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Pago por um crime e não sei porquê

relato madu

Por Marcella Eduarda Januária Carvalho*

Meu nome é Marcella Eduarda Januária Carvalho e meu nome artístico é Madu. Eu sou nascida em Belo Horizonte e sou do Barreiro. Morei um tempo em Pedro Leopoldo e depois retornei para a região e atualmente moro na Ocupação Eliana Silva.

Comecei no mundo da música aos 9 anos de idade. Sempre gostei de música e aprendi a tocar violão sozinha. Como minha mãe não tinha condições, aprendi vendo outras pessoas tocarem e depois fui fazer aulas na Escola Music. O professor dessa escola de música fez um acordo comigo: ele me dava aulas e, em troca, eu cantava em festinhas da comunidade.

A partir disso, comecei a fazer parte da Escola Aberta, fazendo aula de canto, de inglês e um professor de jazz me ajudava a soltar o corpo para eu poder cantar. Na Escola Luiz Gatti, onde estudei, sempre participava das apresentações e de tudo que precisava. Cantei na Igreja e depois comecei a cantar em barzinhos.

Participei da Arena da Cultura e atualmente faço parte do bloco feminista Bruta Flor. Eu amo música, sou compositora e sonho em viver dela, mas, por enquanto, ainda não ganho com isso.

Ultimamente estou sofrendo porque fui acusada de uma coisa que eu não fiz. Eu não estou acostumada à maioridade, fiz 18 anos em novembro, tem 4 meses e eu ainda me sinto com 17 anos e, por enquanto, a única diferença que a maioridade fez para mim foi quando eu fui presa injustamente.

Fui vítima, fui presa como uma criminosa em flagrante. Mas eu nem cheguei a dar sinal, como eles estão falando. Eu não dei sinal nem para entrar, porque já estava dentro do ônibus, e nem para sair, porque o motorista saiu correndo e a porta de trás ficou fechada.

Eu lembro de uma frase que o Policial Civil me falou. Ele mandou eu me acalmar e fingir que ia estar em uma colônia de férias, que, mesmo sendo inocente, eu tinha que levar para o lado bom. E realmente fingi que estava em uma colônia de férias.

Na cadeia, queria alegrar as outras presidiárias, porque eu sabia que era inocente e ia embora, mas elas iam ficar, então eu cantava pra elas, animava, dançava, compunha. Fazia tudo para elas entenderem que mesmo nesse momento ruim, elas têm um monte de coisa pela frente, mesmo muitas achando que não têm mais nada a perder.

Todo dia eu lembro delas… Eu não fico feliz, eu não estou feliz. Estou feliz porque eu saí de lá, porque posso ver o sol, mas, infelizmente, eu não posso sair de casa na hora que eu quero, mas eu estou aqui fora e elas estão lá dentro. Eu não sei o que está acontecendo, não sei se elas têm água pra tomar banho agora, eu não sei, do mesmo jeito que elas não sabe o que está acontecendo comigo aqui fora.

Eu fiquei constrangida porque fui para a delegacia de menores com oito meninos que não conhecia. Quando chegou lá, todos foram liberados e eu fui a única que fiquei, totalmente desesperada. Não consigo entender porquê fui presa sendo que não cheguei a fazer nada. É incrível porque o que tem de gente inocente lá dentro… não sou só eu que passo por isso.

Eu queria muito que a foto da roupa que eu estava no dia fosse divulgada, porque em nenhum momento foi tocado nesse assunto. É impossível botar fogo em um ônibus com aquela roupa. Não é porque a gente mora em vila, por conta de roupa, piercing, cor de cabelo que quer dizer que a gente é suspeito não, mas eu quero que essa foto seja publicada.

Registro do dia (Arquivo Pessoal)

Esse dia foi o dia que eu tinha descido do ônibus e estava com esta roupa. Ela, inclusive, ainda está em Bicas porque quando saí de lá, me deram roupa de homem.

Toda essa situação foi um aprendizado! As vezes dói, porém prefiro usar as coisas ruins que acontecem na minha vida como coisas boas, e a partir delas tudo se endireita. Lá dentro eu aprendi muitas coisas da vida… Quando fiquei presa, tive muito medo das presidiárias não quererem conviver comigo, mas foi foi o contrário.

Eu não tinha medo delas, éramos muito unidas e aquelas pessoas que conviveram comigo viraram minha família nos cinco dias que fiquei lá. Quatro, na verdade, porque fiquei quatro dias em Bicas (Presídio São Joaquim de Bicas 3) e um dia na delegacia de menores.

A única coisa que me chateia é essa tornozeleira na minha perna, eu me sinto com uma coleira, uma coleira nas pernas. Ainda mais quando eu preciso carregá-la, já que tenho que colocar um fio e, por isso, não consigo nem levantar, tenho que ficar sentada.

Quando eu estava lá dentro, achei que minha mãe nem sabia de nada. Eu nunca imaginei que ia dar essa repercussão toda. Pra mim, eu ia ficar presa, ficar na prisão sem saber de nada. No início, eu imaginei que eu não ia ficar presa, mas quando me chamaram para a audiência de custódia eu pensei que eu ia ficar lá, entrei em desespero! As presidiárias que me acalmavam, pois elas sabiam que eu ia embora, que eu era inocente.

Aquilo ali não é lugar pra ninguém, ninguém merece está ali dentro, mesmo tendo cometido um crime, um fato ruim… a cadeia não e um lugar que a gente merece.

Depois de tudo isso, eu pretendo continuar cantando e agora é um momento que minha mente fica mais criativa. Minha mente parece uma novela e com essas cenas eu tento criar músicas… já estou criando. Pra mim foi uma humilhação o que eu sofri, uma humilhação! Mas é a partir dessa tristeza que, utilizando minhas canções, vou comover as pessoas.


* Marcella Eduarda Januária Carvalho, a Madu, é cantora, compositora e estudante e foi detida no último dia 14 após, segundo a Polícia Militar, dar sinal de desembarque em um ônibus que seria incendiado.

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