Home Especiais [Bhaz em série] Minha refeição popular: algumas tardes nos restaurantes da Prefeitura

[Bhaz em série] Minha refeição popular: algumas tardes nos restaurantes da Prefeitura

Fome. Um dor que não se mede. Aquela coisa, aquele mal estar de passar algumas horas sem nada comer já incomodou a todos. O mau humor vai chegando, e o que era preguiça vai se tornando algo pior. Os pensamentos vão se acavalando e, de repente, todo o hemisfério do cérebro vai trabalhando no objetivo de saciar aquela vontade. Que não é meramente uma vontade biológica. É uma necessidade da alma. Parodiando aquele filósofo francês, ‘como, logo existo’.

Dados oficiais dizem que muito já se fez para cuidar da situação da fome no país. O flagelo que assolou nossa patria durante décadas (ou mais provavelmente, centenas de anos), foi amortizado por políticas públicas de redistribuição de renda e demais medidas de inclusão. Na visão deste mal fadado repórter, é dura aquela fala que ao invés de dar o peixe, é necessário ensinar a pescar. Como ensinar a pescar a uma pessoa que está fraca demais para segurar a vara? Primeiro, as prioridades. E, nada mais primordial do que acalmar a besta fera da fome, que corrói entranhas, e toda a outra sorte de metáforas para a maldita coisa assassina. Ela. A sanha famélica. Pronto, agora tenho certeza, estou exagerando na tentativa de poetizar. Vícios da escrita.

Mas, basta de introduções; vamos, aos poucos, iniciar o tema da reportagem. Minha missão como repórter (ouso dizer, jornalista) é a de realizar uma micro (ouso dizer mini) caminhada etnográfica. Vivenciar e traduzir impressões. E, desta vez, vou almoçar em restaurantes populares da cidade, mantidos pela Prefeitura. Lá, olhar, ouvir, observar. Conhecer as histórias de pessoas, que na lida da vida, vão se alimentar entre tantas outras. Encher o corpo de combustível para aguentar as durezas da selva de concreto, da urbe ensandecida.

Os restaurantes populares existem na cidade desde 1994. O objetivo é o de servir refeições de qualidade, essencialmente para populações de baixa renda. Por R$3 é servida uma alimentação balanceada, que mata a fome de pessoas que talvez não tivessem outra maneira de comer. Pessoas em trânsito, transeuntes flanando, moradores em situação de rua. Mas também trabalhadores e membros variados do que se costuma chamar de sociedade. É uma visão preconceituosa de pensar que ali se trata de um assistencialismo aos pobres. Sem dados como os de um censo, mas a visão que se tem é que ali se servem pessoas de todos os tipos. Com o elo da fome. Que já explicitamos, é universal, de todos os seres humanos.

São servidas cerca de 9,6 mil refeições por dia, nos quatro restaurantes populares da cidade. Na unidade do Centro, serve-se café da manhã e jantar. O café da manhã custa R$ 0,75 e o jantar R$1,50. O valor de custo de produção do almoço é de cerca de R$ 6. O valor é subsidiado pela prefeitura.

Entrei em contato com a prefeitura para saber se novas unidades dos restaurantes podem ser abertas. Atualmente temos uma unidade no Barreiro, uma em Venda Nova, outra no Centro e mais uma na área hospitalar. Me foi respondido que atualmente não há projetos para a abertura imediata de novos restaurantes. Também perguntei se há possibilidade de abertura desses restaurante nos finais de semana. A informação oficial é que está sendo estudado um plano para a viabilidade de abertura do restaurante do Centro, que é o de maior demanda.

Lembro-me de pouca visibilidade a esses estabelecimentos em matérias da mídia. Minto. Quase todo Natal, vai lá um repórter daqueles telejornais vespertinos, e faz uma matéria dessas que parecem reprises. É sempre igual. Fala aqui com uma pessoa, faz lá um povo fala, mostra-se o cardápio e diz que a união é o ponto da celebração natalina. Tenho um deja vu sempre que assisto a uma dessas reportagens. Mas a ideia aqui não é a de reclamar do modo habitual de se fazer matérias, mas fazer um slow jornalismo, em que não se tem pressa de responder, como, onde e por que.

Comida dos restaurantes populares é balanceada e preparada por nutricionistas. Repórter do Bhaz foi lá conferir a qualidade (PBH/Smasan)

Primeiro dia – Popular da Rodoviária

Acordei no meu horário de costume. Ou seja, tarde. Moro na esquina da Avenida Afonso Pena com rua Bambuí, no Cruzeiro. Caminho com sofreguidão na ladeira que me separa da famosa via urbana belo horizontina. Cada passo é uma pequena luta. Meu pulmão, acostumado à fumaça do cigarro, sofre; ele se enche e expulsa o oxigênio no ritmo de um asmático. Nota mental: preciso parar de fumar. Mas não nessa década. E, provavelmente, nem na próxima. Chegando ao ponto, acendo um Camel (vermelho) e, com sofreguidão, baforo o tubinho de câncer. Minutos se passam e chega o taxi lotação que irá me levar ao centro da cidade.

