{"id":815,"date":"2026-08-16T13:36:09","date_gmt":"2026-08-16T16:36:09","guid":{"rendered":"https:\/\/bhaz.com.br\/primeiramao\/?p=815"},"modified":"2026-08-17T18:27:55","modified_gmt":"2026-08-17T21:27:55","slug":"a-historia-de-amizade-na-cancao-que-herbert-vianna-gravou-na-vespera-do-acidente-que-matou-lucy-e-quase-tirou-a-vida-do-vocalista-dos-paralamas-do-sucesso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bhaz.com.br\/primeiramao\/a-historia-de-amizade-na-cancao-que-herbert-vianna-gravou-na-vespera-do-acidente-que-matou-lucy-e-quase-tirou-a-vida-do-vocalista-dos-paralamas-do-sucesso\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria de amizade na can\u00e7\u00e3o que Herbert Vianna gravou na v\u00e9spera do acidente que matou Lucy e quase tirou a vida do vocalista dos Paralamas do Sucesso"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 hist\u00f3rias na m\u00fasica brasileira que s\u00f3 fazem sentido quando s\u00e3o contadas de tr\u00e1s para frente. Esta \u00e9 uma delas. Come\u00e7a com uma fita K7, uma melodia sem letra e uma promessa entre dois amigos. Termina como uma das can\u00e7\u00f5es mais silenciosamente devastadoras j\u00e1 gravadas no pa\u00eds. No meio do caminho, um avi\u00e3o ultraleve cai no mar da Costa Verde fluminense, a mulher de um dos principais m\u00fasicos brasileiros morre e ele entra em coma. O que ningu\u00e9m sabia, naquela noite de fevereiro de 2001, era que a \u00faltima coisa que Herbert Vianna fez antes do desastre a\u00e9reo foi deixar uma fita na casa do vizinho.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Dois vizinhos na Vargem Grande<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leoni e Herbert Vianna se conheceram no come\u00e7o das respectivas carreiras, ainda nos anos 1980, quando Kid Abelha e Paralamas do Sucesso disputavam as paradas do rock brasileiro lado a lado. A amizade sobreviveu \u00e0s d\u00e9cadas e, em determinado momento, virou vizinhan\u00e7a. Leoni se mudou com a fam\u00edlia para a Vargem Grande, bairro afastado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, um lugar quase rural, mais parecido com interior do que com a cidade grande. A casa nova ficava praticamente em frente \u00e0 de Herbert. Os filhos dos dois cresceram brincando juntos no mesmo quintal, ainda pequenininhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da proximidade nasceu um desejo antigo de Leoni: compor com o amigo. &#8220;Herbert n\u00e3o \u00e9 uma pessoa de parcerias&#8221;, ele reconhece em entrevista a Felipe Tellis. Mesmo assim, em algum momento dessa conviv\u00eancia, Herbert topou. &#8220;Cara, eu queria lan\u00e7ar uma parceria nossa no pr\u00f3ximo disco dos Paralamas&#8221;, disse a Leoni. Chegaram a esbo\u00e7ar duas m\u00fasicas juntos. Mas o desejo de compor com Herbert nunca abandonou Leoni. Ele j\u00e1 havia usado parcerias com o amigo, ainda que remotas, em can\u00e7\u00f5es como &#8220;Por Que N\u00e3o Eu?&#8221; e &#8220;Educa\u00e7\u00e3o Sentimental II&#8221;, que tinham no time de composi\u00e7\u00e3o ele, Herbert e Paula Toller, vocalista do Kid Abelha e que namorou ambos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A fita da v\u00e9spera<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi nesse contexto de amizade e proximidade dom\u00e9stica que, num dia qualquer do in\u00edcio de fevereiro de 2001, Herbert Vianna atravessou a rua e levou a Leoni uma fita K7. Dentro dela, apenas uma melodia, &#8220;fonemas, sons sem significado&#8221;, como Herbert costumava compor antes de vestir as m\u00fasicas com palavras. N\u00e3o havia letra. Era, em ess\u00eancia, um convite, &#8220;ou\u00e7a isso e me diga o que acha&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leoni ouviu. E decidiu, ali mesmo, que aquela seria a parceria que os dois nunca tinham conseguido terminar. &#8220;Eu falei: cara, vou fazer sobre amizade, sobre isso que t\u00e1 rolando aqui&#8221;, contou o cantor, anos depois, relembrando o instante em que resolveu escrever sobre o que os unia, dois amigos, duas fam\u00edlias, uma vizinhan\u00e7a na beira da mata.