021, comprou a propriedade. Em 2022, começou a plantar.
O modelo que ele adota é o da agrofloresta, um sistema de produção que combina diferentes espécies vegetais em diferentes ciclos, imitando a lógica de uma floresta natural. “A agrofloresta é o estado da arte da produção de alimentos”, afirma. “No mundo não tem nada que seja tão eficiente, tão capaz.”
Na propriedade de Lucas convivem mexerica, goiaba, café, manga, abacate, graviola, maracujá, mandioca, milho, feijão, abóbora, quiabo, diversas hortaliças e ervas, além de espécies de madeira nobre como mogno, cedro, jacarandá e jatobá. Tudo no mesmo espaço, plantado em camadas e ciclos pensados para que uma espécie beneficie a outra.
“Aqui eu tenho mexerica, mas tenho também goiaba, café, abacate. O arranjo produtivo já considera essa diversidade”, afirma Lucas.
O tempo que o alimento leva
Um dos aspectos menos visíveis da produção de alimentos é o tempo. A carne bovina que chega ao açougue passou por um ciclo de pelo menos 24 a 36 meses, o período necessário para que o bezerro nasça, cresça e alcance o peso ideal para o abate. A madeira que vai virar papel pode levar 8 anos desde o plantio. O leite, por outro lado, precisa ser entregue à indústria em até 48 horas, é um dos produtos mais sensíveis de toda a cadeia.
“O produtor de leite entrega ou tem que entregar o seu volume pelo menos a cada dois dias, porque são produtos perecíveis”, explica Mariana Mundim. “Assim como as frutas e as hortaliças”.
Na agrofloresta de Lucas em Brumadinho, os ciclos são pensados de forma integrada. As hortaliças e ervas têm colheita contínua. As frutas — mexerica, goiaba — levaram de três a quatro anos para a primeira safra consistente. O mogno e o cedro vão ser colhidos daqui a décadas. “A ideia é que uma planta sempre beneficia a outra”, diz ele. “Enquanto as árvores crescem, as hortaliças já produzem, e quando as frutíferas chegarem à plena maturidade, as madeiras já estarão no caminho”, afirma.

O nó da logística
Entre a porteira da fazenda e o prato do consumidor urbano, existe um obstáculo que impacta diretamente o preço dos alimentos: a logística. O Brasil é um país de dimensões continentais, altamente dependente do transporte rodoviário, e Minas, apesar de ter a maior malha rodoviária federal do país, convive com gargalos que encarecem a produção.
“As estradas vicinais de terra são um grande desafio”, diz Mariana. “Se você não consegue ter condições para transportar, para rodar caminhões nesses ambientes — especialmente em época de chuva —, você acaba tendo perda. E perda de produção é prejuízo: é aumento do custo de produção e é o alimento chegando mais caro para o consumidor.”
Para um produto como o leite, que precisa chegar à indústria em tempo hábil ou se perde, a qualidade das estradas é determinante. O mesmo vale para frutas e verduras, alimentos sensíveis a impactos físicos e variações de temperatura durante o transporte. Cada quilômetro de estrada ruim tem um custo embutido que, no final, aparece na nota fiscal do supermercado.
Lucas resolve parte desse problema encurtando o caminho. Sem atravessadores, ele entrega diretamente a restaurantes em Belo Horizonte, empórios e, principalmente, por meio de cestas semanais entregues na casa das pessoas em BH, Nova Lima e Brumadinho. “A pessoa não tem o atravessador”, explica. “Uma cesta com salsinha, cebolinha, manjericão, cúrcuma, dois tipos de alface, rúcula, couve, folha de batata doce para refogar, banana, mexerica, limão, por menos do que custaria no sacolão, com uma qualidade que o sacolão não tem.”
“Pega esses mesmos itens, vai no supermercado e faz a mesma compra. Vai ficar mais caro — e sem contar a qualidade”, afirma o produtor.

Inovação com raízes
Se a tecnologia do agronegócio convencional passa por drones de pulverização, sensores de solo e softwares de gestão, a inovação de Lucas vem de outro lugar: do conhecimento sobre como os sistemas naturais funcionam.
Antes de plantar a primeira muda, ele passou anos estudando agrofloresta com Ernst Götsch, um suíço radicado no Brasil há mais de 40 anos considerado uma referência mundial no tema. Aplicou o que aprendeu primeiro num terreno arrendado depois na propriedade atual.
Quando chegou ao terreno, ele encontrou nascentes assoreadas e lagoas degradadas. A principal delas tinha 60 metros de extensão e apenas 30 centímetros de profundidade. Usando um facão para identificar onde a água ainda corria sob o solo, foi desobstruindo nascentes e recuperando o fluxo hídrico. Hoje, essa lagoa tem 4 metros de profundidade e 2,7 mil metros quadrados — e abastece o sistema de irrigação da propriedade. Uma segunda lagoa tem mais de 3 mil metros quadrados.
Ele também aproveita folhas descartadas por condomínios da região, que seriam levadas a aterros sanitários a dezenas de quilômetros de distância. Na fazenda, viram cobertura do solo, um “colchão” que retém umidade, regula a temperatura e alimenta os micro-organismos responsáveis pela fertilidade natural.
“O caminhão ia para o aterro sanitário, rodando 40 quilômetros a mais, emitindo mais carbono e pagando para descarregar. Aqui, esse material precioso vai para o solo e me beneficia na produção de alimentos”, diz Lucas.
Conhecimento como insumo
Tanto a Faemg quanto Lucas apontam para a mesma direção quando o assunto é o que faz a diferença no campo: conhecimento.
Pelo programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATG) do Senar Minas, mais de 20 mil produtores de 14 cadeias produtivas diferentes recebem atendimento gratuito. Ao todo, mais de 200 mil produtores e colaboradores do agronegócio já foram capacitados. “A tecnologia só vem bem sucedida se acompanhada de uma assistência técnica de qualidade”, diz Mariana. “Aquele técnico leva a inovação para dentro da propriedade, para uma tecnologia que atenda à realidade daquele produtor, daquela região”.
Lucas, que produz em agrofloresta, é atendido pelo mesmo programa. “Eu sou o cara que mais fez curso que você puder imaginar nos últimos anos”, diz, referindo-se às formações do Senar. “Eles vêm aqui, a gente conversa, discute as técnicas. É fundamental”, afirma.

A cidade que depende do campo
Belo Horizonte não produz, em escala relevante, nenhum dos alimentos que aparecem no prato dos seus moradores. Está cercada por municípios que produzem, leite em Contagem, hortaliças em Brumadinho, orgânicos em Nova Lima, mas a capital em si é, essencialmente, consumidora.
“Sem o campo, a gente não sobrevive”, diz Mariana de forma direta. “Na hora que você levanta, que você toma o seu café, come o seu pão, o ovo, o queijo — tudo isso tem agro. Mas não é só isso. É a roupa que as pessoas vestem, é o calçado de couro, é o banco do carro, é o álcool que abastece o carro”, considera.
Para Lucas, essa conexão também é o motor da sua escolha de vida. Ele produz 90% do que come na própria fazenda, frutas da estação, ervas frescas, mel das abelhas que ele mantém no terreno. Mas o que sobra vai para a cidade. Vai para o restaurante que serve o jantar de alguém, para a cesta que chega numa sexta-feira na porta de um apartamento em Belo Horizonte, levando a cúrcuma, a rúcula, o limão colhido dias antes a alguns quilômetros dali.
Da terra à mesa, o caminho é longo. Mas começa mais perto do que parece.