O motorista, já puxa assunto. Fala de futebol. É cruzeirense, e se vangloria da conquista recente de seu clube. No banco traseiro, outro passageiro – atleticano – se incomoda. Passam a viagem toda discutindo, mas não uma nota a mais a caminho da briga. É uma leve confraternização, entre dois opostos, cada um acreditando que seu clube é o maior, o mais vencedor, o mais merecedor de títulos. Com fome, eu evito entrar na discussão e me reviro na minha timidez, ou talvez seja, no meu mau humor. A fome dá mau humor. Já te contei isso?

Desço a Afonso Pena até o seu final. É interessante essa avenida, que liga desde os bairros mais nobres, em seu cume, até o reduto mais popular da cidade, em sua base. Caminho pela praça que leva à Rodoviária. A multidão, como de costume, atravessa apressada os sinais verdes. Alheios à pressa, morosamente observo um morador de rua deitado em sua cama de papelão e tentando acender uma bituca de cigarro com um pau de fósforo. Na fé de que não se nega um cigarro pra ninguém, ofereço um dos meus, e o acendo na boca dele. Observo um baba seca, no canto da sua boca. Agradece-me e pede dinheiro. Me esquivo e lhe dou as costas. Ouço-o reclamar que ninguém ajuda ninguém. Concordo mentalmente, até o ponto mesquinho de me arrepender de ter lhe dado o cigarro. Vai me fazer falta à noite, antes de dormir.

Atrás da Rodoviária, caminho até a Avenida do Contorno, passando por baixo dos viadutos, que são comuns na região. Antes disso, convém falar que passo em frente a uma estação do metrô e, na passarela, deparo com várias pessoas em situação de rua. E também vendedores ambulantes, uma constate no centro. Vendem toda sorte de coisas – meias, eletrônicos, correntes. Nem fazia parte do meu caminho, mas queria ver como estava esse lugar. Pontos do centro, pontos da grande metrópole.

Restaurante da Rodoviária foi o primeiro inaugurado pela PBH; nos quatro restaurantes, são servidas 9,6 mil refeições por dia (Maick Handler/Bhaz)

Fila já começa por volta de 10h

São onze e trinta no meu relógio. Alias, no relógio de um passante, a quem pergunto as horas. Não tenho relógio comigo, nem mesmo um telefone celular. Avesso às modernidades? Não, simplesmente, sem dinheiro para comprar um.  E chego finalmente (após duas laudas!) ao restaurante popular da avenida do Contorno 11484. Uma fila se avoluma. Quantas pessoas esperam nela? Cem, duzentas pessoas? Fila rima com cigarro. Toda espera me dá vontade de fumar. Acendo um e começo a observar as pessoas que ali estão. E me alegra o coração estar ali entre todo tipo de pessoas. Digo com certeza que lá estão homens e mulheres de diferentes idades, diferentes cores, tamanhos… Trabalhadores, recém-chegados à cidade, enfim. Nada mais democrático que a vontade de comer.

Puxo assunto com a moça à minha frente na fila. Ela deve ter uns trinta e poucos anos. Não me apresento como jornalista, pois ali sou mais um entre os comensais. Não quero criar a aura de que estou numa reportagem. Incomodada, ela pede que eu fume em outro lugar. Sou avesso a quem reclama da minha sempre presente fumaça. Deixo-a de lado e entabulo um papo com a mulher que esta atrás de mim na fila. Baixinha, ela está acompanhada por uma criança. Concluo que sua filha.

– Nossa, que demora. É sempre assim aqui, nesse horário?

– Ah, nem tanto. Piora mais lá pela uma hora.

– E você? Sempre almoça aqui? Essa é sua filha?

– É sim. Chama Cristina. Não almoço aqui sempre. Mas toda vez que a gente está aqui no ‘centrão’, a gente vem.

– E você gosta da comida?

– É meio sem tempero, mas mata a fome, né?

Olho para a menina. Deve ter uns cinco ou seis anos. Ela sorri para mim. Noto que ela tem um ligeiro estrabismo. E viajo no tempo, perdido na leve visão torta dessa garotinha. Penso em acender outro cigarro, mas me lembro que tinha acabado de fumar um. A mulher que me pediu para fumar em outro lugar me encara com uma expressão grave, quando me vê mexendo no maço. Em desafio, eu levo um a boca, mas olho para a pequena Cristina, que tosse. Renovando o mínimo de respeito pelo próximo, eu guardo o cigarro.

