Mais uma vez, Belo Horizonte realizou um grandioso Carnaval. A cidade foi tomada por um furacão de alegria, que contagiou todas as regiões, credos e estilos musicais. Colocou para dançar 6,6 milhões de foliões, sendo 349 mil turistas de todas as partes do mundo, segundo dados oficiais. A festa girou mais de R$ 1 bilhão na economia e gerou dezenas de milhares de empregos. Isso já não é novidade. Nos últimos anos, o crescimento da nossa folia é exponencial.
Entretanto, tem surgido uma distorção que pode ser o começo do fim do Carnaval de Belo Horizonte: a invasão do que estão chamando de “megablocos”. Algo danoso e equivocado. A começar pelo conceito, pois não são blocos, são sim megashows.
Para se aproveitarem do sucesso alcançado da nossa folia, produtoras e artistas de fora de Minas Gerais promovem uma verdadeira invasão, financiados, mesmo que indiretamente, por recursos públicos. Ao se inscreverem nos editais como “blocos”, eles se utilizam da estrutura oferecida pela Prefeitura e recebem a logística necessária para a realização de um desfile, além de obter financiamento das leis estadual e federal de incentivo à Cultura.
O renascimento do Carnaval da capital mineira só aconteceu pela ação dos blocos de rua. Eles deram origem a um Carnaval original, único e, acima de tudo, plural. Um novo formato de agremiação carnavalesca, diferente de qualquer outra experiência. A união de uma banda sobre um trio elétrico e uma bateria no chão, com um regente entre os dois corpos artísticos dirigindo a harmonia.
Eles são formados a partir de um ecossistema cultural que forma milhares de músicos em suas baterias e fanfarras e ensaiam, criam e se apresentam durante todo o ano, gerando cotidianamente renda para a cadeia produtiva da cultura. Mesmo com apoio escasso e sem políticas públicas permanentes.
Os blocos de rua, assim como as escolas de samba e blocos caricatos, são organismos vivos, inseridos na vida das comunidades. Eles não existem porque desfilam durante o Carnaval, ao contrário, desfilam porque existem.
Levam para as avenidas o trabalho preparado durante todo o ano. Através deles, Belo Horizonte criou uma festa marcada pela diversidade, que é o principal ativo que atraiu milhões de foliões. Com os megashows que começam a tomar conta, a característica será a homogeneidade com outros locais. Caso o turista procurasse um show de uma artista como Ivete Sangalo, iria para Bahia, não para Minas Gerais.
O Carnaval é o maior espetáculo da terra porque é uma atividade que reúne todas as artes. Mas, como tem alertado o professor Luiz Antônio Simas, está ameaçado por uma inversão de valores. Ele diz que a folia carnavalesca é “um evento da cultura, mas está sendo engolida pela cultura do evento”. Ou seja, por nocivos shows de artistas consagrados pela indústria da futilidade, que dimensiona tudo a partir do entretenimento ligeiro, da financeirização, do retorno imediato.
Em Belo Horizonte, o primeiro evento neste formato se deu em 2025, com uma apresentação do DJ Alok, que não tem nenhuma relação com o Carnaval. Em 2026, foram muitos os shows nesse modelo de megaeventos superconcentrados. Se esse movimento não for interrompido, ele ameaça a própria existência do Carnaval.
Os megaeventos já avançaram mais em outras capitais. No Rio de Janeiro, na medida em que foram sendo realizados, blocos tradicionais como o Imprensa Que Eu Gamo e Suvaco do Cristo deixaram de desfilar. Em São Paulo, eles já são frequentes e neste ano um deles causou uma grande confusão, atrapalhando um bloco tradicional da cidade e quase causando uma tragédia.
É responsabilidade do poder público enfrentar essa contradição entre os megashows e a existência de grupos genuínos do Carnaval. Eles não podem receber o mesmo tipo de tratamento e financiamento. Assim como as grandes marcas vão ter que repensar a prioridade que têm dado nos patrocínios desses eventos.
Pelo menos em dois casos, como o show da cantora Marina Sena, em Belo Horizonte, e a apresentação do DJ escocês Calvin Harris, em São Paulo, as empresas patrocinadoras conseguiram um tremendo marketing negativo. Saíram com a imagem arranhada pelos que sofreram ao frequentar tais eventos e conquistaram a ojeriza dos representantes genuínos do Carnaval.
A preparação do Carnaval de 2027 tem que representar uma virada na tendência da priorização dos megaeventos. O poder público e iniciativa privada têm a responsabilidade de criar políticas para salvaguardar as tradições carnavalescas. Os governantes não podem se iludir com o gigantismo. Na ânsia de entrar na disputa para realizar “o maior Carnaval”, podem entrar para a história como os coveiros do próprio Carnaval.








