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O dia que Hulk almoçou lá em casa para convencer uma criança a ser atleticana

02/05/2026 às 12h42
Hulk Pedro

Vinte anos atrás eu saía do país pela primeira vez. De mochila nas costas, peregrinei pelos países do Cone Sul. Na capital argentina, na porta de um shopping de ricaços, trombei com Barney, o dinossauro muito inteligente. Fiz uma selfie com uma cybershot muito antes dos autorretratos com celulares se popularizarem e quando a minha pequena câmera era objeto da moda antes de ser retrô.

Ao chegar em Belo Horizonte, executei o plano que me motivou a tirar uma foto com um personagem de desenho infantil em outro país. Chamei meu irmão e combinei passo a passo. Ele iria para o quarto e, ao telefone, fingiria ser o Barney.

Na sala, com a minha priminha de 3 anos no colo, mostrei a foto, comprovei que era amigo do dinossauro e disse que poderia ligar para ele. “Luana, aqui é o Barney”, falava na outra linha meu irmão com a voz empostada.

Lágrimas rolaram. Era o sonho de falar com o desenho que assistia diariamente na TV.

Corta para 2022.

Hulk já era campeão brasileiro. O Cruzeiro estava na Série B. Mais do que nunca, nos colégios de Minas Gerais, todos queriam ser atleticanos para reverenciar o herói do cinema.

Mas Miguel titubeava. Não era ainda afeito ao futebol.

Apesar da família paterna toda ser atleticana, a materna era americana, e, aos poucos, começava a ser convencido pela mãe e o avô a se vestir de verde em troca de picolés, pipoca e tudo mais que ele quisesse quando era levado de Sete Lagoas ao Horto. Ele tinha quatro ou cinco anos.

Durou pouco. A madrinha agiu. Fui cúmplice.

Tanto quanto os doces, Miguel gostava dos heróis. Tinha a coleção completa dos bonecos da Marvel e da DC. Uma caixa com mais de 50.

Repetindo a história que havia dado certo com Luana, inventamos que éramos amigos do Hulk e que o Galo tinha toda a Liga da Justiça.

Não bastou falar. Era preciso provar. Muito antes da era das montagens perfeitas com IA, fizemos uma bricolagem das mais toscas colocando o já ídolo atleticano sentado à mesa conosco.

Detalhe da foto-montagem: era a mesa da casa de um senhor que mora em Santa Clara, palco decisivo da revolução cubana e onde está enterrado Che Guevara.

Hulk está mais laranja que verde. Parte do braço cortado.

Era o suficiente para a madrinha atleticana convencer o pequeno que ser Galo é bom demais. Melhor que pipoca e picolé.

Emocionado, contou logo para o pai que o ídolo havia estado na casa da tia para comer arroz, feijão e saladinha.

Não demorou para Miguel criar o hábito de pedir uma camisa nova sempre que a última ficava pequena. Foi com Hulk e o Homem-Aranha que aprendeu a torcer para o Galo. A comemorar gol mostrando a força.

Somado aos três anos de Cruzeiro na Série B, o efeito geracional do herói nas crianças mineiras é incalculável, e ver Hulk ressaltar isso no vídeo de despedida, colocando acima de qualquer número, o faz ainda mais ídolo. Afinal, nunca foi só sobre futebol.

Pedro Rocha Franco

Pedro Rocha Franco é jornalista desde 2007 e bacharel em ciências sociais. Foi repórter do jornal Estado de Minas, editor do portal O Tempo e head do departamento de jornalismo digital da Itatiaia. Hoje é gerente executivo do BHAZ. Além disso, colaborou com UOL e Repórter Brasil.

Pedro Rocha Franco

Email: [email protected]

Pedro Rocha Franco é jornalista desde 2007 e bacharel em ciências sociais. Foi repórter do jornal Estado de Minas, editor do portal O Tempo e head do departamento de jornalismo digital da Itatiaia. Hoje é gerente executivo do BHAZ. Além disso, colaborou com UOL e Repórter Brasil.

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