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A União Europeia e seu ‘Ano D’

A União Europeia enfrentará o ano mais importante de toda sua existência, uma vez que as eleições que ocorrerão nos principais países do bloco determinarão o caminho a ser seguido no continente: o aprofundamento dos nacionalismos, que no século XX levou a duas Guerras Mundiais; ou a manutenção do bloco europeu supranacional.

O momento não poderia ser pior para a Europa. A ascensão de Donald Trump reforça movimentos extremistas que já vinham ocorrendo na UE, principalmente em alguns países da Europa Oriental. Esse quadro fortalece ainda mais a possibilidade de vitórias dos partidos de extrema-direita europeus, os quais, sem nenhuma dúvida, promoverão referendos para decidir a respeito da permanência de seus países ou não na UE. Se eu pudesse cravar uma previsão, baseada em todos os acontecimentos atuais, eu diria que o bloco europeu está com os dias contados.

Terrorismo e extrema-direita são gêmeos

O declínio do Estado Islâmico na Síria e no Iraque provocará o retorno massivo de potenciais terroristas para a Europa, já que grande parte dos combatentes tem cidadania europeia. Em decorrência disso, o ano de 2017 proporcionará muito trabalho às instituições de Inteligência da Europa, pois a possibilidade de ataques terroristas será aprofundada. Contudo, não apenas o retorno desses combatentes, mas também o aumento dos nacionalismos e das discriminações contra muçulmanos em países como França e Alemanha já propiciam um terreno fértil para a cooptação de novos terroristas.

E como bem sabemos, assim como no 11 de Setembro, ataques terroristas podem abrir espaço para modificações intensas na agenda política, principalmente com intensas restrições às liberdades fundamentais. E querem saber? É exatamente isso que os terroristas desejam, pois o aumento da repressão às minorias muçulmanas promoverá o aumento do extremismo.

Percebem a relação entre extremismo e terrorismo? Quanto mais extremismo, mais ataques terroristas, e quanto mais ataques terroristas, mais extremismo. Sempre bom lembrar que o principal impacto dos atentados terroristas é psicológico. E o medo do “outro” é a seiva que alimenta a extrema-direita mundial, o que já vem colocando em risco a mais importante experiência de integração da história mundial.

Apoiadores do partido de extrema direita alemão, a Alternativa para a Alemanha (AfD), numa passeata em Berlim (Reprodução: REUTERS)

O ano D para a União Europeia

As eleições de 2017 na França, na Alemanha e nos Países Baixos podem marcar definitivamente o aprofundamento dos nacionalismos na Europa. O terrorismo internacional tem uma oportunidade única: ataques bem sucedidos proporcionam medo; o medo impulsiona ainda mais a ascensão da extrema-direita; a ascensão da extrema direita proporcionará a convocação de referendos sobre a permanência ou não na UE, o que pode levar à dissolução da União Europeia. Estejam seguros que os terroristas não perderão essa oportunidade única.

Embora o Reino Unido fosse a segunda principal economia da UE (atrás somente da Alemanha), seu engajamento com a integração não era dos mais profundos, o que não a tornava absolutamente essencial para o esse processo. De maneira diversa, a UE não tem nenhuma chance de sobreviver sem um engajamento profundo de França e Alemanha, uma vez que esses países são os principais expoentes do bloco nos mais diversos âmbitos. Além disso, esses dois países formam a base fundadora do bloco europeu, juntamente com Itália e Benelux (Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo), a chamada “Europa dos Seis”.

Marine Le Pen, a líder do partido da extrema direita francesa Le Front National, contudo, parece disposta a dinamitar o bloco europeu, ainda que isso seja totalmente oposto aos interesses franceses. Embora ela lidere a corrida pela presidência da França, sua eleição pode ser considerada pouco provável, em decorrência do sistema eleitoral desse país.

A presidente do partido de extrema-direita francês, Marine Le Pen (Reprodução: AFP)

Nas eleições provinciais de 2015, por exemplo, Le Front National foi o grande ganhador do primeiro turno, tendo maioria dos votos em 6 das 13 províncias. Porém, a fim de bloquear a eleição dos extremistas, o Partido Socialista (esquerda) e os Republicanos (direita moderada) somaram forças no segundo turno, o que foi determinante para a derrota da extrema direita em todas as províncias.

