BH debaixo d’água: Inundações são resultado da insistência e do capricho humano, não culpa da natureza

Barragem Santa Lúcia em dezembro de 1980 e Prudente de Morais ontem (Arquivo Público de BH/Acervo Sudecap + Reprodução/WhatsApp)

Por Alessandro Borsagli*

Nessa noite, os transtornos causados pela centenária intervenção na rede hidrográfica de BH inundou parte considerável da região Centro-Sul da capital, que há um bom tempo não sofre com os transbordamentos de fundos de vale em locais próximos às cabeceiras dos córregos do Gentio, Mangabeiras, Acaba Mundo e Leitão, entre outros afluentes da margem sul do ribeirão Arrudas.

Refletindo um pouco sobre isso, sobre barragens nas cabeceiras e como o poder público se comportará a partir de agora, transcrevo parte da minha dissertação de Mestrado, onde abordo a relação entre a evolução urbana de Belo Horizonte e as intervenções na rede hidrográfica:

“Ao analisar os trabalhos de mapeamento do sítio onde se construiu a nova capital de Minas Gerais, percebe-se que os estudos foram realizados de maneira sistemática, de modo a conhecer melhor o território a ser adaptado e modificado a partir de preceitos então considerados imprescindíveis para a construção de uma urbe racional, higiênica e salubre, na qual a rede hidrográfica foi um item considerado de suma importância para a escolha do sítio. No entanto, observa-se que a rede hidrográfica não foi levada em consideração na elaboração da planta da nova capital, exceção feita a Serra do Curral, limite sul do planejado, ao ribeirão Arrudas, inserido no tecido urbano planejado como um elemento de referência geográfico-paisagística e ao interflúvio Arrudas/Onça, limite norte do planejamento da CCNC.

Pode-se concluir que a partir desse momento (1895), ocorreu a ruptura entre a cidade planejada e a rede hidrográfica, que deveria ser controlada pelo racionalismo geométrico da urbe na medida em que o tecido urbano fosse crescendo, onde o caminho das águas deveria ser ditado pela técnica e não pelo meio natural, onde a ideia da busca pela menor permanência das águas fluviais dentro da urbe significava ainda uma maior salubridade para a cidade. Nesse contexto, observa-se que ao mesmo tempo em que os cursos d’água sofreram intervenções de ordem técnica, os transbordamentos de fundo de vale passaram a ocorrer de forma regular, visto que o caminho natural das águas e a perda das planícies de inundação, porções de terras valiosas para o poder público, não foram consideradas no momento das intervenções.

As obras de intervenção na rede hidrográfica, até a década de 1940 acompanhou de maneira satisfatória a evolução urbana no município. A partir de 1950, período que pode ser considerado o início do processo de metropolização de Belo Horizonte e o ano de 1965, observa-se uma crescente disparidade entre a expansão urbana e as intervenções fluviais, fator que contribuiu para o surgimento de uma aversão à permanência dos cursos d’água dentro da cidade a partir do aumento do despejo de esgotos domésticos e industriais, descarte de resíduos e transbordamentos frequentes, que contribuiu para o surgimento de doenças ligadas ao consumo e contato com as águas poluídas.

Ressalta-se ainda que o protagonismo rodoviário nas políticas urbanas do município foi fator determinante para a ampla cobertura dos cursos d’água de Belo Horizonte, iniciada oficialmente no ano de 1963 e em uso até a atualidade.

As intervenções na rede hidrográfica de Belo Horizonte acarretaram na piora dos transbordamentos dos fundos de vale a partir de 1930, sendo que apenas o período compreendido entre 1965 e 1977 apresenta uma sensível melhora nos transbordamentos dos afluentes do ribeirão Arrudas, que apresentou ao longo do processo de evolução urbana um aumento gradativo dos transbordamentos, ressaltando que as grandes obras de intervenção fluvial se iniciaram na bacia do ribeirão da Onça apenas no ano de 1974. Ademais, apesar da sensível melhora no período 65/77, observa-se que os transbordamentos nas bacias dos ribeirões Arrudas e Onça ocorrem de maneira regular desde o final da década de 1970, ainda que as administrações municipais anunciem ao longo das últimas quatro décadas obras de intervenção fluvial que contribuem para a potencialização dos transbordamentos de fundos de vale, fenômenos naturais agravados pela realização de obras mal planejadas e mal executadas.

Ressalta-se que o alto grau de impermeabilização das sub bacias e a massa hidráulica drenada para o canal do ribeirão Arrudas podem ser considerados fatores determinantes no seu transbordamento regular, onde as perdas materiais e humanas ocorrem de maneira frequente há cerca de nove décadas. Nesse sentido, pode-se concluir que o problema dos transbordamentos se deve pela insistência do ser humano em habitar áreas que não deveriam ser habitadas e modificadas, como as planícies de inundação. No entanto, as sociedades buscam desde a antiguidade intervir nos fenômenos da natureza, na esperança de que um dia alguns dos fenômenos possam ser controlados, ainda que a busca contribua para a alteração dos fenômenos, no qual Brito (1944, p.49) observa que o problema das inundações é, portanto, um problema estabelecido pelos caprichos da atividade do homem, onde a impossibilidade de se resolver o problema deve ser aceito para que se evite trabalhos desnecessários, o desperdício de vultosas quantias e desilusões.”


* Mestre em Geografia pela PUC Minas, professor e pesquisador atuante nas áreas relacionadas ao espaço urbano, com ênfase em geografia urbana, geografia histórica e memória urbana. Autor do livro Rios Invisíveis da Metrópole Mineira e do site Curral del Rey e de diversos livros sobre a Geografia Histórica de Belo Horizonte.

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