Nos restaurantes populares da Prefeitura de Belo Horizonte almoçam pessoas de todas as rendas, de todas as origens (PBH/Smasan)

Um espaço democrático onde todos se alimentam

O tempo se arrasta, a fila anda e quando percebo, já está na hora da refeição. Corro com o olhar e vejo dezenas de pessoas sentadas, divididas em mesas brancas. Algumas apressadas, outras saboreando com mais vagareza. Chega minha vez para me servir do almoço. O menu é arroz, feijão, e uma salada. A carne é um pedaço de frango assado. Acho a cor do frango meio branca. Mas a fome está voraz. Sento-me à mesa, dividindo o espaço com diversas pessoas. Negros, brancos. Meu olhar não tem o valor de amostragem científica ou coisa assim. Mas a minha primeira impressão, de que no restaurante popular haveria apenas pessoas de baixa renda, se mostra infundada. Não canso de repetir que ali há pessoas de todas as rendas, de todas as origens.

Reparo num homem que está sentado ao meu lado. É de uma negritude vital. Seus olhos estão vermelhos, e ele come com um desejo terrível. Encaro-o, mas tentando não o constranger. Ele arranca nacos de carne de um pedaço de osso de galinha. Pergunto “está bom? Está gostoso?”. Ele responde soltando salivas um “nossa senhora”. Pergunto seu nome e ele diz: Neneco. Deixo Neneco continuar sua refeição e foco no meu prato de comida. Está sem tempero. Um gosto meio insípido. Mas reconheço que isso se deve ao caráter democrático do restaurante. É mais fácil agradar todo mundo só com pouco sal.

Termino a refeição, que tem por sobremesa uma laranja. Neneco se aproxima, meio sem graça e me pede um cigarro. Dou-lhe e reparo que ele carrega uma pesada mochila. Conversando com ele. Explica que veio de Nanuque em busca de um emprego na construção civil. Reclama da crise e diz que ficou difícil de arrumar trabalho na cidade. Está trabalhando como guardador de carro no baixo centro. Na mochila, guarda todos seus bens e documentos. Aperto sua mão e me despeço, pensando na sorte de cada um, na estrela que rege o destino dos homens.

Popular da Rodoviária é o que mais atende à população de rua de Belo Horizonte. Tem também a função de ser um regulador de preços, para baixo (Maick Hanndler)

Segundo dia – Popular da Santa Casa

Começo a semana com a preguiça de uma manhã chuvosa. Saio para passear com o cachorro que estou cuidando. Ele é preto, preto, negro. Seu pelo é brilhante. Mato sua fome com a ração. Penso na minha fome. O estomago ronca. Dessa vez, no mesmo ritmo do canino. Procuro minha chave de casa por vários e longos minutos. Impressionante minha capacidade de perder as coisas dentro de casa.

Dessa vez, consigo chegar no restaurante mais cedo. Fui à unidade da área hospitalar, na rua Ceará 490, no bairro Santa Ifigênia. São dez e quarenta e cinco da manhã quando chego. Há ainda uma formação tímida da fila. Dessa vez, mando meu lado encabulado para as favas. E saio entabulando conversa com todos. Como sempre, o que me leva a fazer amizade com as pessoas é o catalisador social mais efetivo do mundo: o cigarro. (sempre ele).

Meio acabrunhado, um homem estranha meu interesse e minhas perguntas. Me pergunta se trabalho para a prefeitura. Digo que não, que sou só curioso. Ele se afasta. E retoma seu lugar na fila. Concordo que é meio estranho, numa fila em que todos estão é com vontade de comer, um careca curioso ficar interpelando as pessoas, com perguntas banais, como “você está com fome?”

Pergunto a esmo, para a moça que está à minha frente na fila. “O que será que tem de almoço hoje?” Ela responde um “sei não”. Insisto: “tomara que tenha uma carne gostosa”. Ela me diz: “olha moço, meu marido é ciumento e não gosta que eu fique de conversa com homens pela rua”.

É. Ciúmes é caso sério. Ela entra no restaurante e eu conservo uma distância segura daquela moça. Sinto-me ridículo.

Cardápio do dia: arroz, feijão e carne de boi em cubos. Acho a refeição mais gostosa. Com mais gosto. O arroz está meio empapado. E o feijão está um pouco ralo. Pelo menos pro meu gosto. Mas tem gosto de que foi feita com carinho. Será que estou perdido em devaneios, onde só existe um fato simples?

Ao meu lado, uma criança faz birra no colo do pai. Não quer comer de jeito nenhum. Tem, sei lá, oito anos? De seu nariz escorre uma coriza. O pai, paciente, lhe serve na boca uma colherada de feijão. O menino empurra a comida, que cai na mesa branca. Esperneia um pouco. O pai suspira. Como era o ditado? Ser pai é padecer no paraíso?

Reparo que entre as pessoas, há muitas de roupa branca. Médicos, ou enfermeiros, concluo o óbvio. Isso só vai confirmando minha teoria de que a alimentação é democrática nos restaurantes populares.

Sobremesa. Levanto. Cigarro. Caminho. Ônibus. Fim do segundo dia. Agora é ir para a redação, escrever o relato do dia.

Leia amanhã a segunda parte da reportagem

 

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