As eleições para o parlamento, além disso, não seguem o modelo proporcional, o que possibilita a junção dos dois partidos dominantes contra os xenófobos. Para se ter uma ideia, enquanto a FN é o partido francês com mais assentos no Parlamento Europeu (eleições proporcionais), na Assembleia Nacional ela tem apenas 2 deputados eleitos. Portanto, percebe-se que o modelo eleitoral francês permitirá, caso Le Pen vá para o segundo turno, que Republicanos e Socialistas se juntem novamente contra o perigo dos xenófobos tomarem o poder na França.

Enquanto isso, o extremista Geert Wilders, do Partido para a Liberdade, lidera as pesquisas de intenção de votos para as eleições legislativas nos Países Baixos, porém ele também deve enfrentar dura oposição dos moderados.

As eleições ao Bundestag (Parlamento Alemão) ocorrerão em setembro e serão profundamente influenciadas pelas eleições francesa e holandesa. A Alternativa para a Alemanha (AfD), partido da extrema direita alemã, de acordo com pesquisas recentes, deverá conseguir entre 10% e 15%, o que assegurará a presença deles no Bundestag.

Porém, uma vitória de Le Pen ou dos extremistas holandeses poderá aumentar esses números. Ainda que seja improvável que o AfD consiga estabelecer uma coalizão para estabelecer um Primeiro-Ministro (a Alemanha tem o sistema parlamentarista), uma grande presença no Parlamento pode prejudicar a agenda de um futuro governo.

Frauke Petry (Alemanha), Marine Le Pen (França), Matteo Salvini (Itália), Geert Wilders (Países Baixos), Harald Vilimsky (Áustria) e Marcus Pretzell (Alemanha): reunião dos líderes dos partidos da extrema-direta europeia, na Alemanha (Reprodução: REUTERS)

Conclusão

“Ontem, uma nova América, hoje Koblenz e amanhã uma nova Europa. Estamos a viver a alvorada de uma primavera patriótica. O gênio não voltará a esconder-se dentro da garrafa” (Geert Wilders, candidato da extrema direita holandesa)

Sem dúvida, a eleição de Donald Trump exerce um impacto psicológico profundo nos partidos xenófobos europeus, já que demonstra a total possibilidade da ascensão deles ao poder em seus respectivos países. A crise migratória e o aumento da possibilidade de ataques terroristas, além disso, possibilitam o momento perfeito para que o ódio, o medo, as barreiras físicas e os nacionalismos vençam a esperança e a integração.

A UE auxiliou indiretamente a ascensão dos eurocéticos xenófobos, por dois motivos. Primeiramente, tornou-se uma organização tão burocratizada que afastou os povos europeus do processo decisório, instituindo assim um intenso déficit democrático. Somado a isso, a impossibilidade na obtenção de um consenso para a crise imigratória explicitou uma Europa “rachada” nesse e em vários outros temas. Por último, a saída do Reino Unido da UE (Brexit) foi outro fator profundamente desestabilizador.

A desintegração da UE e a volta dos nacionalismos extremistas seriam catastróficas para a estabilidade europeia e mundial, visto que provocaria uma cisão enorme entre os países do continente. No contexto econômico, provocaria uma grande diminuição nos fluxos de comércio intrarregional e extrarregional, prejudicando inclusive a América Latina como um todo.

O principal problema, contudo, reside no campo sociopolítico. Primeiro, uma Europa desunida provocaria o aumento das tensões ideológicas e geopolíticas, uma vez que EUA, Rússia, China, França, Reino Unido e Alemanha preencheriam o vácuo deixado pela UE supranacional. A partir disso, a polarização do continente seria inevitável, impulsionando a instabilidade. Segundo, se existe uma coisa que uma Europa desunida sabe fazer é guerrear, como foi provado por toda a história desse continente, principalmente no século XX (Primeira e Segunda Guerras Mundiais).

E a possibilidade de grandes conflitos na era das armas nucleares não seria prudente para a sobrevivência da humanidade. Já deveríamos saber disso.

Ruínas do ataque nuclear estadunidense a Hiroshima, no fim da 2ª Guerra Mundial (Reprodução: memorial.org.br)

A UE pode não ser perfeita, mas foi uma das maiores conquistas da história europeia. Promover sua desintegração é um atentado contra a humanidade. Porém, parece que o momento de extremismos e os pensamentos de curto-prazo colocarão tudo a perder uma vez mais. A história é um círculo, e parece que estamos novamente na Era dos Extremismos.


Felipe Costa Lima é formado em Direito pela UFMG; Especialista em Política Internacional pela Faculdade Damásio de Jesus; e Mestre em Relações Internacionais pela PUC-Minas. Latino-americano de alma, talvez consiga quebrar visões eurocêntricas sobre os acontecimentos mundiais. Talvez…

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