Eu só pedia por uma segunda chance

câncer de mama
”Em uma escola se você erra, você aprende” (Reprodução/Envato Elements)

Sabe um daqueles dias que você acorda pensando que vai ser só mais um dia comum e num instante sua vida vira de ponta a cabeça? Assim foi o dia 23 de junhopara mim. Estava eu toda feliz, pois havia acabado de entrar de férias do trabalho, tinha comemorado o aniversário de 15 anos da minha filha, minhas parcerias no Instagram estavam bombando e eu estava cheia de planos. Mas, como diria Drummond, “tinha uma pedra no meio do caminho”. No meu caso havia algo mais complexo que uma simples pedra.

Já que estava de férias aproveitei para marcar um exame de mamografia e ultrassonografia de mamas, pois assim como 62% das mulheres, segundo pesquisa feita pelo IBOPE a pedido da farmacêutica Pfizer, eu também não havia feito meus exames preventivos em 2020 por conta da pandemia. Para mim seria só mais um compromisso do dia a ser cumprido e riscado da agenda. Mas não foi bem assim.

De cara a médica que fez o exame sugeriu enfaticamente a realização de uma biópsia. Oi? Fiquei sem entender, sobretudo porque aquele turbilhão de pensamentos em minha mente sobre tudo que ainda tinha que fazer simplesmente parou ao perceber o olhar da médica enquanto falava comigo. Ao sair do consultório li o laudo e, antes mesmo de realizar a biópsia, eu já sabia que estava com câncer. Consegui marcar a biópsia para o dia seguinte com meu mastologista. Ao perceber que eu já entendia o que estava acontecendo, ele se adiantou e me disse que pela experiência dele o resultado daria positivo para câncer de mama. Pediu também a realização de outra biopsia em um linfonodo na axila.

Sabem o que eu sabia sobre câncer até ali? Só sabia que matava e matava muito rápido, pois 23 dias antes havia falecido uma vizinha minha – apenas dois meses após descobrir que estava com câncer de mama. Então aquele diagnóstico me soou como uma sentença de morte apenas três dias depois de minha filha completar 15 anos. Meu Deus, como seria a vida de uma adolescente sem a mãe? Quem a amaria ou teria paciência com ela num período tão conturbado como a adolescência? Eram tantas perguntas que eu só pedia por uma segunda chance.

Te disse o que eu achava que sabia sobre a doença, agora eu vou contar o que eu tive que aprender. Todo mundo tem medo “daquela doença”. Muitos nem dizem o nome. Mas tem palavra pior: Metástase. E foi o que eu passei a temer porque saber que estava com câncer não era o pior que podia acontecer. Precisávamos saber se era só na mama. Então começou uma investigação minuciosa para saber a gravidade e o alcance da doença. Imaginem a ansiedade e o pavor ao abrir cada um dos muitos exames.

Lembro que meu médico durante esse processo chegou a dizer que eu era uma guerreira lutando numa batalha. Mas aquilo me soou estranho porque na verdade eu não queria guerra nenhuma, eu só queria desfrutar das minhas férias, lembra? Então um estalo se deu em mim e eu resolvi trocar a metáfora: “Sou uma aprendiz”. Sim, porque o câncer não era um inimigo, era um professor. Estar na escola com um professor é bem melhor que está numa guerra com um inimigo. Escola é um lugar que eu conheço e que eu adoro estar, até trabalho numa RS…

Em uma guerra se você erra, você morre. Em uma escola se você erra, você aprende. E trocar a metáfora me fez toda a diferença, pois passei a ver as coisas de forma mais leve. Não recebi uma sentença de morte, mas uma chamada para a vida que é muito mais que compromissos na agenda. Recebi um chamado para me colocar em primeiro lugar. Não a casa, o marido, o trabalho, mas eu e minha saúde. E ter realizado esse exame preventivo salvou a minha vida. Sim! Outubro rosa não é só uma data no calendário. É um mês para conscientizar nós mulheres a nos tocarmos, a nos amarmos de verdade. Nos colocarmos em primeiro lugar em nossas vidas. A morte da minha vizinha me despertou para a importância de realizar minha mamografia e a mamografia salvou a minha vida.

Eu pedi por uma segunda chance e a mamografia me deu. O tumor foi descoberto no início e por isso fiz uma cirurgia de retirada apenas do tumor e não de toda a mama. Fiz também cinco sessões de radioterapia. Foi sofrido, mas podia ter sido muito pior. Não havia metástase porque a mamografia detectou o tumor no início, repito.

Estima-se que 4 mil mulheres estão por aí carregando a doença de forma silenciosa em seus corpos, sem oportunidade de iniciar o tratamento simplesmente porque não foram diagnosticadas, pois não fizeram seus exames. Sabem o que isso significa? Que quando descobrirem pode ser tarde demais. “Mas ainda não tenho 50 anos como recomenda o Ministério da saúde”. Nem eu tinha. “Ah, mas na minha família não tem nenhum caso”. Na minha também não. Descobri também que cerca de 85% das mulheres que tiveram câncer de mama não tinham caso na família. Não subestime esse professor chamado câncer. Previna-se!

Eu tive uma segunda chance. Uma segunda chance para me curar, ver minha filha crescer, me colocar em primeiro lugar na minha vida e também para te alertar. Minha segunda chance não pode ser em vão. Quem sabe ela não foi exatamente para te dar o alerta de que você precisa? Então ouça! Termine esse texto e, se ainda não fez, vá direto agendar seus exames. Se já fez, avisa uma amiga, uma irmã, uma esposa, uma filha. Se dê essa chance hoje, para que a minha segunda chance tenha ainda mais sentido. Ouvi recentemente do meu médico tudo que se quer ouvir que eu estou curada. E não resta a menor dúvida de que a mamografia salvou a minha vida.

Pollyanna Prokoppollyannaprokop@gmail.com

Pollyanna é formada em Letras, vice diretora escolar, professora, escritora e compartilha parte do seu dia a dia no perfil @pollyanna.prokop no Instagram.

Comentários