Mãe oferece serviços de costura em troca de comida para sustentar a família: ‘Todo dia tentar não sucumbir’

costura em troca de comida
Costureira teve renda reduzida a quase zero na pandemia (Arquivo Pessoal/Jhoyce Brandão)

Uma mulher de 36 anos surpreendeu e sensibilizou internautas de diferentes partes da capital mineira ao fazer um anúncio no Facebook nesta semana. Moradora do bairro Tupi, na região Norte de BH, Jhoyce Brandão informou que faz serviços de costureira e, como pagamento, pede “biscoitos, leite, verduras, frutas e ovos”. Ela é mãe de duas adolescentes e faz parte das mais de 125 milhões de pessoas que vivem em insegurança alimentar no Brasil, desde o início da pandemia. Ao BHAZ, a mulher conta que tem lutado para prover o sustento da família, em meio a questões de saúde e desemprego.

Jhoyce explica que já trabalhou como costureira de costura reta e usa as redes sociais para anunciar os serviços. Com a publicação nessa segunda-feira (4), ela não conseguiu nenhuma oportunidade de trabalho, mas recebeu uma doação de alguns alimentos. “Fiz a publicação em 20 grupos no Facebook e só duas pessoas entraram em contato e uma delas fez a doação. Já ajuda muito, mas é complicado”, comenta.

Além da costura, Jhoyce também começou a trabalhar com a venda de produtos eróticos, como a fonte de renda principal, ao menos antes da pandemia. “Com a pandemia, a renda chegou a quase zero. Foi nesse momento que eu comecei a divulgar meu trabalho como costureira”, revela. “O meu ex-marido, pai das minhas filhas, está desempregado. Acaba que se eu não fizer o corre do dia-a-dia, eu não vou conseguir alimentar minha família. É correria todo dia para tentar não sucumbir”, acrescenta.

‘Tentando esquecer’

Além de tudo que Jhoyce já vem enfrentando, mais um obstáculo está prestes a se impor na vida dela. Nas próximas semanas, a costureira vai passar por uma cirurgia de histerectomia total abdominal. Isso significa que ela vai fazer a retirada total do útero e do colo do útero. Após o procedimento, Jhoyce levará de 60 a 90 dias para se recuperar, com ao menos 30 dias de repouso total.

A cirurgia colocou em suspenso uma oportunidade de trabalho que poderia ajudar a costureira. “Eu já fui cuidadora de idosos, então eu tenho muitas referências e boa experiência. Ontem, quando eu divulguei meu trabalho, uma senhora entrou em contato comigo para que eu olhasse os filhos dela. É um trabalho que paga bem, com carteira assinada, mas, aí eu lembrei… é uma questão da minha vida que eu estou tentando esquecer. Estou sem saber como que eu vou fazer para falar com ela da cirurgia”, desabafa.

Resiliência

Mesmo com as perspectivas difíceis, Jhoyce resiste na missão de prover o bem-estar e o sustento das filhas. “Hoje eu acabei de tirar umas fotos de um aparelho elíptico que tenho aqui para tentar vender. Cada dia a gente tem que tentar uma coisa para não deixar faltar o café da manhã, o café da tarde”, destaca.

Com o período de repouso previsto pela cirurgia, a costureira não vai ter a possibilidade de realizar trabalhos braçais, mas já tem um “plano B” no comércio digital. “Vou tentar investir mesmo no Instagram da @sexyessencial, para vender online os produtos eróticos. Porque isso eu consigo fazer do computador, da cama”, informa.

Para ajudar Jhoyce, é possível entrar em contato com ela pelo perfil da lojinha online ou pelo telefone (31) 98896-2013.

Insegurança alimentar no Brasil

A família de Jhoyce está entre os 59,3% dos brasileiros – 125,6 milhões – que não comeram em quantidade e qualidade ideais desde o início da pandemia. Os dados são da pesquisa “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil”, coordenada pelo do Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia, com sede na Universidade Livre de Berlim.

Beneficiários do Bolsa Família são os que enfrentam os maiores níveis de insegurança alimentar no país, com 88,2%. Destes, 35% passam fome e outros 23,5% convivem com um nível moderado de insegurança alimentar. Casas com crianças de até 4 anos apresentam índices de insegurança alimentar ainda mais críticos do que a média nacional: 29,3% destes domicílios comem em quantidade e qualidade ideal, enquanto 70,6% vivem algum nível de insegurança alimentar. São 20,5% aqueles que passam fome.

Ser mãe solteira e negra, como Jhoyce, aprofunda essas desigualdades. A fome está presente em 25,5% das casas chefiadas por mulheres, quase o dobro da encontrada em domicílios em que a pessoa de referência é um homem, que representa 13,3%. Quando a pessoa é negra, a insegurança sobe para 67,5%.

Edição: Roberth Costa
Guilherme Gurgelguilherme.gurgel@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Escreve com foco nas editorias de Cidades e Variedades no BHAZ.

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