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia seguinte, Herbert Vianna sofreu o acidente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A queda<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 4 de fevereiro de 2001, o ultraleve pilotado por Herbert caiu no mar, na regi\u00e3o da Ba\u00eda de Angra dos Reis, perto de Mangaratiba, no litoral do Rio de Janeiro. A bordo estava sua mulher, a jornalista brit\u00e2nica Lucy Vianna (Lucy Needham), que ele conhecera anos antes quando ela o entrevistou para um document\u00e1rio da BBC. Lucy morreu no acidente. Herbert ficou em coma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;A gente era amigo do casal&#8221;, relembra Leoni. &#8220;A Lucy morreu e ele ficou em coma.&#8221; A not\u00edcia chegou como um corte seco na conversa que os dois vinham tendo havia menos de 24 horas. A fita, a melodia, a promessa de uma letra sobre amizade. De repente, n\u00e3o havia mais m\u00fasica poss\u00edvel. &#8220;Eu falei: n\u00e3o sei nem o que fazer disso, n\u00e3o sei o que vai acontecer&#8221;, disse Leoni sobre aquele momento, com a fita K7 ainda em algum lugar da casa, intocada.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A espera<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Herbert permaneceu internado por 44 dias. Enquanto isso, a vizinhan\u00e7a que havia aproximado as duas fam\u00edlias se transformou em rede de apoio. Leoni e a mulher, Luciana, ajudaram a cuidar de duas filhas pequenas de Herbert, Phoebe e Hope. &#8220;A gente ficou t\u00e3o perdido de estar naquele lugar distante sem ele&#8221;, contou Leoni sobre os meses seguintes na Vargem Grande. A casa do vizinho vazia, o jardim que algu\u00e9m precisava cuidar, a espera que n\u00e3o tinha data para acabar. Em determinado momento, o casal chegou a ir a um templo budista, buscando algum tipo de amparo diante da incerteza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi nesse per\u00edodo de espera que a melodia da fita K7 deixou de ser apenas uma parceria pendente e se transformou em outra coisa. Dois meses depois do acidente, quando Herbert finalmente saiu do coma e a not\u00edcia se espalhou de que ele voltaria para casa, Leoni tomou uma decis\u00e3o: sentou-se e escreveu a letra que faltava. N\u00e3o mais uma can\u00e7\u00e3o sobre a amizade cotidiana entre dois vizinhos, um presente para o amigo que estava prestes a reencontrar um mundo completamente diferente daquele que havia deixado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8220;Toma seu tempo, a gente est\u00e1 aqui&#8221;<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A letra fala em cuidar do jardim de quem se ausentou, em luz do dia que continua chegando, em algu\u00e9m que vai estar l\u00e1 para receber e amparar quem volta. &#8220;Toma seu tempo, a gente t\u00e1 aqui&#8221;, diz um dos versos, praticamente uma transcri\u00e7\u00e3o literal do que a vizinhan\u00e7a de Leoni havia feito, na pr\u00e1tica, durante os 44 dias de interna\u00e7\u00e3o. A can\u00e7\u00e3o termina com um mantra repetido em s\u00e2nscrito, recitado pelo Lama Sonam: um trecho associado \u00e0 compaix\u00e3o, \u00e0 cura e \u00e0 purifica\u00e7\u00e3o do carmam, eco direto da passagem do casal pelo templo budista durante a espera.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Herbert finalmente voltou para casa, Leoni deu a ele a letra pronta, como presente. Herbert gravou a m\u00fasica com Leoni. O resultado, &#8220;Can\u00e7\u00e3o Pra Quando Voc\u00ea Voltar&#8221;, saiu em 2003 no \u00e1lbum \u00c1udio-Retrato, de Leoni, um disco de arranjos ac\u00fasticos e minimalistas que revisitava a carreira do cantor, com direito a violoncelo e clarinete na faixa que guardava, sem alarde, a hist\u00f3ria de uma fita gravada na v\u00e9spera de uma trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Pra mim \u00e9&#8230; eu escuto, eu fico arrepiado, eu choro, sabe?&#8221;, resumiu, anos mais tarde, o filho de Leoni, ao ser perguntado qual era a m\u00fasica favorita que o pai j\u00e1 havia composto. A resposta n\u00e3o precisou de explica\u00e7\u00e3o para quem j\u00e1 conhecia a hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"jeg_video_container jeg_video_content\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Felipe Tellis entrevista Leoni e Antonio Leoni | Especial de Dia dos Pais\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qIabyIt36xI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 hist\u00f3rias na m\u00fasica brasileira que s\u00f3 fazem sentido quando s\u00e3o contadas de tr\u00e1s para frente. Esta \u00e9 uma delas. 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