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Do campo à mesa: como a tecnologia e a qualificação profissional transformam a produção mineira

17/06/2026 às 14h50
gado de leite fazenda Betim

Você conhece todo o caminho do queijo, do leite, da alface e do tomate para chegar à sua mesa? Aqui, não estou falando só de logística, mas de todas as etapas e processos que passam esses produtos antes de prontinhos para o seu consumo. Posso te dizer que são muitos braços envolvidos na cadeia produtiva do agro, e tem um especial envolvido na busca por mais qualidade e produtividade na trilha dos alimentos até a casa dos mineiros: o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), um braço do Sistema Faemg.

Funciona assim: um técnico vai à fazenda, faz um diagnóstico inicial da propriedade, verifica possíveis pontos de melhoria e faz uma série de recomendações ao produtor. Depois, verifica a implementação de cada novo processo. Mensalmente, ao longo de dois anos, ele retorna à propriedade para acompanhar cada novidade, de olho na incorporação de tecnologia e inovação ao trabalho do campo e também na qualificação da gestão.

Apenas em 2025, mais de 22 mil produtores foram atendidos em Minas Gerais. São mais de 600 técnicos diariamente atuando diretamente com pequenas e médias propriedades rurais. Com formação em cursos ligados às ciências agrárias (engenheiro florestal, agronomia, zootecnia e veterinária), eles são treinados especialmente para o contato direto com o produtor.

“Resumidamente o que fazemos: melhorar a performance das pessoas nos negócios que elas atuam levando pacote tecnológico para dentro das fazendas para que possam melhorar produtividade, qualidade do produto e, por consequência, a sua renda”, afirma o superintendente do Senar, Celso Furtado Junior, formado em administração pela Universidade Federal de Lavras (UFLA) e doutor no tema pela PUC Minas.

Da produção de leite à fabricação de queijos artesanais, o produtor rural e presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Betim, Gleyson Borges, de 45 anos, encontrou na assistência técnica e gerencial (ATeG) do Sistema Faemg Senar um suporte para aprimorar a produtividade da propriedade onde vive, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O programa oferece acompanhamento técnico gratuito a produtores rurais, com orientações voltadas à gestão, manejo e melhoria da produção. 

Dono do sítio há 17 anos, Gleyson encontrou na paixão pelos animais uma fonte de renda. “Eu sou formado em educação física, tinha uma academia, mas desde criança sempre quis mexer com vacas. Em 2021, me mudei para o sítio e, no ano seguinte, larguei minha atividade. Decidi juntar o útil ao agradável e dar início a esse projeto, que era uma vontade antiga e que também pudesse me dar renda”, conta. 

Além da produção de leite, Gleyson e a mãe também produzem e comercializam queijos artesanais. Assim como acontece com o leite, a fabricação dos queijos recebe acompanhamento técnico gratuito do Senar, com orientações voltadas tanto para a qualidade do produto quanto para a gestão do negócio. 

“Nós recebemos dois técnicos do Senar por mês, um para o leite e outro para o queijo. Eles nos ajudam com diversas orientações e dicas. Inclusive, uma técnica ajuda minha mãe com a fabricação do queijo e vai levar nosso produto para a feira MegaLeite para que a gente possa receber um feedback do nosso queijo”, afirma. 

O apoio do Senar também será fundamental para um novo passo na propriedade: a criação de uma queijaria. A ideia é transformar uma construção do sítio em uma cozinha industrial para a produção dos queijos, que hoje ainda são feitos dentro da casa da família. Segundo Gleyson, o projeto contará com assistência técnica especializada para adequação da estrutura e implantação da agroindústria. 

Tecnologia e conforto animal aumentaram a produtividade no sítio 

Para aumentar a produtividade do rebanho, Gleyson apostou no sistema compost barn, modelo de confinamento criado nos Estados Unidos e utilizado para garantir mais conforto e controle sanitário aos animais. Segundo ele, a estrutura foi planejada com orientação técnica do Senar e, além de melhorar a qualidade do leite e a saúde dos animais, também trouxe vantagens econômicas. 

“Para mim, foi fundamental essa parceria do Sistema Faemg Senar com o sindicato e o técnico nos atendendo aqui. Junta um pouco do saber prático que a gente tem com o saber técnico e acadêmico deles. Aumentei minha produtividade e isso se transforma em renda”, ressalta.

Atualmente, Gleyson produz cerca de 200 litros por dia e 6 mil litros por mês. Desse total, 85% é destinado a uma cooperativa de leite e 15% à fabricação dos queijos. 

Outra orientação recebida por Gleyson por meio da assistência técnica do Senar foi a implantação da chamada “linha do leite”, sistema de canalização que leva o leite diretamente da ordenha até o tanque de armazenamento. Para ele, a mudança deve melhorar a ergonomia do trabalho, reduzir riscos de contaminação e otimizar o processo de limpeza dos equipamentos.

“Hoje, a gente tira o leite no latão, carrega peso, desmonta tudo para lavar e ainda corre o risco de contaminação. Com a canalização, o leite vai sair direto da ordenha para o tanque. Além disso, o sistema faz a higienização praticamente sozinho, com água quente circulando pelas tubulações”, ressalta.

De acordo com o produtor, todas as recomendações do programa são melhorias que trazem mais praticidade, mais qualidade e mais produtividade para a propriedade.

Treinamento massivo gratuito e personalizado

E não para aí. São mais de 300 cursos gratuitos disponíveis para trabalhadores rurais no programa de Formação Profissional Rural. É possível aprender sobre operação de drones, mecanização agrícola, segurança no trabalho e sobre a cultura do café e da pecuária bovina de leite, entre tantos outros treinamentos disponíveis.

No ano passado, 227 mil pessoas foram atendidas no programa. A fazenda se transforma na sala de aula. O método leva em conta que se aprende a fazer fazendo. “O curso na pequena propriedade busca usar o que ele tem lá, naqueles cinco hectares”, afirma Furtado.

Os cursos têm contribuído também para envolver os filhos de produtores rurais no ramo. A percepção é de crescimento do interesse dos jovens pelo trabalho no campo a partir do uso da tecnologia.

“Eles têm maior habilidade para lidar com a tecnologia. Por exemplo, na operação de drones”, diz o superintendente do Senar, acrescentando que isso contribui para a ampliação do apoio tecnológico pelos pequenos e médios agricultores a partir da percepção da redução do custo de produção. No caso do uso de drones, exemplifica, se tem economia de produto e tempo de mão de obra e maior precisão na aplicação de produtos no processo de pulverização.

Pedro Rocha Franco

Pedro Rocha Franco é jornalista desde 2007 e bacharel em ciências sociais. Foi repórter do jornal Estado de Minas, editor do portal O Tempo e head do departamento de jornalismo digital da Itatiaia. Hoje é gerente executivo do BHAZ. Além disso, colaborou com UOL e Repórter Brasil.

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